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Sertanejo

Não calo a minha boca
Agora que eu comecei a falar
Tem gente que quando fala
Só sai besteira
Mas eu vou falar
Do céu e do mar,
Dos peixes e as estrelas.

Nem sei por onde começar...
Acho que vou começar pelo sertão
Lá não tem mar
Mas tem estrela de montão
As vezes quando me sinto vazio
Para o céu começo a olhar
Aqui no sertão a noite faz frio
Por isso faço uma fogueira
Para nela me esquentar
Pego a minha viola
E começo a cantar
Me alembro do passado
Então começo a chorar
Mas eu não choro de tristeza
Minhas lagrimas são de satisfação
É certo meu passado sofrido
E os calos que tenho na mão
Apesar de tudo
Para outro lugar não quero ir
No sertão que é bom
E daqui não quero fugir.

Um dia...
Um dia eu quero ver o mar
Me disseram que é bem grande
Muito difícil de acreditar
Pra quem já viu o céu do meu sertão
Não há de acreditar
Que existe um marzão

Eu acredito em saci, caipora e mula sem cabeça...
Até já vi uma mula sem cabeça
Nos arredores da minha plantação
Apanhei a espingarda
Dei um tiro de aviso
E disse:
Aqui tu não fica não
Depois meio que me arrependi
É que minha vida é bem solitária
Queria tanto uma companhia
Mesmo que fosse sem cabeça
Ai mula, volta pro sertão
Desculpe esse veio xucro
Que tem medo de assombração.

É...nem sei por quanto tempo
Mas eu acho que já vi o mar
Foi depois de ter chovido
Eita que me pus a chorar
Nunca vi tanta água
Só pode ser milagre
Vi peixes pulando
Até sereia a cantar
Quem diz que o povo do sertão
Inventa estórias de montão
É porque nunca veio pra ca
Aqui tudo acontece
Até o sertão vira mar.

Mas por pouco tempo
Só foi o tempo da plantação eu irrigar
Foi lindo por demais
Eita que saudade
Que uma chuva por aqui faz.

Eu não tenho medo da morte
O que eu tenho medo mesmo
É não poder olhar para esse céu
Sentir o vento do norte
E na fogueira me esquentar
Meu medo é perder isso tudo
Para um tal de desenvolvimento
Dizem que ele sai devorando de mansinho
Até não restar mais nada
Come estrada e vomita asfalto
Mata estrelas e planta poste
Montam prédios e tampa o vento.

Meu Deus tenha dó de mim!
O que fiz para merecer tamanha desgraça?
Claro que sou pecador
Mas tem pecado maior
Do que destruir a terra que alimenta
E poluir a água que mata a sede?

Prefiro morrer
A ter que me submeter
Mas não morrerei sem lutar
Lutarei pela terra
Que tanto comi
E pela água
Que pouco bebi.

Terra, mãe de todos
Tu me alimentaste
Fizeste de mim o homem que sou
Homem do sertão
Que honra o chão que pisa
E que come do próprio pão

Água, pai de nós
Nos fecundaste no ventre da terra
E pra mim que sou do sertão
Filho renegado
Pouco me dá
Mas por isso eu te agradeço
Pois esse pouco eu sei valorizar.

Céu, meu avô querido
Tu que tudo presencia
Olhando do auto
Com sua beleza nos presenteia
Só tenho a lhe agradecer
Pois sei que nos olhos de quem pranteia
Brilha as estrelas do seu relicário.

Lua, minha avó
Quando te olho
Desata o nó
Que me prende
E assim ganho força
Para me sustentar.

Nós do sertão
Somos feito de uma matéria indizível
Matéria que vem do coração
Do coração de quem sofreu
De quem lutou e venceu
De quem chorou e sorriu
De quem caiu e se levantou.

Antigamente eu tinha mulher e filhos
Gado pra mais de mil cabeças
Isso era no tempo de fartura
De repente pelos trilhos
Junto ao trem eles foram indo
Toda riqueza virou secura
E toda fortuna virou passado.

Hoje minha fortuna é maior
É a terra que eu piso
O pão que como do meu suor
A água que bebo com sacrifício
A noite que vejo do meu quintal
A canção que toco na minha viola
E a fogueira que esquenta minha solidão

E para terminar esse falatório
Uma poesia eu vou recitar
Versos lindos como as estrelas
E profundo como o mar.

De minha solidão eu tiro o trabalho
Um trabalho suado e cansativo
De tudo que faço eu valho
De tudo que sinto eu vivo.

Tenho canção de felicidade
Quando me ponho a plantar
Mas quando vejo no mundo a maldade
Eu me ponho a chorar

Como diz meu coração
É aqui que é mais intenso
É tão bom o sertão

Sair daqui eu não penso
Pois o paraíso aqui é imenso
E cabe na palma da minha mão.











Tiago Caian
Enviado por Tiago Caian em 28/03/2009
Reeditado em 28/05/2011
Código do texto: T1510469


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Sobre o autor
Tiago Caian
Aracaju - Sergipe - Brasil, 31 anos
200 textos (6318 leituras)
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Tiago Caian