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Embotado

Na morada macabra de Mefisto,
na via crucis de cruéis castigos,
fui tornando-me pouco a pouco sombra,
vulto que sob a Luz perpetuamente tomba.
Cobre-me o musgo da humana Desgraça;
minha visão é turva. Vejo nada.
Em vão tateio todas as paredes;
sou como um peixe preso em ínvia rede.
A substância do mundo é mágoa amarga.
Pressinto do coveiro a onipotente enxada.
As coisas causam-me arrepios loucos
(e suspeito que há muito eu já esteja louco).
É um espetáculo que me abomina,
uma cena surreal, uma cena sinistra,
fosso de tubarões, porão de ratos,
labirinto demiúrgico áspero e atro.
Degenerei-me por estes caminhos,
embriaguei-me de um obscuro vinho.
Hoje quase não mais me reconheço --
A minha cara se deforma ante o espelho.
O enfado é um peso morto em minhas têmporas,
cada suplício assim passa em câmera lenta.
Não sinto a alma ascender, sou todo chumbo e lama --
embotado percorro a senda desumana.
Guilherme Kubiszeski
Enviado por Guilherme Kubiszeski em 14/08/2019
Reeditado em 17/08/2019
Código do texto: T6720542
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Guilherme Kubiszeski
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 27 anos
10 textos (299 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/19 15:06)