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Pingo de Corredor

PINGO DE CORREDOR

Na volta da encruzilhada
vão quatro sombras adiante.
Pastando a lua minguante
num espelho de banhado.
Vultos desembuçalados;
...Sem domador ou encilha.
- Outros pra vasta tropilha
dos que foram “olvidados”!

Dois tordilhos, um gateado…
...mais o zaino marchador;
Todos num só corredor,
nenhum com rumo certeiro!
Sem soga, forma ou potreiro
- confundindo a liberdade -
sentem a talha da idade
e a judiação dos janeiros.

...Basteira antiga, curada
por lua, água e mormaço.
...Pata pelada do laço
de algum andejo ladino.
- São eternos peregrinos
da sina triste e pesada
dos que findam sem morada…
...dos que vagam sem destino.

Potrada de todo pêlo
co’a marca do “Deus-dará”
vindos do lado de lá,
n’algum descuido mundano.
E neste rumo cigano
(que pouco lhes dá valor)
são pingos de corredor
cedendo ao passo dos anos.

...Um é bolido do arreio
por gente de muito perto.
...O outro - de tranco incerto -
puxou gaiota e arado;
Mas, agora é refugado
pela mão dos sem piedade,
que, pelo mal da verdade,
nem recordam o passado.

E o vento que lhes castiga
trança a crina e vai embora!
...Assoviando campo afora,
contra o murmúrio dos cascos.
- São fletes de tempo gasto,
que a vida já não faz jus
de benzer a dor das “cruz”
sofridas por geada e basto.
 
Léguas depois, certamente
irão juntar-se por diante
aos seus tantos semelhantes
d’outro rincão - extraviados -
...Talvez um mouro bragado
ou mesmo um baio potranco,
que ficou matreiro e manco
sem nem ser amanunciado.

Hora mais ou hora menos
a indiada passa e cobiça
alguma égua inteiriça
que engana ter bom jeito.
Mas logo lhe dão defeito:
- Esta é sobra d’outra gente!
...E, juro, nem de presente,
levá-la penso ou aceito.

Um, mais curioso, repara...
...e desconfia, por certo!
...Pensa em contar que viu perto,
a cavalhada de alguém.
Mas - cauteloso - porém…
...deixa a notícia escondida;
E se ninguém der partida,
diz não ter visto também!

(...)

O zaino traz no pescoço
um borrão de marca alheia;
Cicatriz mal vista e feia
que a razão, a gente sabe.
...Foi feito por mão ladina,
que deixa crescer a crina
pra esconder o que lhe cabe!

Por conta da vida curta…
...do fardo, ou da dura sina;
Talvez, nas próprias retinas
não verá, por sua vez:
Depois de posto pra estrada,
os murmúrios da peonada
penando a falta que fez.

Solidão - penso comigo -
seja o mais duro castigo
de quem carrega consigo
toda estranheza de andar
no descaminho da sorte...
...e mesmo que, para a morte,
faltam léguas por chegar!

- Deus abençoe a potrada
que anda - cruzando o tempo -
repontados pelo vento
que açoita e também afaga.
- Deus abençôe os cavalos!
...que eu possa, ao menos, cantá-los
além da distância larga!

(...)

Na volta da encruzilhada
vão quatro sombras adiante.
Tão antigas - o bastante -
pra saberem que o rigor
não será o pior temor
nem o acaso mais pobre
para um cavalo que sobre
por pingo de corredor!
Matheus Costa Borges
Enviado por Matheus Costa Borges em 05/04/2019
Código do texto: T6616134
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Matheus Costa Borges
Dom Pedrito - Rio Grande do Sul - Brasil, 24 anos
16 textos (1065 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/10/19 03:37)
Matheus Costa Borges