O beijo negado

BEIJO GELADO

Era tudo o que eu queria, ser beijado pela morte de forma doce e delicada. Sem dor, sem medo e sem gritaria. Mas isso não é a mim ofertado, pois carrego o pensamento da morte comigo por qualquer lugar que eu esteja ou vá. Já perdi o prazer de querer estar vivo e vou acabar me desligando de todos e tudo que me fazem ficar sempre preocupado em viver a margem de todos os sentimentos, sempre com um pé atrás e outro na frente. Hoje só consigo ver que não existirá mais uma saída devido a não existência de um pé sólido entre essa duas margens.

Digo a todos que estou bem, que estou melhorando e me sentindo maravilhoso. Só que eles não sabem que continuo a romantizar meu suicídio. E vejo de forma mais clara que será assim o meu último suspiro.

Não adianta tentar esquecer ou quantos comprimidos eu tome. Ainda continuaria sem lar, sem teto e isso ninguém entenderá. Posso querer chorar ou em lágrimas me entregar. Mas acontece que sou um suicida e não quero a vida de ninguém afetar a não ser a minha.

A casa continua a desmoronar, foi assim e há de ser desde sempre. Posso tentar me fortificar, mas serão castelos de areia em frente ao mar. Todos sabemos o quão forte e devastador as ondas do mar podem nos levar. Não deveria temer e nem me assustar.

Se por algum momento quis estar vivo, quis aproveitar meu tempo com amigos. Andar de um lado para o outro sem nada encontrar, sem uma saída achar... Eu estava certo e vou estar até o meu leito de morte entrar.

Espero que saibam como me despachar. Quero ter o corpo jogado no fundo do mar. Virar alimento de peixes ou tubarões. Quero voltar a ser nada, sem nadar ou me agitar.

É difícil não gritar, mas mesmo assim continuo calado. Se o tempo eu deveria aproveitar, hoje me deparo com os arrependimentos. Se é isso o que estou plantando, então é certo o que irei colher. E colherei morte, a minha própria desgraça.

Não devo me arrepender do tempo que passou, dos momentos em que sorri, das lágrimas que escorri e nem das lembranças que adquiri. Morrerei sozinho, morrerei em paz. Ainda com a flecha apontada para cima que ninguém é capaz de abaixar.

Mesmo estando em um paraíso que - também beira o precipício. Tão perto de um inferno a cada dia sentido. Notícias nos jornais não chegam nem perto do que sinto. Estou preso no meu próprio quarto. Trancado com a chave do lado de fora. Talvez não te espantes que eu saiba como abrir a porta. E mesmo assim não abro. Permaneço sofrente, rindo com o tempo e amando a mesma amargura de uma solidão plantada.

Tenho um quê para o suicídio. Tenho a dois dedos enfiados na ferida aberta e nada é capaz de cicatrizá-la. Somente o tempo, é claro, mas mesmo assim não irei me dar essa oportunidade. Não me darei mais tempo. O beijo não poderá ser negado.

Não posso esquecer de onde saí. Mesmo lembrando ainda não sei para onde ir. Não rogo a Deus nem ao Diabo. Não quero conta com nenhum desses dois. Só quero acalmar as ondas. Só quero saber nadar na tempestade.

Eu quero tanta coisa e ao mesmo tempo não quero nada. Mas posso dizer que a sede de morrer é mais forte que a de viver. Será isso a polução de todo poeta?

E se eu me arrepender? E se eu ver que é melhor viver. Posso olhar para o céu e me ver como estrela, posso olhar para a terra e me ver como areia.

Até hoje são 7.281 dias vividos. São mais de sete mil dias na Terra. Se até hoje não encontrei a cura. Se até hoje ainda permaneço incurável é porque assim que deverá ser.

Quantos "e se" irei acumular? Não quero do passado a vida encontrar. Só quero que esse beijo seja frio, indolor e eficiente. Quero beijar-te ó morte. Quero tocar essa boca gelada com meus próprios lábios. Quero ser capaz do incapaz. Quero a cura da ferida. Quero tanto querer e será isso que me deixar sem você.

Que o último ar saía dos meus pulmões e chegue pertinho do mar. Que o ar seja doce, delicado e vermelho. Que seja quente, que seja meu.

iaGovinda
Enviado por iaGovinda em 29/02/2020
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