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Cap.3: Marília, a primeira parte

sangue lhe escorria das narinas. A mãe, sentada no banco da frente do carro, visivelmente nervosa depois de uma inflamada discussão com o marido que dirigia focado na velocidade pra lá de permitida de sua ira, virou-se para Marília, entregando-lhe uma caixa de papel que tirara do porta luvas. “- Tome filha, ponha a cabeça bem pra trás. E veja se não deixa escorrer para o estofado do carro o sangue. Use a caixa de lenços toda se precisar” – Nisso, o marido despertou da hipnótica raiva e acrescentou: “-Sim filha, cuidado, esse couro é legítimo e se manchar não tem como repor.” Em seguida, esquecendo-se da discussão que tivera há poucos minutos, virou-se para a esposa e perguntou meio que em sigilo, apesar de Marília ouvir perfeitamente… – ” O que se passa com ela afinal? Já levou essa menina ao médico pra ver? Volta e meia é essa sangueira” “- Claro que sim Roberto, e no melhor clínico do Samaritano. Fizeram todos os exames e não viram nada. Apenas uma fragilidade nas veias do nariz”. “- Mas não tem solução? – indagou Roberto ” – Toda vez que a gente viaja é essa agonia”. De um momento para o outro a briga entre os dois ficara em segundo plano e Marília passara a ser a preocupação que os unia. Resolveram parar no posto para levá-la ao banheiro. Marília desceu, nariz pra cima, encharcado de lenços que a mãe segurava enquanto o pai fechava o carro e falava no celular. “-Sim, pode fechar com ele Amaury. Eu agora estou viajando não posso ir pessoalmente, mas pede para ele entrar em contato com o deputado que ele passa o contato para agilizar. Quero isso resolvido até o meu retorno. Vou ficar quinze dias fora.”

A mãe entrou no posto com pressa, quase dando uma ordem à funcionária que estava varrendo o chão próximo ao banheiro da loja: “Minha filha, pegue um saco de gelo e traz pra mim no banheiro, sim?! Já pago quando sair” Esse “sim”, servia de por favor, que a mãe de Marília não sabia pedir. Em seguida, entra Roberto. Vai direto ao freezer pegar uma gelada. Abre, estalando a argola e com a garganta seca dá seu primeiro gole. “- Senhor, com licença, não é permitido beber bebida alcoólica dentro da loja”– disse a gerente que estava no caixa. Roberto fingiu não ouvir. Terminou de beber a cerveja e respondeu com um sorriso sarcástico. “-Pronto, já parei de beber. Quanto é? Ah! espere, minha mulher está lá dentro, pode ser que ela queira alguma coisa “ – e pegou um jornal para ler.Em seguida, Sonia sai do banheiro com Marília, que finalmente estancara o sangue do nariz. O vestido da Alphabeto que a mãe comprara para a filha no Natal estava respingado de manchas vermelhas que aos poucos iam ficando marrons. Sonia já sai se dirigindo à Roberto: “-Ai, que loucura! Precisamos levar Marília num especialista em São Paulo, sei lá, até fora do país para operar, fazer qualquer coisa! Não dá mais! Desde os sete anos que ela tem isso, e agora com mais frequência e parece que em mais quantidade… Roberto, pede um café pra mim”. “Mãe, quero uma coca-cola” – Marília apela alegre por ter parado de sangrar. Roberto pede o café e a funcionária, acostumada àquele tipo de clientela, sai ela mesmo para pegar a lata do refrigerante no freezer. “-Vamos! – bafeja Roberto – “Quero logo chegar em Angra. Tenho que fazer umas ligações e depois mais nada!!!! Quero sauna, piscina e comer!” – Vira-se para o balcão: “- Menina, quanto é?” “- São 18 reais” “‘Como assim? Sonia, você pediu mais alguma coisa?” “- Eu não…” – responde Sonia. Roberto retorna à funcionária: ” – Tem algum erro, faz as contas aí direito” “- Está correto senhor. Uma cerveja, um café, uma coca e um saco de gelo de 1kg, 18 reais.” Roberto virou-se para Sonia “- Pra que você pegou um saco de 1kg !? bastava pedir aqui no balcão que elas te arranjavam gelo! Cadê o saco?” “- Ora Roberto, deixa de ser chato, o saco tá lá no banheiro, o gelo já deve ter derretido todo” “-Pois então você paga, pra deixar de ser burra”. Nessa hora as funcionárias se entreolharam e viram o rosto de Sonia que ficou pálido. De imediato, esta virou-se para elas, fria e ao mesmo tempo autoritária: “- Vai, vai, quanto é o saco de gelo? quero sair logo daqui” “- 9 reais senhora”. Sonia pagou e saiu da loja sem nem olhar para trás. Roberto já estava no carro, novamente ao celular. Marília só seguia os passos da mãe. Assim que entraram no carro, o pai terminou a ligação com voz mais doce que o normal: “- Bom, depois falo com você” e desligou o aparelho. Em seguida ligou o som. Tocava uma música sertaneja romântica de um CD que comprara. O resto da viagem foi em total silêncio e sem sangue nas veias.

No caminho, Marília pensou o quanto seria bom chegar na casa de veraneio da família. Lá ela tinha sua amiga Lídia, da mesma idade, filha do casal de caseiros que moravam na casa anexa, que pertencia à propriedade. Porque irmãos ela tinha até três, mas eram muito mais velhos, e não moravam  com ela. Eram só por parte do pai, do seu primeiro casamento. Os três eram muito próximos ao pai e trabalhavam com ele, nas empresas ou na política, apesar dos sérios atritos que Roberto tinha com a ex-mulher que o odiava do fundo de seu pulmão, pois não podia sequer vir mais do coração. Este, ela arrancara aos dentes..

Apesar dos seus 60 anos, Roberto tinha a aparência de um desportista, jogava vôlei na praia com seus amigos na Barra e tênis aos fins de semana no clube do exército, onde servira alguns anos, seguindo os passos do pai, um almirante respeitado no círculo militar. Já Sonia era bem mais nova. Casaram-se quando ela tinha 19 anos. Criada em Goiás, filha de agricultores de vida certinha, mas sem grandes riquezas, conhecera Roberto, numa ida dele à região para visitar algumas terras do pai. Encantado com a beleza e pureza da jovem Sônia, jogou seu charme de magnata, conversa de bem sucedido partido e mais algumas vezes de ida à região e à casa dos pais, deu o golpe certeiro, pediu-a em casamento. Os pais consentiram de imediato. A festa foi ali mesmo na cidadezinha.

Sonia custou a engravidar. Talvez fosse a tensão de estar longe dos pais e em um ambiente tão diferente do seu. Certo é que só teve Marília aos vinte e seis. Estava com quase quarenta anos e parecia ser outra pessoa, tinha uma outra aparência. É que aderiu, desde que completara 30, a moda das pequenas cirurgias estéticas, apesar de tão jovem ainda. Seu rosto, antes tão natural, mudara completamente. Da expressão suave passou à carregada. Usava sempre maquiagem, talvez para esconder as agressivas aplicações e repuxões aqui e ali, tantas mexidas e consertos em mexidas erradas. Junto com sua aparência, sua relação com o marido começara a declinar. Ela entretanto, tratou de se infiltrar cada vez mais nos círculos de amizades do marido, no ambiente em que viviam e assim, conseguiu de alguma forma fazer parte do time “casamento de aparências” das quais quase todos pertenciam, para não perder o lugar.

Assim que passaram o portão da casa, luxuosa, com um lindo jardim circundando um lago e tendo ao lado uma imensa piscina, o caseiro, Sr João, veio logo cumprimentar. Lídia e Conceição, “Ção”, que estava na cozinha, veio também, assim que o carro estacionou na garagem. Sonia saiu do carro e enquanto tiravam as bagagens, deu algumas instruções para o almoço e disse que ia se deitar, pois estava com enxaqueca. Quando o almoço estivesse quase pronto, que a chamasse.

Nesse meio tempo, timidamente, já que os pais de ambas se afastaram, as duas meninas começaram a correr atrás do vira-lata que já há algum tempo andava por lá. Literalmente, “na lata”, o bichano foi entrando pra dentro dos limites da propriedade, foi ficando, comendo as sobras e, visto que o portão não lhe impedia, saía quando queria, voltava quando precisava, mas carinho que é bom, quase não tinha, só quando Marília vinha.

Verdade é que Marília passava quase despercebida no seu dia a dia. Muito magrinha, cabelos finos, castanhos e ralos, escorridos ao lado da face pálida de quem parecia necessitar de repor o sangue que constantemente perdia, parecia transparente, quando perambulava pela casa. Por isso, fazia seu próprio mundo, procurava distração nos seus brinquedos, que por sinal, eram muitos, e alguns livros que lhe faziam passar as horas em companhia… Mas encontrava alento principalmente nas pessoas de fora, diga-se de passagem, literalmente de fora, os empregados da casa, um ou outro funcionário do pai que ela tivesse contato ou do próprio condomínio na Barra, onde morava. Eram bem atenciosos com a menina e ela revidava da mesma forma. Puxavam assunto, ela prontamente respondia, contava como fora na escola, coisas que aprendia, mostrava os desenhos, trazia novidades e fazia muitas perguntas. Era com essas pessoas que incrivelmente se tornara mais presente. Com elas, Marília aprendia coisas do mundo real. Via-as trabalhar, queria entender como faziam, como cozinhar ou atender telefone, e sem perceber, sem nada intencional, vivia a simulação de uma outra vida. Seus pais, enquanto isso, sempre muito ocupados com os bens e a luxúria que possuíam, não tinham interesse nem tempo para coisas que consideravam pequenas, “medíocres”, migalhas de uma vida que não lhes pertencia. De maneira que a personalidade da menina despontava para outro lado. Enquanto parecia “aguada” para os olhos da sua família, nos olhos daquela gente desconhecida, tinha muita coisa de si pra mostrar e aprender. Tanto é que com nove anos, quando já lia com facilidade livros de histórias à poesias, ensinou uma das empregadas, uma senhora de seus cinquenta anos, à ler e escrever, letras e números. No quarto dos fundos do apartamento na cobertura, depois que terminava de arrumar a cozinha, Vaneide, apesar de cansada, não perdia a brincadeira da menina. Marília já ia com quadro negro, canetas e caderno. A doméstica já tinha o seu próprio, com as lições de casa feitas em seu caderno diário preparado pela professora Marília que, com a letra redonda e muito compenetrada, corrigia, para em seguida, no quadro, explicar como se fazia. Portanto, em quase a mesma hora do dia, Vaneide procurava arrumar a cozinha em tempo para não se atrasar, pois logo que percebeu que a danada da brincadeira dava resultado, passou a levar muito à sério a proposta que aquela criaturinha de gente, que por sinal era muito paciente, tinha, de lhe ensinar. E as aulas eram melhores do que, uma vez na escola, ela tentara estudar. Não tinha arrogância, nem vergonha, nem diferenças entre elas, a não ser a de uma professora com sua aluna. Passado alguns meses, alfabetizada, pediu demissão ou foi demitida. Quiçá conseguiu um emprego melhor? tomara. Saiu feliz de qualquer jeito, não sem antes se despedir da menina.

Kawer
Enviado por Kawer em 08/01/2019
Reeditado em 25/02/2019
Código do texto: T6546152
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Kawer
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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