Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

AMANDA IV - O PASSADO BATE À PORTA - CAP. III


                      III – O PASSADO BATE NA PORTA


                                      Uma hora depois, a campainha tocou e ele imaginou que fosse Rita, voltando com as roupas que ele tinha pedido. Realmente era ela.
- Eu trouxe roupas leves pra não fazer muito volume pra levar de volta, mas acho que é suficiente pros dois, ela disse.
- Obrigado, boa ideia. Ei, o que é que você tem, Rita? ele pegou a mão dela. - Você está estranha. Nunca te vi assim. Está preocupada com alguma coisa?
   Rita baixou os olhos e balançou a cabeça, negando.
- Não é nada. Preocupação boba minha...
- Preocupação com o quê? Entra, me conta.
   Ele a fez entrar na casa e sentar-se, sentando-se também a seu lado.
- Eu não queria te preocupar com isso, Marco. Você já passou por tanta coisa hoje...
- Diz, o que foi que aconteceu?
   Rita respirou fundo e começou.
- O Roni...
- Que tem ele?
- Ele me veio com uma história ontem... Ele está muito zangado com a gente ainda, Marco.
- Problema dele. O errado nessa história é ele, Rita. É ele que está assediando a Amanda sendo ela uma mulher casada! Foi isso que você conversou com ele, não foi?
- Foi, mas... depois que a Amanda saiu da sala, ele...
- Ele o quê?
- Ele me veio com uma conversa de que... vai contar pra ela... que a gente tem um caso.
- O quê?!
- Eu não sei de onde é que ele tirou isso, Marco. Deve ser inveja pelo jeito que eu trato você. O amor que eu tenho por você e pela Amanda. A nossa relação tão gostosa, tão próxima...
- Mas o que é que esse cara tem na cabeça? De onde é que ele tirou isso?
- Não faço ideia. Mas eu estou apavorada.
- Essa história não tem fundamento, Rita! Ele não tem como provar uma coisa dessas! Eu não tive um caso com você!
- Ele falou que não precisa de provas. Segundo ele, qualquer pessoa pode deduzir isso observando o jeito que eu te trato, o jeito que eu falo com você...
- A gente é parente, caramba! Você é minha prima!
   Rita começou a chorar. Marco foi abraçá-la, mas ela se afastou dele, levantando-se.
- Não faz isso.
- Rita!
- A gente vai ter que evitar esse tipo de efusividade, ainda mais diante das pessoas.
- Mas por quê? A gente está sozinho agora.
- Vamos ter que nos acostumar a isso, sozinhos também. Eu não quero perder meu marido e não quero que você venha a se separar da Amanda... por conta disso.
- Mas isso é um absurdo! Eu amo você como amo a minha mãe!
- Mas ele não entende isso. Ele nem quer saber disso, porque ele não conhece esse tipo de sentimento, Marco. E se ele pensa assim, sem motivo nenhum plausível, imagine o que faria se soubesse o que aconteceu com a gente no início do ano?
- Aquilo só teve importância pra nós dois. Não teve peso nenhum na nossa relação com as pessoas que a gente ama de verdade...
- Eu sei e tem que continuar assim... Por favor, não vamos facilitar as coisas pra ele, Marco. Eu te amo demais pra te ver infeliz sem a Amanda. E eu amo demais meu marido pra viver infeliz sem ele.
   Marco ficou em silêncio.
- Eu vou indo... Tchau, até segunda.
  Ela deu as costas e saiu. Marco ficou sem chão. Fechou a porta e foi sentar-se no sofá, sem saber o que fazer. Amanda apareceu na sala e ao vê-lo sentado lá, sozinho, estranhou.
- O que foi? O que você está fazendo aqui, sozinho, amor?
   Ele olhou para ela parecendo que a via pela primeira vez e respondeu:
- Nada... Eu...
- Foi impressão minha ou alguém esteve aqui? Que sacola é essa?
- Foi... a Rita... trouxe pra gente. Ela... fez o favor de passar lá no apartamento e pegar. A gente vai precisar.
- Que bom! Eu vou mesmo tomar um banho e ver se eu consigo relaxar de verdade. Me sinto como se tivesse cinquenta anos de idade. Você fica de olho nas crianças pra mim?
- Fico...
- Você está bem? ela perguntou, passando a mão em sua testa.
- Com um pouquinho de dor de cabeça, ele respondeu, pegando sua mão e beijando-a.
- Quer que eu pegue uma aspirina? Estava demorando pra você sentir alguma coisa. O que a gente tem feito de ontem pra hoje abala qualquer organismo.
- Eu pego a aspirina. Vai tomar seu banho.
- Está tudo bem mesmo? Estou te achando meio estranho...
   Marco a beijou demoradamente e perguntou:
- Você acredita que eu te amo?
   Amanda sorriu, acariciando seu rosto.
- Que pergunta boba é essa? Está acontecendo alguma coisa, Marco?
- Não... é besteira minha. Eu estou só cansado, muito cansado. Vai tomar seu banho, vai. Eu olho as crianças.
- Depois você vai também.
   Ela ficou olhando para ele séria e pegou a sacola, indo para o banheiro. Marco colocou as mãos no rosto e encostou-se no sofá. Não acreditava que tivesse aparecido em sua vida outra versão de Otávio que pudesse separá-lo de Amanda. Levantou-se e foi para o quarto dos pais, afinal tinha que estar de cabeça fria para pensar no que ia fazer sobre aquela situação. Tinha que pensar em como ia encarar Roni na segunda-feira.
   Júlio César e Mariana continuavam dormindo. Ele se sentou na cabeceira da cama, junto do afilhado e ficou olhando para ele, pensativo. Deitou a cabeça no travesseiro que protegia o menino de cair da cama e apagou por alguns segundos. Acordou com Júlio tocando seu rosto, ainda deitado. O menino chamava por ele.
- Papa...
   Marco acordou e levantou-se esfregando os olhos. Júlio levantou-se também e repetia, mais por gostar do som que fazia e por gostar de ouvir isso saindo de sua boca, do que por outra coisa.
- Júlio, eu não sou o papai. Você tem que parar de fazer isso ou o Aldo vai ficar muito zangado comigo.
- Papa... papa... papa... ele insistia.
- Tanta coisa pra começar a dizer e você me vem logo com isso? Não é mais gostoso falar mamãe? Eu sou seu padrinho. Fala dindo. Eu sou só seu dindo.
   O menino pulava na cama apoiado em Marco, enquanto repetia a palavra. Acabou caindo deitado no colo de Marco que começou a fazer cócegas em sua barriga.
- Para com isso, panaquinha! Perdeu a graça. Teu pai me mata, safadinho.
   Júlio ria alto e gostoso e acabou por acordar Mariana que começou a chorar no berço.
- Olha aí, viu o que você fez? Acordou a Mari.
   Marco foi pegar a irmã no colo e a colocou deitada na cama dos pais. Júlio sentou na cama e ficou olhando para a menina.
- Gotosa...
- É, lembrou disso, não é? Mas o nome dela é Mariana. Mais respeito com a minha irmã, Don Ruan.
- Gotosa... Júlio repetiu, apontando para a bebê.
- É, você é bem filho do André mesmo... ele disse em voz baixa.
   Amanda apareceu no quarto vestindo um short e uma camiseta regata e enxugando os cabelos.
- Olha aí, Júlio. Chegou a minha gostosa...
   Amanda sentou-se na cama e perguntou:
- Você está falando com quem?
- Com o Júlio, quem mais?
- O Júlio não fala, amor, ela disse rindo.
- Fala, sim. Só o que não deve, mas fala. Me chamou de “papa” de novo, chama minha irmã de “gotosa” e por aí afora. Ele é bem filho do André.
- Coitadinho, ela disse, pegando Mariana no colo.
- Você acordou, minha princesa? Esses dois feios acordaram você, foi, bebê?
   Amanda beijou a cunhadinha no rosto.
- Você já reparou que a gente está fazendo um curso intensivo de treinamento pra quando nossos gêmeos chegarem? ele disse.
- Você quer ter gêmeos logo de cara, mesmo, Marco? É sério isso?
- Não, ele respondeu sorrindo. - Não faço questão de nada em especial, nem menino, nem menina, nem gêmeos. Eu só quero ter um filho com você. Pra começar.
- Sua mãe pediu pra gente ter paciência.
- Eu sei, ela falou pra mim também, mas e a noite da volta de Campos do Jordão? E se você já estiver grávida?
- Está muito cedo ainda pra eu sentir alguma coisa. Em uma semana ou duas pode ser, mas ainda é cedo.
   Júlio desceu da cama e Marco perguntou:
- Aonde você vai, cara? Volta aqui.
   Júlio foi engatinhando até o berço de Mariana e ficou em pé, apoiando-se nele para pegar um chocalho que estava dentro do berço. Depois ficou balançando o brinquedo e ouvindo o barulho que ele fazia, ainda em pé. Marco deitou-se de bruços na cama e o chamou, estendendo a mão.
- Vem aqui, Júlio.
   O menino quis pegar a mão dele, mas estava longe dela e o chocalho o impedia de segurá-la, porque a outra mão o mantinha seguro no berço. Marco conseguiu pegar o chocalho da mão do menino, mas ele resmungou.
- Vem, pega de novo! Pega!
   Júlio já tinha perdido o medo de se arriscar sozinho e andou até ele, pegando o chocalho e sorrindo, feliz da vida.
   Marco o encheu de beijos e olhou para Amanda, sorrindo.
- E você ainda estranha por que ele te chama de papa... ela disse, sorrindo também.
- Nada a ver. O pai dele é o Aldo.
- Então tá! ela deu de ombros, colocou Mariana no berço e continuou a enxugar os cabelos.
- Você está querendo dizer o quê? Eu nunca tive nada com a Débora, amor!...
   Amanda riu.
- Não falei nada sobre isso, calma! Que bobo! É que eu já li sobre... Você já ouviu falar em reencarnação?
- Hum... Já, muito pouco, mas já. O que é que tem?
- Você acredita?
   Marco colocou Júlio em cima da cama novamente e respondeu:
- Acredito. Eu sempre falei sobre isso quando me referia a você e eu. Eu sempre disse que você tinha nascido pra mim, porque seu nome estava escrito nas estrelas quando eu nasci. Lembra?
   Ela sentou na cama e balançou a cabeça, sorrindo, emocionada. Marco forçou o corpo para frente e a beijou, apaixonado.
- Mas e daí? O que isso tem a ver com o Júlio e eu? Que ele talvez tenha nascido pra ser filho do Aldo e não do André? Está na cara que o pai dele de coração e de alma é o Aldo. A gente percebeu isso desde o dia em que ele nasceu. Pelo jeito que o Aldo olhou pra ele...
- Mas pode ser sido você em algum lugar do cosmos.
- É... não vou discutir com você, porque o assunto é mais complexo do que possa questionar nossa vã filosofia, mas...
   Marco ficou sério, olhando para Júlio, e se lembrou de Rita e do impasse que tinha com ela e Roni.
- Pode parecer engraçado e nada conectado, mas... eu sempre tive uma ligação muito forte assim com o Benê, irmão da minha mãe...
- É, eu lembro... ela disse.
- Estou com saudade dele... A minha relação com a Rita também é mais ou menos assim...
- É, vocês têm uma ligação muito bonita. Parecem mais do que primos. Parecem irmãos...
- Ela tem idade pra ser minha mãe. Quando eu nasci, ela tinha dezesseis anos... Os dois viviam brincando que me adotariam, se meu pai resolvesse me botar pra fora de casa e tudo... ele disse, sorrindo.
   Amanda sorriu também. Ele continuou:
- Eu respeito e amo demais a Rita... como se fosse minha mãe...
- Eu sei... Também gosto muito dela. É a pessoa perfeita pro meu pai. Ela o faz muito feliz, isso é visível.
- É... ele disse, olhando para ela, pensativo.
- Que foi? Você ficou aéreo de novo como agora há pouco. Está tendo algum problema com a Rita, Marco?
   Ele balançou a cabeça, negando.
- Não... Não é nada, não.
   Mariana começou a resmungar e Amanda falou:
- Acho que alguém está querendo alguma coisa. Eu vou fazer outra mamadeira pros dois, trocar os dois e a gente coloca a duplinha pra dormir e vai dormir também. O que você acha? A noite vai ser longa.
- É, boa ideia... Você dorme na cama com o Júlio e eu vou pegar aquele colchonete no meu quarto e durmo nele. Assim, se algum deles acordar durante a madrugada, algum de nós acorda.
- Fechado, papai.
- Não fala assim que eu fico excitado e aí você não vai conseguir me parar... ele brincou, beijando-a mais uma vez.
   O telefone tocou e ele correu a atender:
- Alô!
- Filho? É a mamãe.
- Oi, mãe! E aí, tudo bem? Como é que está o pai?
- Tudo bem. Ele está dormindo e com vocês? E as crianças?
- Está tudo bem. Vocês voltam pra casa amanhã mesmo?
- Amanhã à tarde. Como está a sua irmã?
- Não se preocupa com ela, mãe. Está tudo bem.
- Se vocês tiverem qualquer dúvida sobre qualquer coisa, podem ligar pra cá, está bem? A qualquer hora.
- Ninguém vai precisar de nada. Fica sossegada.
- Está bem. Seu pai mandou um beijo. Até amanhã, filho. Eu te amo. Beija a Amanda por mim.
- Te amo também, tchau.

   Os dois providenciaram juntos que as duas crianças ficassem bem. Depois de um banho, Marco arrumou a cama dos pais para que Júlio dormisse com Amanda e ela fez as mamadeiras e alimentou os dois. Mariana dormiu logo, mas Júlio estava aceso demais para dormir. Queria brincar. Marco apagou as luzes da casa toda e fechou a porta do quarto. Amanda estava mostrando sinais de sono, mas não queria dormir, antes que o menino dormisse.
   Recostada na cabeceira da cama, ela olhava o menino que brincava deitado na cama com uma bola na mão. Marco pediu:
- Dorme, amor, eu fico olhando ele. Deita e pode dormir.
- Você precisa dormir também. Deve estar mais cansado do que eu...
- Deita e dorme. Eu estou bem.
   Ele pagou a luz do quarto e acendeu o abajur. Fez Amanda se deitar e a cobriu com um lençol, beijando-a na testa.
- Descansa.
   Ele nem precisou falar muito. Ela fechou os olhos e logo estava dormindo, tal era o seu cansaço. Marco foi deitar-se no colchonete ao pé da cama com Júlio, virou o corpo para ele.
- Vamos sossegar agora, cara? Marco falou baixinho. - Eu preciso dormir. Colabora com o padrinho?
   O menino olhava para ele e sorria, tocando seu rosto com a bola. Marco sorriu também e falou meio que para si mesmo.
- Eu consigo ver o André em você, garoto. Ele não sabe o que perdeu. Será que se eu cantar pra você, você dorme?
  Marco começou a cantar, baixinho, a primeira canção que lhe veio à cabeça de repente:
- “Bem maior, do que os mares mais profundos... bem maior do que os campos que eu vi... bem maior que o teatro das estrelas... é o meu amor por ti... Como a força infinita das rochas... bem mais luz que o sol põe no rubi... muito mais do que o verde das matas... é o meu amor por ti... Assim, como no inverno... e o sol quente do verão... eu vou ser a primavera do seu coração... Foi assim que escrevemos nossa história... é o livro mais lindo que eu li... Uma flor azul, que me traga na memória... o meu amor por ti... O meu amor por ti.”
   Ao final da canção, Júlio já estava dormindo.
- Você vai cantar assim pros nossos filhos também? - Amanda perguntou.
  Marco olhou para ela surpreso.
- Você ainda está acordada? ele perguntou, em voz baixa.
- Estava só descansando os olhos...
- Dorme...
- Eu adoro sua voz. É muito doce.
   Ele sorriu e tomou sua mão, beijando-a.
- Dorme, senão eu não vou conseguir dormir.
   Amanda ergueu o corpo e o beijou, depois se deitou de novo e fechou os olhos. Em pouco tempo, os dois adormeceram.

               ****************************************
Velucy
Enviado por Velucy em 07/08/2017
Código do texto: T6076783
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Velucy
São Paulo - São Paulo - Brasil
339 textos (1282 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/17 15:00)