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AMANDA III - QUER ALMOÇAR COMIGO? - CAP. XI

                          XI – QUER ALMOÇAR COMIGO?

                                                Marco fez a prova em tão pouco tempo
que Chu estranhou, assim como toda a turma. Ele entregou a prova e saiu da sala. O telefonema de Amanda o havia deixado com um sentimento de culpa que estava tirando sua paz. Nunca a tinha tratado daquela forma e aquela sensação o estava deixando mais nervoso e irritado.
   Foi até a lanchonete e pediu um suco de frutas. Cleo saiu algum tempo depois dele e foi para lá também. Aproximou-se dele no balcão e perguntou:
- Posso sentar aqui do seu lado ou está querendo ver o mundo pelas costas?
   Ele olhou para ela e sorriu.
- Senta aí.
   Ela se sentou, colocando a mochila na cadeira ao lado.
- Foi bem na prova?
- Sei lá, acho que não, ele respondeu mexendo o suco com o canudinho. - E olha que pra essa eu estudei pra caramba.
- Adoro sua modéstia.
   Ele sorriu e ficou em silêncio.
- Você está triste. O que foi?
- Não estou triste.
- Está sim. Seus olhos nunca negam o que você sente. O que é? Saudades dela?
   Marco não respondeu. Desviou os olhos.
- Posso ajudar? Cleo perguntou.
- Não é nada, Cleo. Eu... estou legal.
- Eu não consigo ser sua amiga, já notou? Você não deixa. Você me evita.
- Isso não é verdade.
- Então me diz o que está te magoando.
- Cleo, eu... não estou magoado com nada.
- Mas gostaria que eu fosse embora, pra ficar sozinho.
- Não! Eu só... Tudo bem, eu estou chateado sim, mas... eu não posso dividir meu problema com você.
- Pro Teo, você diria?
- O Teo é meu amigo e é homem.
- E eu sou namorada dele. Faça de conta que eu sou ele aqui.
   Ele a olhou por um momento e disse:
- Eu não consigo falar da Amanda com você.
- Por quê? A gente conseguiu falar dela no casamento. Lá, você estava tão feliz, tão leve, tão solto... Aquele Marco acabou? Será que eu estava certa?
- Certa em quê?
- Em pensar que você estava fazendo uma besteira, naquele dia?
- Você não sabe o que está dizendo.
- Então me convence.
- Eu estou assim... porque justamente não consigo ficar longe dela muito tempo. Não sei ficar sem ela. Eu estou sem ela há quase uma semana e estou morrendo de saudade... Convenci?
- Fui eu que te convenci a falar o que estava sentindo, ela disse, sorrindo.
   Marco sorriu também e balançou a cabeça, tomando um pouco mais de suco.
- É incrível como você consegue tirar coisas de mim que eu não quero dizer.
   Ela sorriu vitoriosa, depois tocou a mão dele sobre o balcão.
- Não fica assim não. Pensa só que ela te ama e logo está de volta... e mais apaixonada do que já era.
- Será?
- Você duvida?
   Marco afastou a mão da dela e esfregou o rosto.
- Não... Falei bobagem. Não te disse que eu não estou legal? Ela me deixa sem chão quando está longe. Eu não sei nem o que digo. Vai ver o Teo, hoje?
- Não, mas ele liga pra mim todo dia. Ele é uma gracinha.
- Vou me lembrar do termo quando falar com ele da próxima vez, ele disse sorrindo maroto.
- Não, não vai gozar do meu gato, ‘tadinho.
- Não é gozação. Eu também acho que ele é uma gracinha. Ele é meu irmão.
- Eu acho isso lindo. Já estou indo, cunhadinho, disse ela, pegando a mochila. - Vou deixar você curtir a sua fossa. Tchau.
- Tchau, Cleo. Obrigado.
- Por quê?
- Por me ouvir, mesmo sem eu querer falar.
- Eu não te ouvi. Eu praticamente saqueei o teu coração. Você é um garoto bem difícil. A Amanda não devia nunca desconfiar de você.
   Ele sorriu. Ela o beijou no rosto e se afastou. Marco tomou o resto do suco, pagou o suco e foi também para o carro, seguindo para a agência.

   Haidée estranhou vê-lo entrar na sala de Rita tão cedo. Olhou no relógio da parede e perguntou:
- Opa! Você não está uma hora adiantado, não?
- Alguém ligou pra mim? ele disse, tirando a jaqueta e pendurando-a no cabide.
- A Rita ligou, dizendo pra você esperar o telefonema da Amanda, às duas.
- Hum... Tá ok, ele respondeu, não querendo demonstrar ansiedade pela notícia.
   Ele deu as costas e ia saindo de novo, mas Haidée perguntou:
- Marco, está tudo bem?
- Tudo ótimo! ele disse, sem parar.
   Ao passar pela porta do estúdio, ouviu risos e parou para olhar. Kleber e Maria Eugênia estavam conversando ali.
- Boa tarde! ele cumprimentou.
   Os dois olharam para ele e Kleber estranhou.
- Dormiu aqui, cara?
- Quase...
- A Haidée contou que sua prima ligou?
- Contou. Não se trabalha mais por aqui?
- Eu sou fotógrafo, ele disse, levantando a máquina fotográfica pendurada no pescoço. – Eu fotografo modelos, mas... não chegou ninguém ainda, só a Gini, que está de férias. Não é bucólico?
   Marco olhou para ela, sorriu e balançou a cabeça, continuando seu caminho para sua sala. Maria Eugênia olhou para Kleber e perguntou:
- Tem certeza de que ele não é modelo? Ele é um sonho... Que garoto lindo, Deus do céu.
- Não, não é. Só é aprendiz de publicitário e parece que tem muito futuro. A Rita bota a maior fé nele, primos à parte.
- Tem namorada?
   Kleber estranhou a pergunta e riu.
- Está me gozando?
- Por que faria isso? ela perguntou, sinceramente inocente de tudo.
- A namorada dele é eterna!
- Eterna? Como assim? Ele é padre?
- Ele é casado, Gini.
   O sorriso foi desaparecendo do rosto dela devagar. Olhou para a porta e murmurou:
- Casado? Mas... eu não daria vinte anos pra ele...
- Pois ele tem dezenove! Sério que você não sabia?
- Não... Poxa! E... a felizarda faz jus a tudo aquilo? Ele é um deus grego. Quase me derreti toda quando o vi me assistir me vestindo naquele dia.
   Ele riu mais ainda, apontando para o pôster de Amanda na parede. Maria Eugênia sentiu levar outro balde de água fria no rosto.
- Ele é casado com... a Amanda Rotemberg?
- Amanda Rotemberg Ramalho, exatamente. A principal modelo da RR, enteada da Rita e a gata loira mais linda de São Paulo! Deixo o lugar da morena pra você, agora.
   Ela mordeu o lábio inferior, visivelmente decepcionada.
- Eu mato a Rita! murmurou.

   Mais tarde, Marco estava ao telefone conversando com um produtor de clipes musicais e Maria Eugênia, ao passar pela porta da sala, vendo-a aberta, não resistiu e parou, encostando-se no batente. Marco não a viu, tão distraído estava com a conversa. O produtor era colega de faculdade, estudando em outro período.
- Claro que ela vai topar, já topou!... Só o fato de levar uma porcentagem nisso já compensa tudo... Claro que falo, falo sim!... Ela volta de Campos na sexta-feira à noite, no sábado, eu te dou uma resposta... Você não conhece a Rita, ela persegue novidades... Não... Não, não tem nada programado pra dezembro... Claro! Deixa comigo!... Tá ok, tchau! Até sábado.
   Ele desligou o telefone e ia ligar outra vez, quando notou a moça ainda ali, olhando para ele. Parou e ficou olhando para ela também.
- Posso ajudar? ele perguntou.
   Maria Eugênia entrou sorrindo e perguntou, com ar maroto.
- Atrapalho?
- Não...
- Você fica bem atrás dessa mesa. Eu vou ser administradora de empresas quando crescer e vou ter uma mesa dessas pra mim...
   Os dois riram.
- Quanto tempo falta pra você crescer? ele perguntou.
- Segundo meu pai, uns vinte anos ainda. Pela minha mãe, isso nunca vai acontecer.
- E por você?
- Quando eu não puder mais trabalhar com a minha beleza.
   Marco achou a resposta estranha, porque havia um quê de tristeza na voz dela.
- Falando assim dá a impressão de que só as crianças são bonitas. Eu tenho uma mãe que é uma gata, com quarenta anos; a Rita mesmo é linda com trinta e poucos.
- Com certeza elas são tão boas e felizes como uma criança...
   Marco viu certa coerência no que ela dizia e sorriu, encostando-se na cadeira.
- Tem razão... mas você não é?
- Sou, ainda sou, mas a vida muda tanto a gente.
- A beleza que a gente vê fora está na essência da pessoa.
- Então você deve ser uma pessoa muito especial.
   Marco ficou sem palavras, no momento, mas resolveu retribuir o elogio.
- Você também...
   Ela ficou um instante olhando para ele, mas resolveu sair daquele clima constrangedor.
- Eu estou com fome. Já almoçou?
- Não.
- Quer almoçar comigo? ela convidou.
   Ele não esperava por aquele convite e respondeu:
- É uma ideia muito boa... mas...
- A gente vai e volta rapidinho. O Kleber disse que você costuma almoçar num restaurante aqui perto. Que dá pra ir a pé.
- Ele disse, é?
- Posso me atrever a te convidar a almoçar no restaurante que você almoça?
   Ele pensou e respondeu:
- Claro que pode. É que... eu estou esperando um telefonema às duas...
   Ela olhou no relógio e falou:
- Ainda falta quinze pra uma. É coisa rápida. Eu não como muito. Vamos?
- Pode ser...
- Legal! Vou apanhar minha bolsa, ela disse, feliz da vida, saindo.
   Marco teve a nítida impressão de estar se metendo numa fria, mas o que tinha de mal almoçar com um colega de trabalho? Amanda só ia ligar às duas horas e nesse tempo ele já estaria de volta. Maria Eugênia voltou e os dois foram juntos até a sala de Rita avisar Haidée que estavam saindo para o almoço. Ela estava ao telefone quando eles entraram.
- Haidée, estou saindo.
   Ela colocou a mão no bocal do telefone e disse:
- Agora não, a Amanda está no telefone. Eu já ia chamar você. Não disse que ela ia ligar?
- Você disse duas horas!
- Que diferença faz? Ela está aqui! ela falou, baixinho.
   Ele respirou fundo e foi atender.
- Oi.
- Marco?
- Oi, tudo bem?
- Você está zangado comigo? Eu fiz alguma coisa?
- Espera um instante, amor.
   Ele olhou para as duas e pediu, colocando a mão sobre o bocal do telefone:
- Vocês podem me dar licença um minutinho só, por favor, meninas?
   Haidée levantou-se da mesa e foi saindo da sala, puxando Maria Eugênia pelo braço. A moça estava visivelmente decepcionada.
   As duas saíram e a porta foi fechada. Marco voltou ao telefone.
- Oi.
- Quem é que estava aí? Amanda perguntou.
- A Haidée, eu pedi pra ela sair...
- Como é que você está?
- Morrendo de saudade. Ontem, eu fiquei quase quatro horas esperando por você no telefone e você não ligou. A Rita falou que você tinha saído pra jantar com a turma. Eu... fiz plantão perto do telefone até dez e meia da noite...
- Desculpa, amor. O carro quebrou no caminho de volta pro hotel e não tinha nenhum posto por perto, nem oficina. Eu, a Luana e a Cristina tivemos que ficar numa pensão de beira de estrada por quase duas horas esperando os rapazes voltarem pra buscar a gente. Quando eu cheguei ao hotel e a Rita falou que você tinha ligado, a primeira coisa que eu fiz foi ligar pra você, mas o telefone só dava ocupado! Pelo jeito o seu amigo era muito amigo mesmo. Te fez companhia a noite inteira. Nunca te vi conversar tanto no telefone. Nem com o Teo.
- Não tinha amigo nenhum, Amanda. Eu só tirei o telefone da tomada.
   Amanda ficou boquiaberta.
- Você fez o quê? Por quê?
   Ele sentou-se na cadeira atrás da mesa e confessou:
- Eu estava com raiva.
- Raiva? De mim?
- Da situação, de esperar, de você passeando com o Roni num lugar longe de mim... de tudo!
- Eu não estava passeando só com o Roni, Marco. Tinha sete pessoas comigo. A equipe da RR inteira!
- Mas eu não sabia disso! A Rita não estava com você e eu sei que quando ela está longe, ele faz a festa.
   Ela ficou em silêncio do outro lado da linha e ele, depois de um tempo, chamou:
- Amanda?
- Você quer que eu pare de viajar com a Rita? ela perguntou sério e em voz baixa.
- Eu não disse isso.
- Eu não quero me indispor com você por causa de ciúme. Você é mais importante pra mim do que...
- Não! A gente já conversou sobre isso. É que eu nunca fiquei tanto tempo longe de você. Eu estou sendo um idiota.
- Não está. Eu até sei o que você está sentindo, mas você tem que confiar em mim...
- Eu confio. Isso também já foi conversado. Me perdoa.
- Eu te amo...
   Ele fechou os olhos e ficou em silêncio.
- Você vai ficar bem? ela perguntou.
- Vou.
- A Rita pediu pra perguntar e eu também quero saber: como é que está meu pai?
- Está bem, eu liguei pra ele na terça. Está com saudade.
- Vou ter que desligar. A gente vai fazer um desfile num hotel de luxo aqui da cidade.
- Legal, boa sorte.
- Já disse que eu te amo?
- Te amo também.
- Vou desligar. Te ligo de novo, hoje à noite.
- Te espero.
- Não se preocupa comigo, amor. Eu estou bem. Tchau.
- Tchau. Tchau, Mandy.
   Ela desligou o telefone e Marco ficou olhando para o aparelho, depois cruzou os braços sobre a mesa e escondeu a cabeça neles, pensando em tudo que tinha se passado por sua mente nas últimas vinte e quatro horas. Sentia-se um completo idiota e ficou com raiva de si mesmo. Colocou o telefone no gancho e levantou-se saindo da sala. Encontrou Haidée e Maria Eugênia esperando por ele no corredor.
- Quer almoçar comigo ainda? ele perguntou à modelo.

            ***********************************************
Velucy
Enviado por Velucy em 02/08/2017
Reeditado em 06/08/2017
Código do texto: T6071832
Classificação de conteúdo: seguro

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