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Instinto Inexplicável

                                     Instinto Inexplicável
                                      Jajá de Guaraciaba

          Certa tarde, quando eu estava saboreando uma bela espiga de milho deitado perto duma goiabeira, o meu companheiro de trabalho investiu contra uma menininha que estava brincando no terreiro próximo da escada da casa donde morava. Como eu estava mais perto dela do que ele, deu tempo de eu correr e me antepor entre ambos. Com isso impedi que ela fosse chifrada, mas o golpe de chifre do meu parceiro de canga acertou-me em cheio bem próximo do coração. Como eu tenho o couro duro, os chifres não penetraram muito na minha carne a ponto de invalidar-me, por isso consegui refazer-me do baque e entrar em luta corporal com ele. Foi muito difícil contê-lo, pois ele era mais novo do que eu, logo, possuía mais vitalidade.
          Neste momento percebi que a experiência conta muito, pois, num golpe de sorte pude derrubá-lo e pisar-lhe fortemente no rabo. Ele se levantou e vendo que eu o encarava firmemente, retrocedeu. Ele saiu pisando duro em direção ao pasto donde mais tarde eu o encontraria para indagar-lhe sobre o motivo que o levara a tentar praticar aquela covardia.
          No momento em que estávamos em luta corporal, eu percebera que um menino, um pouco maior que a menina, a retirou rapidamente daquele local, por pouco ele também não fora pisoteado por nós.
          Ao chegar à pastagem preferida do meu companheiro, o encontrei muito aborrecido, confesso que fiquei com dó. Perguntei-lhe o porquê de ele ter atacado a filha do patrão e ele cabisbaixo respondeu-me que fora num momento, assim do nada, um mau instinto o levou a adotar aquela atitude inconveniente. Pediu-me desculpas e acrescentou que iria prevenir-se para que tal fato nunca mais se repetisse.
          O menino, que também assistira toda cena, decerto contou para o pai dele tudo o que havia acontecido, visto que no dia seguinte o patrão vendeu o meu parceiro de carro de boi. Talvez em agradecimento por eu ter feito o que fiz, o meu dono comprou um trator e nunca mais me pôs para trabalhar. Fiquei numa boa pastando e bebendo sem fazer nada.
          O que me atormentava era a saudade do meu parceiro que fez o que fez, coitado, movido por um mau instinto inexplicável. Será que isso também ocorre com os homens?
Jajá de Guaraciaba
Enviado por Jajá de Guaraciaba em 24/09/2019
Reeditado em 24/09/2019
Código do texto: T6752951
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Jajá de Guaraciaba
Pilar do Sul - São Paulo - Brasil, 76 anos
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Jajá de Guaraciaba