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PARA MARINHEIROS DE PRIMEIRA VIAGEM



Quando ainda é só o começo, que não temos a noção exata do que seja a solidão, quase nos desesperamos com ela, tentamos a todo custo nos enturmarmos aqui ou acolá, precisamos da presença das pessoas para não sucumbir, mas a solidão tem uma força silenciosa descomunal, ela nos cerca e nos arrasta para o seu centro e vamos pouco a pouco, sabendo como é ser uma ilha na imensidão do nada.

Com o tempo, o ânimo se acalma, vamos tendo a certeza que sob os efeitos dela não temos par nesse mundo e começamos a nos relacionar conosco mesmos, aprendendo a gostar dos nossos pensamentos e até a dialogar com eles.

Percebemos que o mar não é para peixe, que não adianta tentar e tentar a todo custo, porque sob esta influência (da solidão), chegamos até nos tornarmos inconvenientes e indesejáveis em todo meio...

Então vamos colocando os nossos cacos no lugar, juntando um a um (porque a solidão estraçalha a gente, nos enchendo de pedaços) e colando, num exercício paciencioso, diário, olhando o céu enquanto isso, olhando a janela com olhar comprido, olhando as paredes que nos guardam, até que enfim conseguimos nos formar, feito uma parte de um quebra-cabeça, dando a forma exata do que somos agora, depois que ela (a solidão) nos beijou a face e nos escolheu no meio da multidão.

Vamos nos tornando mais fortes do que no começo, já ficamos de bem com a gente mesma e temos enfim forças para atravessar os dias ou os meses, seja lá quanto tempo for de invernada, sem nos partirmos mais, já nos identificamos como um ser de importância própria, reconhecemos os nossos valores e o egoísmo de quem poderia ter se repartido conosco e não o fez, seja lá por qual razão for, não importa saber.

O que sei de verdadeiro, é que se tratarmos mal a solidão, mais ela nos retalha; se não a aceitarmos quando todos os sinais estão fechados, andaremos em círculo mendigando companhia e não encontraremos nada que nos dê alento.

Não digo para sermos de pouca receptividade, muito pelo contrário, mas precisamos reconhecer na solidão a sua força imperiosa em algum momento do trajeto, quando por acaso ela nos abraça.

Aprendemos que na vida nem tudo são flores, vamos ficando esquecidos do mundo, mas ganhamos em autoconhecimento, aprendemos os caminhos de nós mesmos, para chegar ao nosso melhor e vamos vendo que aquelas pessoas que se alhearam de nós, do meio para frente não fazem falta nenhuma, porque nos dispensavam uma ilusão sem proveito.

O solitário se fortalece e aprende que a vida não para, exigindo a sua força para um autocontrole e reconhecendo que temos dias bons ou nem tanto, mas que cada dia é uma dádiva só nossa, que nos mantém de pé e com dignidade.

Correr ora para aqui ou acolá, em busca de quem nos acolha, sem encontrar, é coisa apenas de principiante; o "profissional" da solidão, não se rende ao que o outro deixa de representar.

Portanto, você no início do rojão, marinheiro de primeira viagem, saiba esperar se conhecendo; descobrirá que somos a nossa melhor companhia, tanto em fidelidade, quanto em alegria, que nos aparece em outra roupagem, diferente daquela das grandes turmas que não nos deram valor.
Ene Ribeiro
Enviado por Ene Ribeiro em 11/09/2019
Código do texto: T6742783
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Ene Ribeiro
Goiânia - Goiás - Brasil, 57 anos
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Ene Ribeiro

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