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Quase centenária: Divinópolis. Hino não foi aprovado em concurso. Foi postado para ser inspiração a outros. Viva Divinópolis e seus poetas e moradores.

Caro leitor, internauta,

Seja bem-vindo(a). Paz e Bem!
A poesia é o espelho suave da alma. Pode ser um grito de indignação. Uma porta para o além e aquém. Convido-o(a) a ler meus poemas e crônicas. Espero que goste e recomende a outros amigos de vocês. Obrigado!
Aqui temos um traço biográfico de minha pessoa. Eu sou o poeta João Bosco.

Ela não foi aprovada em concurso.
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QUASE CENTENÁRIA

Divinópolis quase nossa Centenária!
Recorda-te, sereno, história do povo:
O Divo Amor pairava nesta água de novo...
O Candidés torna-se figura lendária.

Busca nossas Raízes cor imaginária.
Havia, nesta luta, tal sonho de renovo...
Páginas da história: fé e teu mito louvo.
Hoje cantemos hino de louvor qual ária.

Que sã alegria fazer parte desta História!
Que dádiva divina lembrar sua Memória!,
Sabendo-te ator, honrando pois nome dela.

Tua imagem, Deus permita jamais esquecer:
Amor à vida, te refaz em aquecer.
Canto feliz teu hino, Cidade Bem Bela!

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Re-visitando a poética de Sebastião Milagre hoje!

Critica literária de José João Bosco Pereira – 20/04/09

            O poeta Sebastião Bemfica Milagre publica alguns poemas no Suplemento Literário de Minas Gerais. Domingos Diniz em carta para mim (BH, 10/03/09), focaliza Milagre durante a ditadura. Milagre não foi panfletário e nem de esquerda abertamente. Esta é também a visão do mestre Adércio Simões Franco (2009). Sutil e constantemente, abordava temas de todo gênero e até política: poemas sobre o cotidiano, a inflação, a fome, a violência, a espoliação do ferro de Minas, dentre outros aparecem com incrível qualidade poética, outros modernista, aqueloutros vanguardistas.. Diniz emprega o termo “escultura da poesia do Tio Milagre”! Basta ler a sua obra para comprovar isso. Recomende-se a leitura dos poemas: Homemóvel, O homem é dor, Sidil, Foquete (poema processo com desenho), Custo de vida. Segundo o mesmo Sebastião Milagre em Suplemento Literário/Minas Gerais (Bessa, 2003B, p. 60): “Participante, é a poesia que traz em seu contexto tudo aquilo que se refere ao homem – cotidiano, suas manifestações pessoais até a vida coletiva... Dou valor à persistência, algo novo é recebido com reservas, mas, se é de boa qualidade, aos poucos, será aceito plenamente. (1968)”
           E comenta Bessa (2003, 30) sobre o engajamento de Milagre na Turma do Agora: “Vivíamos no Brasil sob o tacão da ditadura militar e não podíamos abrir o peito (...). Mas não (...) não afinamos um dedinho sequer. (...). [Foram] 24 números (...), nos quais fizemos uma contestação indireta, (...) todos, na época, eram contestadores...”
           Essa “escultura poética” é paradoxal ao evidenciar as crises do poeta que revela seu posicionamento político como escrivão da polícia civil, compositor e secretário de faculdade. A fase madura (1968-90) remete-nos ao poeta cuja formação e leituras superam o homem comum. Qual divisor de águas da poética entre o tradicional ao moderno, Milagre se consagra um dos poetas mais populares de Divinópolis, celeiro de vocações artísticas e pólo industrial do Centro-Oeste Mineiro.
         Em síntese, destaca-se o foco de algumas de suas obras aqui de nosso interesse:
a). Em O Mundo e O Terceiro Mundo (abril de 1981), Domingos Diniz – Presidente da Fundação de Cultura, consta que “a realidade que não é apenas um pano de fundo, um aspecto exterior, mas a própria estrutura do livro que aqui se denomina O Terceiro Mundo”, e pró-diagnostica: “Aí está Sebastião Milagre, que sendo poeta divinopolitano, é um poeta do Terceiro Mundo.”
b). Em 3 EM 1 (1985), questiona-se a inflação, a Guerra-Fria e a exploração do ferro em Minas. Adota o lema de Nélida Piñon (epígrafe em 3 EM 1): “O escritor é uma voz a mais a denunciar as realidades incompatíveis com o Homem” (1985). Do Rio de Janeiro, ela corresponde com ele em 1988: “Comove-me ver o Brasil ecoar sua voz poética de modo forte e resistente.”
c). Em Viaduto das Almas/ O Homem Agioso (1986), registra o testemunio vário de amigos na introdução. Indaga-se: se a vanguarda milagreana foi e é diferencial na literatura e cultura divinopolitana, a partir de que elementos? E como forjou a (des)continuidade do fazer tradicional? Os poemas O Viaduto das Almas e O Muro de Berlim (p. 33 e 69) posicionam o poeta como ser político? Sua evolução é clara quando imita Manuel Bandeira em “Vou-me embora pra Itaúna. Lá, tem político forte. Aqui é “funcho” (...) Divinópolis: seremos um distrito de Itaúna.” (p. 21). Faz alusão a Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, em 1922. (MILAGRE,1986, 81). Na introdução de O Viaduto das Almas (MILAGRE, 1986), Lázaro Barreto, um dos seus amigos, evidencia aspectos axiais de Milagre:
Sebastião foi um dos primeiros (ou o primeiro?) a aderir a chamada revolucionária do concretismo poético. Sua adesão representou uma enorme abertura mental, que deve ter tido seu gosto de violência pessoal. Sei que podem objetar que tudo não passou na área da estética, como repercussão apenas no seio de amigos. Mas não é bem assim. A poesia é prenúncio, intuição de tudo que poderá ocorrer politicamente. (...) [Os] clássicos da música, amor à Lilia, falecida prematuramente (...) são motivação constante.
d). Em Doador de Sangue/Procissão da Soledade (1990), última obra/ápice vanguardista, Milagre faz retrospectiva à infância, discute temas do cotidiano, denuncia o desmanche do casarão onde nascera (1990, p 49-54). Embora aderisse ao Projeto Piloto de JK-Oscar Niemayer em Brasília e Aristides Salgado dos Santos em Divinópolis (CASTRIOTA e MACHADO, 2008) pelo enaltecimento dos altos prédios de Divinópolis. (MILAGRE, 1990, p. 156), rebela-se contra da destruição da memória coletiva. Ele registra fatos, fotos e desenhos, oferece o livro aos artistas: Petrônio Bax, GTO – Geraldo Teles de Oliveira -e Adélia Prado. Reflete os temas urbanos e da ordem globalizada nos anos 80 como queda do muro de Berlim (p.34).
          Se para Candido (1972), “o Modernismo representou o movimento de maior originalidade de nossa literatura”, para Milagre foi uma apropriação tardia bem-sucedida. E o concretismo, deu-lhe a condição criativa de conciliar o local com o universal como sentimento intimo de seu tempo, expressão machadiana em “O Instinto da Nacionalidade” (ASSIS, 1986). Esta adesão elucida novos tempos e aspectos da poética e acervo milagreano? Hoje ambos devem ser vistos na colaboração de diferentes saberes. A estética pode ser contextualizada à luz do conceito de cultura. As culturas implicam resultados de diáspora-deslocamento e a escritura de Milagre, descontente com a ditadura, evidencia os modos de vida e sentimentos da classe popular e operária. Cultura constitui o trânsito de modos de vida global apropriados em grupos, nos quais a obra é vista como uma das práticas culturais dentre outras, capazes de conter as marcas de seu tempo ou o espírito de luta de classes e grupos sociais (HALL, 2003).
           Em suma, sua poesia e acervos são documentais. E o acervo registra momentos crises de identidade (processo e fragmentação) e a poética, uma das práticas culturais significativas e/ou produto das condições sociais e culturais. Espera-se contribuir assim sobre a poética de Milagre em novos matizes desafiadores como agenciamento crítico da cultura e o diálogo universal-local. Estas e outras questões favorecerão aspectos novos. Por esses e outros motivos, propõe-se resgatar do arquivamento do eu milagreano, as meta e novas nuances de sua poética e acervo, uma vez que: “...se os mortos não estão entre nós, os vivos, eles serão esquecidos”, alerta-nos Saramago
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BESSA, P. Pires. Sebastião Bemfica Milagre: O Poeta de Divinópolis. Funedi, 2003. 156 p.
____. .Jornal Literário Agora: textos e Ressonâncias. BH: Imprensa Oficial de MG, 2003, 106 p.
CAMPOS, Augusto de. CAMPOS, Haroldo de. PIGNATARI, Décio. Teoria da poesia concreta: Textos críticos e manifestos (1950-60). São Paulo: Brasiliense, 1987.
CANDIDO, Antonio. “A literatura brasileira em 1972”. Arte em Revista. São Paulo, Kairós, ano 1, nº 1, jan/mar. 1972.
CASTRIOTA. Leonardo Barci e MACHADO, Rafael Palhares. (Orgs.) Saberes Articulados de Aristides Salgado dos Santos. IAB-MG/ IEDS – Belo Horizonte, 2008.
CORGOZINHO, Batistina Maria de Sousa. Nas Linhas da Modernidade: continuidade e ruptura. BH: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais. 2003. 366 p.
GULLAR, Ferreira.Vanguarda e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1978.
HALL, Stuart. Estudos Culturais: dois Paradigmas. In: Sovik, Liv (Org.) Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais Tradução: Adelaine La Guardia Resende. Belo Horizonte: UFMG/ Brasília: Unesco no Brasil, 2004.
MARQUES, Reinaldo. Poesia e mercado: O que dizem as cartas. In: Acervos de Escritores Mineiros no Suplemento Literário de Minas Gerais, Belo Horizonte, jun. 2007, 36 p., p. 4-9.
MILAGRE, Sebastião Bemfica. O Doador de Sangue/Procissão da Soledade. Gráfica Sidil, Divinópolis, 1990. 159 p.
_________. Lixo Atômico. Divinópolis, Sidil, 1987.56 p.
_________. O Mundo e O Terceiro Mundo. Divinópolis. Edições ADL, 1981. 33 p.
________. 3 EM 1. Divinópolis: Gráfica Santo Antônio. 1985. 6 p.
________.  O Viaduto das Almas/O Homem Agioso. Gráf. Sto Antônio, 1986. 92 p.
MENEZES, Philadelpho. Modernidade e pós-modernidade: experimentalismo, vanguarda, poesia. São Paulo: PUC-SP, 1991. (Tese de doutorado)
SILVA, Mercemiro Oliveira. Sebastião Bemfica Milagre: Elogio Acadêmico. Divinópolis, Edições ADL, 1996. 24 p.

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Frustam-me os cartões e relógios de ponto.
São prisões inúteis de medir o tempo.
Foram feitos para os acomodados
Não quero a chefia tirânica
Que persegue e engana com seu olhar
Fútil, fingido e indolente.
Nem aceito seus sequazes
Cuja bajulação esconde o desejo de subir e ter poder.
Para vigiar querem algo mais
E delatar logo.
Amofo todos os que se grudam ao poder
E o querem tão-só.
Querem ser superior aos outros.
Aborreço-me com os elogios
Para massagear egos...
Protesto contra os submissos,
Os que adulam e deixam os chefes
Pisarem só para não se imporem.
Que pena será a vida toda?
Se há autoritarismos, existe quem
Os credita facilmente.
Deixam que algum Tiradentes se apresente!
Sairemos bem disso após
A morte do herói.
Abaixo os tiranos e cúmplices malditos
Que apipocam e apodrecem os ambientes de trabalho.

ALGUÉM

Alguém está disponível
Alguém procura alguém.
Você precisa de alguém.
Você quer alguém.
Todo mundo deseja na vida alguém.
Mas, paradoxal é ver alguém sem ninguém.
Alguém está só.
Eu sou alguém.
Poderia ter mil possibilidades
Mas vivo uma de cada vez.
Na curva da vida, posso encontrar alguém
Ou este alguém me encontrar.
Vamos procurar?

VENDEDOR DE SONHOS

Somos atores na vida
Aproveitando o dia de cada vez.
Contemplo meu futuro.
Não posso ser marechal.
É urgente conhecer-me
A cada opção para acertar
Evitar a contramão.
Somos apenas frágeis terraquios
Não dá para viver como etê.
A vida é o meu palco.
Não dá para ficar fazendo shows.
É caro e cansativo
Por isso, nos bastidores estudo-me.
Se falhar, não desisto do meu sonho.
Eu aqui vivo cada dia de cada vez.

OBAMA

Deus o ajude!
Seu discurso é ambíguo;
porque ser negro ainda é ambigüidade:
servir-se do sistema para vencer
servir o sistema para padecer.
Discursa para agradar gregos e troianos.
Discursa para incutir fé e esperança.
Não nos enganemos
Não é nada fácil ser presidente negro.
Ele sabe que não é super-homem.
E a decadência da potencia
Ainda esconde a prepotência.
O processo foi desencadeado e
Os estilhaços da crise vão nos atingir.
Porque somos ocidentais
E os orientais estão de olho em nós.
Abaixo o capitalismo
E nem aceitamos os fundamentalismos mútuos.
O sistema é duro demais,
 mata-nos a cada curva da história
Concentrando dinheiro e poder na mão de poucos.
E o homem fica à margem;
Ainda não sabemos como ficará o centro.

MEUS TEMPOS

Sinto-me oprimido,
Não sou omisso.
Frente questões de meu tempo,
Ainda sabemos tão pouco –
a teoria não resolveu ainda a prática.
As culturas ainda
Vivem tantos paradoxos insustentáveis.
A fome grita em todo planeta.
A natureza humilhada reage violenta
E sua revanche tem proporções esmagadoras.
Os crimes de guerra
Que vergonha
Continuam por todo lado.
Civis e pobres sofrem conseqüências.
Tudo isso me faz pensar e chorar.
Até quando, meu Deus!?
Os juizes e políticos em conluio.
Invertem o jogo do poder com facilidade
Os pequenos vão ao tribunal.
Os ricos e injustos são liberados.
Tanta demagogia deslavada,
Mentem deslavadamente bem.
Sinto-me oprimido,
Vendo e vivendo nesses tempos.
Querem que nos sintamos
Inoperantes,
Impotentes,
Conformados,
Anestesiados com o mal – normal.
Vai meu protesto
E minha atitude a cada dia
Com o trabalho honesto e a favor dos pequenos.
Justiça não declina com corrupção.
Fome não rima com democracia.
E democracia não pode mascarar a tirania.

CHUVA

Ela cai leve e me faz dormir – obrigado, meu Jesus.
Ela cai forte e não deixa dormir o pobre, que pena, meu povo.
Levanto os braços em mutirão para ajudar...
Levanto os olhos para anunciar e denunciar.
O povo não tem casa e há gente correndo risco perto de rios.
Que arte das gotas virem
Fertilizar os campos?
Que desastre dos homens
Desmatando florestas e assoreando rios?
As gotas são milagrosas e perigosas ao mesmo tempo.
Elas alimentam usinas hidrelétricas,
Elas afogam nossos filhos e famílias perdem tudo.
Se continuar assim, a natureza vai exigindo respeito.
Deus perdoa sempre, os homens as vezes,
A natureza nunca!

Mas não nego a primitiva dádiva divina,
As chuvas têm sua musicalidade,
Aos olhos brincam de todo modo,
Aos ouvidos, destilam ritmos e versos cadenciados ou não.
Capte o show da natureza.

RAIOS X DO MILAGRE

Quem lê Sebastião Milagre?
Eu gosto tanto de sua poesia.
É verso engajado – critica sutil à ditadura.
Maduro sofre perdas e crises.
Teve olhar atento à cultura local.
Nome da agenda cotidiana.
Declamava, compunha e defendia nossa gente.
Sofreu, amou e morreu como tanto quis.
Sem Lilia, ele se sentia infeliz.
Tantas poesias lindas
Para dar sentido às labirínticas
Vivencias sociais.
Critico da cultura
Foi fundo em seu mundo.
Nada será igual
Depois de sua partida.
Agora vive do outro lado da vida,
No casamento espiritual.
Amar e refletir foram suas metas
Cujas premissas ficaram retintas
De versos e músicas, preces literárias.
Como é caro para nós
O preço do progresso;
A ética e fé não ficaram em escanteio
Pois vez da poesia seu imortal celeiro.
Deus fez Divinópolis;
E Divinópolis ama Milagre.

ABSURDO

O absurdo das desigualdades
Gritantes
Tem como contrário aparente
O enriquecimento do oligopólio
Surdo,
Que ofende o silenciamento de vozes da multidão empobrecida.
Em janeiro, o cidadão comum
Paga muitos impostos
Enquanto vereadores
Todo ano
Aumentam a bel-prazer
Sua remuneração.
Que vergonha!
Vergonhosa democracia.
E lninguém faz nada
O povo aceita submisso e omisso.
E a maquina viciosa
Continua fabricando
A desigualdade escandalosa do sistema,
Que justifica esse ato.
Pobre continua pobre para rico ficar mais rico.
Precisamos de uma revolução,
Em plena crise mundial,
A economia deveria ser inclusiva.
Não vale mais plantar pobres,
Para ricos ficar dominando tudo.
Até quando?
Protesto, isso está errado!
Amaldiçoo  esse sistema cruel
E enganador.
Tudo que tem início tem fim.
Tomara que chega logo esse fim.

Ouvi de alguém
Isso que me chamou a atenção:
- Gosto de tudo,
- Um pouco!
- De nada,
- Muito.
Gosto de cada coisa em seu lugar.
O problema é que nem tudo tem seu lugar.
A gente tem o trabalho de arranjar lugar para coisas fora de lugar.
Há discursos fora de lugar como há pessoas fora de seu lugar.
Cabe a ela descobrir seu lugar no mundo.
Fernando Pessoa aconselhava:
- - Que nada em ti exceda ou exclua,
Seja inteiro no que fazes como a Lua Alta
Brilha em cada lago inteiramente.

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VIA-SACRA – DE SEBASTIÃO BEMFICA MILAGRE – PARA O CLERO E MOVIMENTOS DE IGREJA DA DIOCESE DE DIVINÓPOLIS
Proposta do Acadêmico José João Bosco Pereira
24 de maio de 2009
Viva Nossa Senhora Auxiliadora!

            Excelentíssimo Reverendíssimo Dr. Dom Tarcísio Nascentes dos Santos, Nosso quarto bispo da Diocese de Divinópolis. Seja bem-vindo. Parabenizamo-no pela posse no dia 17 de maio de 2009. O Espírito de Deus fortaleza o bom propósito de evangelizar pelo múnus a que a Santa Igreja o conferiu nessa porção do povo de Deus em Minas Gerais.
1. JUSTIFICATIVA DESTE PROJETO PASTORAL VIA-SACRA...
          Divinópolis como Diocese, diante dos desafios pastorais de uma metrópole do Centro Oeste Mineiro, percorre o caminho da esperança e da ação transformadora, segundo Medelin, Puebla, São Domingos, o Documento de Aparecida e o Ano Sacerdotal (2009-2010). Há uma multidão de homens e mulheres fazendo a história em condições que não escolheram. Contudo, o Espírito de Deus sobra onde quer e conduz a humanidade nas sendas do Reino de Deus, de modo místico, cujo projeto do Céu nos impressiona sobremaneira. Pois “os caminhos dos homens não são aqueles de Deus. E nada retorna a Deus sem ter fecundado antes o coração e as mentes dos seres humanos”. E o que é tido como obstáculo ao Reino isso mesmo Deus se serve, paradoxalmente, como meio para fazer cumprir sua santa vontade.
       Batistina Maria de Sousa Corgozinho, em Nas Linhas da Modernidade (2003) afirma que nenhum argumento vem de forma isolada. Ele desencadeia outros no seu rastro. Divinópolis nasceu pelos caminhos da maria-fumaça desde 1912, data de sua emancipação político-administrativa. “A ferrovia é a ponta de um iceberg, que representou um provocador de mudanças de mentalidade e de arquitetura divinopolitanas” (p.15). Com a chegada de migrantes, a cidade se modernizou! Esse processo de substituição gradativa da tradição pelo desejo do novo. Houve o conflito entre antigo e novo na modernização de Divinópolis. O Casarão do Largo da Matriz, hoje MUSEU HISTÓRICO, construído pelo coronel Francisco Gontijo, local onde estudou Frei Orlando, Escola Mario Casasanta, antigo convento, escolas, liceus, ordens religiosas diversas, hotel, morada de Antonio Olimpio de Moraes. Hoje o Museu Histórico (instituído por Jadir Vilela de Sousa) foi um dos poucos prédios que sobreviveu na onda intermitente de desconstrução já na dec. de 80. “A cidade nova ficou velha rapidamente. Desencadeou-se um refazer e um desfazer contínuos na cidade” (CORGOZINHO, 2003, P. 17). Tudo que é sólido desmancha no ar! Walter Benjamin afirma que a modernidade é um contínuo transformar-se. Peter Burke, historiador jesuíta da cultura anglicana, mostra que há muito as trocas desiguais entre culturas provocam hibridismo cultural, dominação e destruição de um lado e de outro, aproveitamento híbrido ou mistura de culturas diferentes desde o Renascimento ou bem antes.
      Creio que, nesse contexto global, de alguma forma lutamos por conservar a memória coletiva da cidade com a ajuda da Igreja. Sebastião Milagre representa em sua poética um novo sujeito social mais consciente da sua voz de formador de consciências. Ele e Adélia Prado como escritores de alta consciência se posicionam a partir da presença do Franciscanismo em Divinópolis e outros movimentos culturais como as duas semanas da arte e o Movimento de poetas vanguardistas – os Moços do Agora (contra a Ditadura) no final dos anos 60, que deu origem ao Jornal Agora. Em 1924, com a vinda dos franciscanos holandeses, a cidade receberia nova influência cultural de qualidade e de impacto na evangelização, que culminaria na criação da Diocese de Divinópolis.  (CORGOZINHO. 2003, p. 290).
          Nesse sentido, faz-se a proposta de aplicar pastoralmente Via-Sacra, do falecido poeta Sebastião Bemfica Milagre em nossa diocese, onde foi o primeiro ex-ministro poeta. Ser ministro extra-ordinário da Eucaristia era para Milagre dignificante função, confessa em Lixo Atômico em 1987 (p. 11).        Sebastião Milagre, ex-ministro da Catedral em 1970-71 (Milagre, 1886, p. 17), fora indicado por Pe. Evaristo (Paróquia São Pedro Apóstolo) e aprovado por Dom Cristiano, primeiro bispo de Divinópolis.
      Em 1960, lançou sua VIA-SACRA, cujo exemplar está no Vaticano. Sebastião Milagre (02/09/1923 – 22/02/1992) é tão conhecido quanto Adélia Prado (*13/12/1935). Ele produziu sonetos, trovas, poemas modernistas e vanguardistas até 1990. Tanto para o pós-doutor em Literatura pela UFRJ -. Pedro Pires Bessa - em sua obra Sebastião Milagre: O Poeta de Divinópolis (2003) quanto para o professor de literatura pela Universidade de Pelotas Adécio Franco Simões – mestre em Literatura sobre Adélia Prado – o escritor Milagre foi um dos maiores poetas divinopolitanos com características sugestivas de uma produção literária significativa e uma longa fidelidade a poesia. Em 1990, Milagre fez 50 anos de poeta, quando publica Doador de Sangue/ Procissão da Soledade.
         Para Bessa (2003, p. 39-46), há uma síntese da Via-Sacra, com comentários alusivos sobre o formato literário de Via-Sacra. É o primeiro livro de Milagre. A religião é uma das camadas da obra desse poeta do interior do Brasil. O poeta viveu com intensidade a sua fé. Na capa coloca a imagem do Senhor dos Passos, antiga e feita em Sabará ou em Congonhas. O próprio Milagre comenta em seu livro a origem e valor artístico dessa imagem em A Capa do livro. (MILAGRE, 1960, p. 11-12).
      Para Mercemiro Oliveira Silva, em Elogio Acadêmico Sebastião Milagre (1996, p. 07): “Via-Sacra, editado pela Imprensa Oficial em 1960, encontramos dois poemas heterométricos e rimados, Oração Preparatória e Epílogo. O miolo é constituído de quatorze sonetos, um para cada estação da Via-Sacra.”
     Na obra de 1963, Gomos da Lua, Milagre transcreve vários autores que leram Via-Sacra. Por ex., Pe. Alfonso Raes, S. J. , antigo prefeito da Biblioteca do Vaticano: “A nome della Biblioteca Apostólica ringrazio la S. V. per gentile omaggio dela Sua publicazione Via-Sacra.” Augusto de Lima Júnior confidencia: “É um assunto de meu agrado, pois, como você, tenho fervor pela figura do nosso Salvador. Fiz, como você, a Via-Sacra.” Batista de Oliveira: “Com Via-Sacra te consagres!/ É um livro que dignifica: / N’alma, Bemfica Milagres, / É um milagre que bem fica...” (MILAGRE, 1963, p. 8)
.........Como Milagre se expressou, modestamente, na apresentação de Via-Sacra (1960, p 19-29), referendo-se à semana Santa de 1958, em Divinópolis, quando a mesma aconteceu no Largo da Velha Matriz: “A celebração da Via-Sacra (...) em via pública, era uma feliz inovação, porque despertava um sentimento mais intenso de piedade, e conduzia a um estado de contrição, todos aqueles que se moviam ao longo da caminhada.” (MILAGRE, 1960, p.19)
          A sensibilidade do poeta na fé no contexto de modernização tardia em Divinópolis já nos adianta uma interpretação sobre as dificuldades da urbanização e crescimento populacional para a visão de conjunto pastoral da nossa igreja local, o que se exige uma dimensão de planejamento e ações conjunta com os poderes constituído com apoio da sociedade civil organizada – facilitando o desempenho e eficiência da ação evangelizadora da Igreja Católica:
Paradoxalmente, hoje, que a cidade cresceu demais, parece que o sentimento religioso de nossa gente se arrefeceu. Pura ilusão! Com ela, cresceu a semente do bem. É que templos e mais templos foram sendo edificados, espraiando-se a população católica em diversos núcleos, ofuscando-se assim a impressão de numerosidade. (MILAGRE, 1960, p. 20)
        Com o livro Via –Sacra, o poeta obteve o título Menção Honrosa, seção de poesia, do Concurso Cidade de Velo Horizonte de 1960, promovido pela Prefeitura da Capital, e concorreu, ao prêmio Bezerra de Melo, da Academia Mineira de Letras. (MILAGRE, 1963, p. 9)
       A obra de Sebastião Milagre deve ser vista no bojo de transformações históricas na cidade de Divinópolis nos anos 60. Ele ainda fala na década de 40 e 50, onde o catolicismo local desempenhava uma presença viva na tradição das procissões e celebrações públicas nas praças da cidade, especialmente na Praça Dom Cristiano:
Oh! Aos filhos da Terra do Paráclito, sempre o Largo da Matriz, com suas adjacências, apareceu como o lugar mais poético da cidade (em 1959). Porque foi a li que se embalaram os sonhos da sua mocidade, e as feições daqueles velhos prédios se plasmaram na sua memória. (MILAGRE, 1960, p. 23). (...) Essas coisas, hoje quase desaparecidas, insignificantes e desapercebidas para os de fora, significam para os divinopolitanos de ontem, um motivo de recordação e de saudade. Pois bem, esse Largo, agora, estava transformado na Praça Dom Cristiano. (MILAGRE, 1960, p. 24)
         Dom Tarcísio, nós trazemos ao conhecimento de Vossa Excelência a possibilidade de reiterar-se do pedido mui significativo de Sebastião Milagre no final de sua apresentação em Via-Sacra, podendo-se, se convier a Vossa Excelência, a aplicação do texto no todo ou em suas partes, ou ainda com algumas adaptações para a pastoral da Quaresma, onde a nossa Igreja e a CNBB sugere a Campanha da Fraternidade e sua Via Sacra comunitária nas paróquias das Dioceses do Brasil: Gostaríamos que a Via-Sacra fosse revitalizada de modo mais piedoso e envolvente pastoralmente para o clero e movimentos de igreja capazes de aproveitar mais o texto de Sebastião Milagre porque o mesmo apresenta uma linguagem erudita e figuras de valor altamente literário: “Ao concluir esta prévia explicação, tenho a dizer (...): o tempo decidirá. É um sonho muito grande, mas não impossível. O Autor. (MILAGRE, 1960, p. 29)”
          Dom Tarcísio Santos, em Carmo do Cajuru, cidade vizinha de Divinópolis, há uma praça contendo a Via-Sacra viva com reais altares ao redor da mesma em um bairro afastado do centro de Carmo do Cajuru. Isso não lhes é problema para a circularidade ou fluxo do trânsito e nem envolve questões de mérito urbanístico para a prefeitura daquela cidade. Foi uma atitude que articula a fé e a gestão da cidade de modo sereno. Mas, isso, em Divinópolis, não significa que não possa merecer um procedimento adaptado e transitório nas celebrações quaresmas da Via Sacra na Praça Dom Cristiano ou na Praça do Santuário Santo Antônio ou nas nossas paróquias diocesanas, conforme o beneplácito de Vossa Excelência e deferência pastoral a contento.
         De tudo o quanto foi analisado até aqui, a obra de Milagre deve ser entendida à luz de seu livro A IGREJA DE JOÃO XXIII (MILAGRE, 1996, 49 p.) porque é da doutrina social da igreja e dos conceitos de fraternidade e justiça social à luz do evangelho que Via-Sacra se torna uma obra de fé e poesia ou enaltecimento à paixão e morte do Redentor na história dos homens e mulheres de todos os tempos. A eclesiologia fundamenta-se na Cristologia e Soterologia. Coube a inspiração do Espírito Santo em João XXIII para convocar o Vaticano II, cujos frutos todos nós compartilhamos e Milagre ajudou confirmar em sua vida pessoas e de poeta. À luz do Alto inspirou a criatividade e liberdade cristã nos textos milagreanos com profundidade e qualidades literárias indubitáveis. Ele, que tinha sido bom ministro extraordinário da Eucaristia na Catedral em 1970 e 1971 (BESSA, 2003, p. 80), afirma que “A juventude vê na Igreja os ideais de justiça que deseja... Sai do Vaticano uma aula de aquecer, os irmãos se chamam, chove Deus entre os homens. ” Milagre havia visitado o Cristo do Corcovado no Rio de Janeiro como o Cristo maior do Mundo, desça o braço no abraço a favor do abono de um pai mineiro que tem quatro filhos e vem lá de Minas, pela viação Cometa. Ele é da geração dos que leram IMITAÇÃO DE CRISTO. O poeta fala de Cabo frio e suas viagens. O poeta avalia as mudanças sociais da igreja depois do papado de João XXIII. Quando puder leia a linda obra de Sebastião Bemfica Milagre, que está resumida em Sebastião Milagre: O poeta de Divinópolis, que se encontra nas bibliotecas de nossa cidade e nas faculdades ou nas livrarias. Milagre é mesmo ícone de transição e renovação da literatura, em que aparece como divisor de águas; sem o qual não se pode entender antes e depois dele a literatura local.

2. OBJETIVOS
2.1. Evidenciar a proposta de Via-Sacra, de Sebastião Bemfica Milagre, poeta sacro divinopolitano, como material pedagógico e instrumento pastoral para a Diocese em seu cinqüentenário, inclusive na criatividade e critérios que fortaleçam a reflexão cristã neste Ano Sacerdotal.
2.2. Mostrar a importância de Via-Sacra como obra literária que centraliza a fé na vida cristã e se torna motivo de mobilização coletiva das comunidades da Diocese, valorizando elementos da tradição cristã, doutrina social da Igreja desde João XXIII, Vaticano II e documentos da Igreja latino-americana e da igreja diocesana.
3. METODOLOGIA
          Nossa motivação vem de uma via-sacra participativa e o inserir-se na realidade à luz da fé, dos Evangelhos e da Patrística, que aconselham partilhar Cristo no e com o mundo. A sensiblidade poética de Milagre em Via-Sacra pode ser instrumentos de evangelização aos grupos e movimentos de igreja, em última análise, sob a orientação de Dom Tarcísio.
      No processo de modernização urbana de Divinópolis como assevera Batistina Corgozinho e Aristides, grande parte da tradição e do sagrado se perderam. No entanto, na arte e na literatura, as marcas da cidade continuam vivas na memória popular e coletiva da cidade com seus rastros e pegadas. A história da cidade continua viva na memória de seus habitantes. É uma memória tão viva e emocionante que se constitui espaço de preenchimento das lacunas da historiografia oficial. As fotografias, os museus de nossa cidade – da Cultura, o Arquitetônico e o Museu Histórico do largo da Matriz – conservam essa história viva. Mas, também, a obra de Sebastião Milagre merece um olhar atento, de fé, especialmente por ser um dos maiores poetas de Divinópolis. Nesta obra, uma das mais belas tradições ainda continua atestando um sentido histórico do seu texto poético e da fé, enaltecendo o valor da Igreja na (pós) modernidade.
         Sugerimos a leitura e aplicação de Via-Sacra ao bispo, ao clero e grupos de leigos cuja formação têm condições de acompanhar e entender Via-Sacra, de Sebastião Milagre, em Divinópolis. E levamos a todos quantos puderem realizar o sonho de Milagre, antes de morrer, ver sua obra como estímulo de fé e meditação para a glória de Deus e da sua Santa Igreja nesses tempos de crise e globalização. Deus não pode ser postergado como um intruso da pós-modernidade, ele nos devolve nossa ação de transformar o mundo e o mercado global segundo seu projeto salvífico de amor e inclusão a todos que são nossos irmãos em Cristo, único Redentor do Gênero Humano. Via-Sacra deve ser entendida no esforço da Igreja de interar na sociedade secularizada, desde João XXIII e os documentos após o Vaticano II e os documentos da Igreja no Brasil e em nossa Diocese.  Esperamos que esse anelo de Milagre se torne realidade e faça bem a todos nós, interiorize-nos em Cristo hoje e sempre!
          É conhecida a bela tradição das nossas quaresmas orientadas pela CNBB e pela criatividade da nossa diocese que vem trabalhando pastoralmente com iniciativas pontuais há muito tempo, adaptando material litúrgico específico. Sugerimos a gentileza de considerar a possibilidade de incluir Via-Sacra nas meditações e práticas de via-sacra sob a égide de Dom Tarcisio Santos.
           Agradecemos o apoio de Vossa Excelência Dom Tarcisio Santos e envidamos a luz dos recursos do Alto para um bispado frutuoso sob o olhar de Maria, Mãe da Igreja, e do Divino Espírito Santo, nosso arquipadroeiro.
       Destacamos na bibliografia as obras de Sebastião com valor religioso.
      Colocamo-nos à disposição para quaisquer esclarecimentos dessa proposta. Obrigado. Pesquisador e acadêmico: José João Bosco Pereira – cel.:88377091.
Agradeço a atenção dispensada quando da visita ao nosso querido bispo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
AMARAL, Aurélio Antunes de. Viagem no tempo: 1725-1975. Contagem: Del Rey, 1998. 290 p.
ANO SACERDOTAL. Vigília. Regional Leste da CNBB.Divinópolis. 19/06/09.
BESSA, P. Pires. Sebastião Bemfica Milagre: O Poeta de Divinópolis. Funedi, 2003. 156 p.
____. .Jornal Literário Agora: textos e Ressonâncias. BH: Imprensa Oficial de MG, 2003, 106 p.
CASTRIOTA. Leonardo Barci e MACHADO, Rafael Palhares. (Orgs.) Saberes Articulados de Aristides Salgado dos Santos. IAB-MG/ IEDS – Belo Horizonte, 2008, 124 p.
CORGOZINHO, Batistina Maria de Sousa. Nas Linhas da Modernidade: continuidade e ruptura. BH: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais. 2003. 366 p.
DIOCESE DE DIVINÓPOLIS: 50 ANOS DE EVANGELIZAÇÃO SOB AS LUZES DO ESPÍRITO SANTO: 1959-2009. – Jubileu em Perguntas e Respostas (Folder org. por Dom José Belvino do Nascimento quando do cinqüentenário da Diocese e da posse de Dom Tarcísico Nascentes Santos).
MILAGRE, Sebastião Bemfica. Via-Sacra, Belo Horizonte, Imprensa oficial, 1960, p. 92.
_________. Gomos da Lua. Belo Horizonte, 1963, 84 p.
_________. A Igreja de João XXIII. Divinópolis, 1986, p. 50.
_________. O Doador de Sangue/Procissão da Soledade. Gráfica Sidil, Divinópolis, 1990. 159 p.
_________. Lixo Atômico. Divinópolis, Sidil, 1987.56 p.
MENEZES, Philadelpho. Modernidade e pós-modernidade: experimentalismo, vanguarda, poesia. São Paulo: PUC-SP, 1991. (Tese de doutorado)
PEREIRA, José João Bosco. Momentos Poéticos. Sefor, 2006. 63 p.
________. Homenagem ao Poeta Sebastião B. Milagre. Jornal Agora. 2004
SILVA, Mercemiro Oliveira. Sebastião Bemfica Milagre: Elogio Acadêmico. Divinópolis, Edições ADL, 1996. 24 p.

_______________________________________

POEMAS SELECIONADOS DA OBRA DE SEBASTIÃO MILAGRE – 16/02/09
José João Bosco Pereira – Poeta e escritor

ADVERTÊNCIA!
O SUPLEMENTO LITERÁRIO DE MINAS GERAIS, números 71 –75, divulga o grupo Divinópolis de poetas de vanguarda, denominada Turma do Agora.

Segundo Domingos Diniz (BH, 14/02/09), durante a ditadura, Milagre não foi panfletário e nem de esquerda abertamente. Sutil e constantemente, abordava temas contra a política dos militares. Ele emprega o termo Escultura da poesia do Tio Milagre! (carta de BH, março de 2009)

Basta ler a sua obra para comprovar tais temas do cotidiano como a inflação, a fome, a violência, a espoliação do ferro de Minas, dentre outos. Inéditos pela imprensa são:
Homemóvel,

O homem é dor,

O verbo não,

Sidil,

Poema do medo,

Foquete (poema processo com desenho)

Custo de vida.

Segundo Sebastião Milagre (Suplemento Literário/ Minas Gerais, in: Bessa, Jornal Agora, 2003, p. 60):

Participante, e a poesia que traz em seu contexto tudo aquilo que se refere ao homem – cotidiano, desde as suas manifestações mais pessoais até as implicações na vida coletiva... Dou valor à persistência, algo novo é recebido com reservas, mas, se é de boa qualidade, aos poucos, será aceito plenamente. Vou submetendo à apreciação dos escritores encarregados de julgar o mérito de minha obra... Se não tiver êxito, eu o edito por minha conta. (1968)

Ainda Bessa (p. 30) sobre o engajamento da turma do Agora diante da ditadura:

Desde o primeiro número, o propósito era emparelhar o nosso Movimento ao nível de toda modernidade não apenas literária, mas também social, econômica e política. Vivíamos no Brasil sob o tacão da ditadura militar e não podíamos abrir o peito e proclamar nossas mensagens aos quatro pontos cardeais. Mas não nos submetemos, não afinamos um dedinho sequer. Ao contrário, todo pesquisador pode confirmar nos 24 números que publicamos, nos quais fizemos o que era possível fazer: uma contestação indireta ao regime de exceção, valendo-nos do talento dos colaboradores e do jornal, que eram, todos, na época, contestadores do regime de exceção.

Ainda afirma (Bessa, p. 64) quem participava da Turma do Agora: o grupo perseverou até hoje no transcendente exercício da arte da literatura. Aí, estão, ainda jovens e atuantes em nossa cidade: o Sebastião Milagre....

Para entender o processo de modernização de Divinópolis, é necessário ler NAS LINHAS DA MODERNIDADE (Batistina Corgozinho, 2003) e SABERES ARTICULADOS (sobre a vida e obra de Aristides Salgados, 2009).

Fernando Teixeira (Bessa, p. 74) ressalva: Sebastião Milagre representa a aprovação dos que já estavam consagrados pela crítica contemporânea. E escreve porque a ausência dos documentos produz o esquecimento de acontecimentos.

José Afrânio Moreira Duarte (Bessa, p. 75) destaca Milagre “renovado e muito mais seguro em sua nova fase.” Ainda afirma que os poetas de BH como Laís Correa, Affonso Ávila, Bueno de Rivera, CDA honram os escritores do Jornal Agora, ”o que prova a boa receptividade que o jornal vem tendo entre os intelectuais.”

Também o Jornal Mercantil de Juiz de Fora (Bessa, p. 78) cita Milagre entre os intelectuais destacados nos modernos processos de invenção literária em 16/3/68.

Osvaldo André (Bessa, p. 73 afirma que a crítica recebe o Movimento Agora e apresenta o roteiro de palestras sobre arte do Polivalente: OS ANOS 60: A JUVENTUDE CUMPRE SEU PAPEL SOCIAL HISTÓRICO NAS TREVAS DA DITADURA.

No Jornal Semana em 07.08/67, Lazaro Barreto cita também Milagre (p. 65): Nós nos reuníamos com uma plêiade de vocação autêntica, da qual certamente sairão verdadeiros escritores: muitos, além de Sebastião Milagre. O que lançam é fruto de uma madurecida incubação, algo que há muito está latente na cidade. E, em 1985, Barreto destaca novamente Milagre em seu artigo OS 15 QUE SÃO 18 (Bessa, p. 79)  – uma explosão de iniciativas da cultura que deu certo, pois não ficam só na literatura, transbordam para os outros festivais e providências culturais.

Em 7 de março de 1968, Sebastião assina com outros a solicitação do Agora para divulgar a literatura da região, sobretudo, abrir caminho para a vanguarda consciente no interior do Estado de Minas. Constatam que o Agora havia lançado artigos do primeiro clamor da juventude inquieta de Divinópolis, embora incompreendida por muitos. A geração Agora lança o alicerce de uma nova perspectiva literária. (p. 67).

Aparece na agenda cultural de 1967 e 1971, Sebastião Milagre (p. 70) participa ativamente do Agora – Diadorim – que circulou entre nov. de 1971 a out. 1973.


A). O MUNDO E O TERCEIRO MUNDO (1981, 33 p.)

A Cidade do Divino era uma porção do mundo para Milagre. Sendo poeta do terceiro mundo, poeta divinopolitano, fez-se poeta do Mundo, poeta universal em sua cidade natal. (comentário de João Bosco sobre a introdução de Domingos Diniz, na época, foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de Divinópolis, atualmente, mora em BH). Diniz afirma que a escultura do poema de Milagre é significativa ainda hoje.

Temáticas: revolução tecnológica da era informação, descrição de problemas urbanos decorrentes da modernização e industrialização de Divinópolis: poluição de todo tipo, critica à presa, à velocidade, ao barulho dos motores, o marca-passo, comunicação, filhas para tudo, tudo em excesso, Guinesses Book (recorde de Cristhin Barnard, que transpôs o Cabo), racismos, guerra-fria, muro de Berlin, a industria do sexo (motel), ilusão da independência,l robótica, ONU/ UNESCO/OEA,  questões do 3º mundo (bunda/bundo do mundo): inflação, dívida externa, pobreza, latifúndio, doenças, fome – discussão sutil contra a Ditadura.

O livro é dividido em 3 partes: O MUNDO DE HOJE: mundo do som, da poluição sonora, mundo da pressa, da burocracia, do supermercado, da violência, da impaciência, da Berlin, das guerras e bombas, da Guerra Fria, independência da África, da Robótica,, do erotismo, da falta de utopias (p. 22).
O TERCEIRO MUNDO: desigualdade, inflação, analfabetismo, êxodo rural, fome, dívida externa, favelas, ágio do petróleo, latifúndios, bunda do mundo (p. 28).
QUARTO MUNDO: a comunidade imaginada pelo poeta como o paraíso, terra sem males (p. 33).

B). 3 EM 1 (1985, 6 p.)
Milagre cita as academias de Divinópolis e Ipatinga. O titulo de O TEMA DAS RIMAS POBRES, em estilo panfletário, começa com trovinhas até serem desconstruidas e tomarem fôlego político de discurso nacionalista, antes das Diretas Já (1984), tem como epígrafe uma citação de Nélida Piñon, que evidencia o engajamento milagreano. O tema é a inflação e suas implicações na economia de Minas Gerais. Isso é produto da guerra-fria e a política econômica mundial. Milagre insinua que a crise tem origem na exploração lusitana dos metais de Minas no passado e é hoje nossa condição de superação diante da ambição de industriais. Há um texto de 68, em plena ditadura, que questiona a ambição da exploração do ferro enquanto Minas tem que resolver sua Divida e superar a inflação, decorrente do modelo desenvolvimentista adotado pelos militares.

C). O VIADUTO DAS ALMAS (1986)
Esta obra é fundamental para entender a obra milagreana porque há uma introdução organizada pelo próprio escritor denominada ESCRITORES ESCREVERAM SOBRE O QUE O AUTOR ESCREVEU ATÉ HOJE. Dentre esses escritores, cita Nélida Piñon, Fábio Lucas, Lais Correa de Araújo, o historiador Waldemar de Almeida Barbosa e outros de Divinópolis como Lázaro Barreto – fundador do Movimento Agora, com participação de novos jovens vanguardista no final da década de 60 – inclusive da ADL – Academia Divinopolitana de Letras como o filósofo Dr. José Raimundo Bechelaine, o primeiro presidente da ADL Gentil Ursino Vale (falecido), dentre outros.

Poemas: O VIADUTO DAS ALMAS (p. 17)

 
Existe, e ainda existe
O viaduto das Almas
Na BR Beagá-Rio.

Inter/transita montanhas
Numa curva dis/forçada. (disfarçada)

Quem é que criou seu nome?
Foi um místico ou poeta?

Arte aplicada, arte pura
Arquitet/engenharia.

Mais contundente não era
Se fosse Ponte das Almas?

Abismos em baixo e em cima
Quem rola para o de baixo
Se evola para o de cima
Pois, quer na ida ou na volta
Pode o/correr acidente.

Basta ao chofer em
                                vol
                                   ver-se
no declive da beleza.

E qume , supersti(cioso)
Mudou (mas não muda nunca)
O nome espiritualista?
Não mais Viaduto das Almas
Mas Viaduto Vila Rica.

Pois irá, tempos afora
Aos vindouros oralmente
Para que o temem e fixem
Na sua grandiosidade
O Viaduto das Almas.
 
ELOGIO DA NOITE
(p. 46. O poeta declara que seu pessimismo se estanca na mão de sua mulher Cacau, quando chega a noite.)
ALMOÇO A BRASILEIRA (p. 24)
Parece que este poema nos reporta ao seriado da Grande Família, da Globo (2008)

 
No almoço
Da família classe média
O frango
É festa.
Durante toda a semana:
Feijão com arroz e batata
Ou couve
Da horta
É um pedacinho de... carne;

De vez em quando, varia
No trivial brasileiro:
Cenoura banana leite.

Tudo feito com tempero
Arte e carinho da esposa
Na contenção de mais gastos.

Mas, no almoço domingueiro
Regalo
De frango:
Mulher, marido e dois filhos
Família tamanho médio.

Depois do almoço que é festa,
A sesta.
Um passeio, algumas vezes,
E os infalíveis programas
De televisão e rádio.

De tarde,
Ainda persiste o gozo
O gosto
Do amável peito do frango;
Delícia de pé de frango
Asa moela e pescoço.
São sempre da esposa as coxas
Do frango;
São sempre do esposo as coxas
Da esposa.
o amor na família média
é grande,
é grande a família média!

Família média
Da classe média
Muito alavanca e suporta
Da família
Povo
E pátria.

Família média
Da classe média.


(ENTRE PARENTES) (p. 25)
Vejo afim
o nordeste
seca (vebo)
seca (substantivo)
De Berlim
Leste/oeste
Cerca (verbo)
Cerca  (substantivo)
1980.

FUT/ESPORTE
Irei a Belo Horizonte,
Os mineiros vão jogar
Os “meninos” vão jogar.

Mas Deus ajude que eu ganhe
Volte são a festejar

CR$ 100.000

Em 1985
Nota de cem mil cruzeiros
Já nas mãos dos brasileiros.

Notas de 50, 10, 5
(a inflação age com afinco)    - aqui ele ironiza a censura
e a ditadura e o modelo de política
Comprei com esta nota
Que nasce já em declínio:
Hoje, - dez quilos de banha,
Talvez, amanhã, só nove;
Num ano, quiçá, nem isso.

- Não chore, povo mineiro,
- Espere pela bonança
-
SIDERO/TECNIA (p.31-2)

 
Pó da siderurgia:
Pó nosso de cada dia.
Diariamente, um pó pesado
Meio marron, de fuligem,
Suja tudo, mancha tudo
(lembra ao Homem sua origem)

A nossa siderurgia
É fonte de economia
Dá progresso, dá riqueza
Para o seu proprietário;
Dá emprego ao operário
Desde a faina do forno.

Divinópolis é terra
De muita siderurgia,
Divino pó, alimento
Mas poluidor elemento.

Com este pó, o que faço?

Nele me sujo e enfumaço
E elejo-o via-alimento?

Alijo-o como excremento
De um tempo vil
Onde o homem
É ser vil
Servil?
1985
 

SOZINHO NA MULTIDÃO (p. 33)

 
Nestes 13 mil de habitantes
Que é São Paulo
Estou só,

A fria multidão desconhece;
Cega resfolga
Tromba
Atropelai
Empurra
Burra!
Furta.
Leva-
- traz
- (é difícil
- entre edifícios)

Se uma sincope sofres: que morras!
Ninguém te olha, te ama/
ninguém socorre;
Muliada multidão que só corre:
Corre só.


Ah! “Paulicea Desvairada”!
Lugar para o homem de aço
Que não para
negocia
compra-vende. Estou só,
sempre só, nunca tão só!
19/11/85
 
ESTA CASA

Se esta casa fosse minha
Se esta casa fosse tua...
Mas, como tudo na vida,
Esta casa não é minha. Jan. ;1983.

TENTATIVA

Poe o sapato novamente
E sai para a esquina da rua.

Talvez encontres, agora,
Quem te mande lançar as redes outra vez
Embora insistas que a jornada foi longa
E improfíqua.

Poe o sapato e sai.

O pior que pode acontecer
É o que já aconteceu.

Mas, não voltes muitas vezes
Porque há um limite
Para o homem derrotado. 1964.




A VIDA (Cita Augusto dos Anjos -  vida como mapa-múndi, não há paises... p. 38)

Tive medo de chamar o mundo
Para jantar comigo.

Tive pena dos outros
Tive raiva dos outros.

Estou velho aos quarenta,
A vida parece mesmo
Com o retrato escalavrado
De Augusto dos Anjos.
 
DESLOCAMENTO
 (Tristeza triste ir de Fordinho a BH como o poeta de bigode – imagem dos poetas passadistas como Rui Barbosa e Olavo Bilac)

Poeta de fordinho
Usa gravata
E “bigode”
Mesmo quando o peta
Na mais louca pirueta,
Vai a Capital;
Anda 200 quilômetros
A bateria carrega
Mas, queima o induzido.

Tristeza triste.

Poemas para filhos e as duas esposas (Lilia e Maria do Carmo ou Cacau)

O HOMEM AGIOSO (1986)

DES/ESPERAS
 
Auto-progrsso
Justiça
Paz

Quando?
Quá
Quá

Quem espera
Dês esperas
Desespera

Esperança
Esper/ânsia

Eperança
Esferânsia
Esperança
Esfregância

Esperança
Excitância
Esperança
Esponjância

Esperana
Estorvância
Esperança
Espojansia

Esperança
Esporrância
Esperança
Expirância
1970
 
RETORNO
(p. 80 - Critica à cidade que cresceu e a violência também. 1983)
 
pelas ruas vou ando/ando
há gente de toda espécie

pelas ruas vão busca/ando
fama poder e fortuna
mil neg/ócios e interesses

(...) pelas ruas trânsito/ando
os carros super-marcados
de tudo há super-mercados
sob o som de FM-Estéreo;
mas há preços que só sobem
(há um dinheiro que soçobra
e querer não é poder-se)

sempre que volto da rua
me/hor acho a minha casa

 

ALCOOL
(O desenho de uma garrafa – poema processo cujo objeto se confunde com o objetivo: estrago, trago, auto/alto – para traduzir o barulho de quem consumo álcool. A simulação do ato de beber presente na figura leva a efeito o concretismo como vanguarda na p. 81).
Auto estragado/ alto estragada/ trago/traga/ álcool.

CARTÃO DE IDENTIDADE
(P. 82 – o tema da violência no trânsito, decorre de sua argumentação: “quanto maior a cidade/ mais te ignora a humanidade... Pode um carro atropelar-te/ e entre os loucros transeuntes / haverá quem te conheça? – o distanciamento ou desconhecimento entre os cidadãos nas ruas violentas é tema recorrente em Milagre.)

DESCARTÁVEL
(P. 85, A  ambigüidade está no conforto das fraldas descartáveis mas tem a exclusão como conseqüência nefasta seu modo de ter no viver capitalista.)
 
o tempo é de identidade
atmos/feras de perigo
é o mundo de hoje ameaça.
A morte está na es/quinas;
Pode um carro atropelar-te
E entre os loucos transeuntes
Haverá quem te conheça?

Quanto maior a cidade
Mais te ignora a humanidade.
Por isso, no magro bolso,
Sempre esteja a identidade.

O MEU DIA DE HOJE
(p. 88, o meu dia de hoje nunca é hoje – o cidadão protela tudo e isso gera um circulo de conflitos que retroalimentam uma crença no povir como fuga do presente sem sentido – Estou Cansado de amanhã, o amanhã me cansa a alma/ me cansa o corpo.Amanhã serei poeta. O dia de são Nunca – tudo é amanhã...)

O HOMEM AGIOSO
(p. 72, ágil é ambigüidade – habilidade ou agiotagem/usura – o  poeta denuncia o descarte do humano em função de uma sociedade capitalista;  a esperteza do agiota se contrasta com a opacidade do viver – seremos esquecidos com o tempo inexoravelmente.). Diante do milagre econômico (dez. 1975), no poema A vida e a morte, o poeta vê que a morte é um todo dia /cobra imposto (p. 64)

 
O homem me quer (é vivo)
Só em/quanto lhe sirvo.

(o homem que eu falo é o HOMEM,
em tese, macho e fêmea)

beija ele a minha boca
se iro à minha boca
com que mais lhe encho a bolsa;

a minha mão aperta
se a minha mão, aberta,
aumenta a sua seiva;

a minha alma elogia
se na minha alma aprende
experiência e caminhos;
meu sangue é azul e nobre
se dou-lhe até o sangue
em transfusão de lucro.

Quando, porém, adoeço,
Já lhe causo tropeço.

As/sim vivo mas morto
Não posso mais servir-lhe
A alma
O sangue
A vida;

Urge substituir-me
Por mão ainda firma.

De mim não se aproxima;
Será que o mal que sofro
Infesta e/ou contamina?

E finda aminha pugna
Olhar-me já repugna.

E logo sepultado
Serei ao olvi/dado.
Nov. 1981.

 
O VÍNCULO
(p. 71 – seja o outro escrivão de província – que é o poeta Milagre – escrivão de polícia Civil por 31 anos)


DES/ILUSSÕES (p. 91)


REDE MINEIRA DE VIAÇÃO



CONGONHAS



VOU-ME EMBORA
( A critica de Milagre a política sem resultados o faz apelar com a paródia e adotar a seriedade da política de Itaúna para irritar os seus divinopolitanos.)

PIRAPORA –
(literatura vanguarda, p. 23 – Milagre participou por 3 vezes com bom resultado de concursos de poesia em Pirapora, incentivado por Domingos Diniz, de Pirapora.)

O HOMEM E SUA NÃO-VEZ
(p. 57, Lembro-me de Silviano Santiago quando fala de O entre-lugar da literatura Latinoamericana). Este poema pode ser clareado com a leitura do outro poema: O NINGUÉM (p. 60)

Quiromania para Domingos Diniz e Adélia Prado



A vez do Câncer (sobre o AVC de Lilia, p. 61)


A TODA DIFERENÇA
 (o poeta receia os homens de dinheiro e os irracionais comerciantes).



O HOMEM VENDIVEL



A FIGURA DA VIDA (Os excluídos da sorte e negaças do dia)



O MARCO INÚTIL (O muro de Berlin)



RE/LANCE DE NATAL (P. 70 , Eu que sou dono de nada, a noite é muito triste, nada aumenta a minha glória, porque nunca tive glória. Dez. 1982)

CABISBAIXO E CAUS
 ( a melancolia e solidão do poeta traduz sua desarticulação com os esquemas do mundo e da cidade – é sua defesa contra a dura realidade construída pelos contemporâneos – o caos do qual o poeta quer fugir sem poder, pois terá que se consumir-se até as últimas conseqüências. )
O MEU CICLO DE BARRO e NÃO SOU
 ( O neogotico evidencia o locus huorendus do poeta)


SOBRE/SOLO





D). O DOADOR DE SANGUE (1990)
Nesta última obra, Milagre se revela irreverente, melancolico, desconsertante à medida que assume um pessimismo existencial frente a pós-modernidade, retoma a modernização para fazer uma crítica mais madura de si e de sua cidade. O poema LAMENTO (p 121 ) está nessa inferência. O poeta constata uma ingerência em sua vida e cidade, por isso franzo o rosto/ a tudo quanto/ de espanto nos foi imposto. Assim, a passarela/ em que nos vamos,/ ora tem iluminuras; / mas, às vezes, é aquela/ tangida/ em horas duras. (p. 123). Como ponto de partida de sua crise existencial, pela qual faz a leitura de sua cidade, a morte da esposa Lilia (1970) provoca uma violenta crise de sentido. Nesse contexto, participando da agenda cultural da cidade e dos Movimentos Literários Agora e A Semana, pode aderir ao neoconcretismo e o modernismo tardiamente em Divinópolis. Ele está munido pelas leituras aos clássicos, modernistas, além de suas viagens a BH, São Paulo e Rio de Janeiro. Ele corresponde com escritores mineiros, brasileiros e até do exterior. O movimento agora o colocou em contato rico com grandes nomes, paises e cidades como: Estados Unidos, Inglaterra, França, Chile, Bruxelas, Caracas, Portugal, Uruguai, Argentina, Bahia, Belo Horizonte, Guaxupé, Cataguazes, Juiz de Fora, Patos de Minas, concursos de poemas em Pirapora, Oliveira, Itapecerica, Itabira, Itaúna. Inclusive é citado como um dos moços do Movimento Agora no Suplemento Literário de Minas Gerais. Gritos foi considerado o melhor da critica nacional e estrangeira.
Tem ficar claro para nós, quem é Milagre e o que quer com sua poética. Ele imita Manuel Bandeira, assume estilo de Carlos Drummond e apropria criativamente o concretismo em suas diferentes versões.  Ele se identifica como poeta de vanguarda no poema INEDITO (p. 89)., policial escrivão, moreno corpo “in natura” (p. 105, no poema Dona de Casa) , tendo a poesia como companheira de toda vida na p. 133, ele se posiciona juntamente com outros artistas como Geraldo Teles de Oliveira - GTO, Antônio Bax (poema Nas águas de Bax, p. 43, Escafandrista, p. 46) e outros tantos escritores como Adélia Prado, a quem dedica o poema DIVINOPOLITANA, p. 57. É também compositor de músicas ao violão, gosta de serestas, convida amigos para audição em sua casa no Alto do Sidil onde construiu uma casa grande e moderna, pela qual observa o crescimento da cidade.Ele compôs e gravou em fita: Três Suites Divinopolitanas para o violão.
Outro aspecto, é a declaração do próprio poeta: desejo ser teu poeta de vanguarda (não vão-guarda na p. 89. Ainda diz: estou sempre em desencontro com o mundo” (p. 158) e “e o mundo imundo” (p. 156).
Para a critica a Cultura, podemos citar O MEU SOBRADO (demolido da noite par ao dia, p. 49, onde nasceu Milagre e onde se deu a primeira reunião da primeira Câmara de Vereadores em 1º de junho de 1912), A NOITE DA POESIA (P. 56, Milagre foi o fundador desta noite da Poesia, agora com 21 anos), Hino do Guarani Esporte Clube (p. 58)

Milagre casa-se 6 anos depois, e oferece este livro a Cacau: “Fiquei seis anos viúvo/ o meu viver era turvo.” P. 99). Embora incentive a doação de sangue como ato cristão e cidadão, reconhece que os homens são “arquitetos da discórdia”, p. 136, e o poeta é um desigual e solitário vencedor sem vitórias, uma pedra no ermo. A desventura do poeta – eu sozinho (p. 143) - está na sua constatação de seu destino abjeto – p. 139, em que cada um seguindo/ o seu destino/ irreversível no mundo como estranho labirinto ( 140) ou o mundo de abrolhos  - p. 158 -ou corais espinhentos. Aí o poeta se sente como mal-estar infindo por entre apodos (p. 119)

DISCURSO A DIVINOPOLIS
(P. 74, Milagre descreve o crescimento da cidade com altos prédios, bonita, perto de BH, cheia de industria e comércio. A propósito, o livro sobre a arquitetura do ex-prefeito Aristides Salgado em Saberes Articulados (2009) evidencia a apropriação e aplicação da nova arquitetura francesa para a modificação do cenário paisagístico arquitetônico de Divinópolis nos anos 60 e 70, a que se refere o poema de Milagre.)

SIDILIRISMO
(p. 81, inaugura uma parte com a citação de Mateus 19,8, como proposta de resposta irônica de Milagre frente ao conservadorismo divinopolitano. O termo neologistico acima reflete a necessidade de renovação de mentalidade que impregna a modernização de Divinópolis a partir de 1970 com a administração de Aristides Salgado, tendo como um dos antecedentes o prefeito Walcir, que recuperou a depressão do Sidil, hoje fazendo parte do centro da cidade.). Nesse local, bem no alto, Milagre fez sua moderna casa – retratada no poema O ACHADO PARAISO (p. 83).

O poeta participou do movimento Hippies – no poema CEM CENTIMETROS (p. 88) descreve o costume rebelde de deixar o cabelo crescer.
SÉXI
(p.. 20, em 1988, Milagre já fala de mudanças do comportamento sexual e aids. )

SECULOS DE ASSALTOS

O DINHEIRO
(p. 27, tem estilo.drummondiano)


QUEBRA-MOLAS

O MURO DE BERLIM
( p. 33, em 1989, o muro foi demolido)

DO NASCE-VIVE: DESTINO
 (p. 35, esse poema tem formato nitidamente concretista em forma de esquema binário)

A INEVITÁVEL SEPARAÇÃO
(P. 36, Milagre reflete sobre o racismo e a pobreza a que são impostos os povos americanos e africanos.)

AS MINHAS MARIAS
 (p. 101, de novo, parodia Manuel Bandeira)
A CURTEZA DA VIDA (p.102, assume o Carpe dien – neobarroco)




PROCISSÃO DA SOLEDADE (1990)

Nessa obra, Milagre vale-se da citação de Antero de Quental – reforçando seu sofrimento pela perda de Lilia e seu mal-estar frente à contradição da modernidade. Sigo na procissão da soledade, na minha procissão de soledade. (p. 129). Ele adota a poesia como única companheira da vida (p. 132). Ele faz questionamentos sobre sua passagem nesta cidade: “ficará minha sombra, / após a morte, / nalguma poesia,/ pouco mais do que um dia.../ se tanto.../ Depois, mais nada...” (p. 134). Será que houve um tempo/ em que vivi com gente igual a mim? Se não houve, meu Deus! , me transforme / numa pedra qualquer perdida nos ermos...  (em O VENCEDOR SEM VITÓRIA, (p. 136).
Nesse contexto de perdas e crises, o poeta se consola: “Apenas está comigo/ a confidente infalível, / que não me falta um só dia:/  - a Poesia. / Mas, a Poesia é tão triste,/ que, neste enorme vazio, estou sozinho, sozinho;/ ah! Como sempre, eu sozinho! ( p. 143, 14/04/90). Ah se eu pudesse / voltar o tempo,/ e eu mesmo / não ter nascido... (p. 148, abril/ 1990). Em DESEJO VÃO, Milagre finaliza: Bem quisera/ não ter mais de inteirar-me/ dos lances da justiça e da injustiça;/ de uma vez, separar-me / do homem-fera/ carregado de dolo e de malícia.../ Quem dera só na música pairar-me!/ Só na poesia quem me dera alar-me!/ À quietude da prece consagrar-me... (p. 155). Milagre deseja chegar a eternidade para encontrar com o Supremo Oaristo. Esse termo se refere ao infinitivo de verbos no sânscrito e no grego, em que não se contextualiza aspectos verbais de duração como em Tornou-se poeta. (Aurélio, Dicionário de língua portuguesa, 1999.Nova fronteira: Rio de Janeiro, p. 158).    .

PÓS/OUTONO

(Milagre, Procissão da Soledade, abril/1990p. 153)

99%
das folhas
estão
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Ó! Que dolorosa queda!

Não mais o outono/bom sono
Da vida;
O inverno já... não sub/ida...

Motivação acabou-se
Ainda que, noutros tempos,
 Em nada me fosse doce...

Dos homens foi-se a confiança
De tanto os ver enganando
- procdimento nefando.

Apensar de ter saúde,
Sinto-me a vida muito rude.

Assim me aguardo morrendo,
Me aguardo ressuscitando.

Aguardo estar me acabando,
Sinto estar me extinguindo,
Exaurindo,
Até não estar mais nada
Sentindo;
Eu-findo.

Porém me agurdo
Sentir-me ressuscitando
Para o que não sei ainda:
Mas, na fé que tenho em Cristo
,
- para o supremo oaristo
- na suma feliz/cidade
- da Eternidade
- que Deus nos há prometaido
- través do Filho Querido!...

GOMOS DA LUA (BH, 1963)
Este livro em parceria com seu filho Antônio Weber (prof. de inglês no RJ) é um dos mais bonitos livros. Sou apaixonado pelas poesias dele. Agora, penso que a primeira parte mostra bem uma época pós-guerra-fria cuja preocupação era o medo de uma guerra química capaz de destruir toda a Terra. Em termos gerais, os artigos de Weber, filho de Milagre, vão ilustrar os avanços e limites da ciência do progresso e a arte militar ou o uso da irradiação para fins pacíficos. O último artigo Cooperação humana (p. 42) nos abre a reflexão poética milagreana. Nesse sentido, o livro mantém sua unidade temática entre prosa e poética.

Final (p. 81)

Versões (Da Imitação de Cristo, p. 77)

Testamento (p. 78)

O Poeta do século XX (p. 76)

A poesia Nova (p. 72)

Dignidade (p. 6&) – questão da fome

A verdadeira esmola (p. 72)

Os chapas (1)  (p. 70) – sobre os lavradores

Gomos da Lua (p.47)

Divinópolis (p. 69)

Noturno (50)

Cosmopolita (p. 52)

História de minha mãe (53)

GRITOS – 1972

Livro vanguardista de reconhecido valor pela crítica mineira é objeto de nossa crítica à cultura, quando, a partir da pág. 71, MEU GRATO, evocam-se os vários atores da cidade (ver p. 71 a 76)

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Mestrado de Letras, UFSJ, 2009 –1994 – MAL DO ARQUIVO – J. DERRIDA.
O que é afinal o Mal do Arquivo? Para responder tal questão, Derrida percorre:
1. A impressão freudiana como ciência judaica (para Anna Freud) nos meandros da psicanálise em Totem e Tabu (o parricídio ancestral), considerando as indagações de Yushalmi – Moisés de Freud e Monologo de Freud: judaísmo (in)terminável (diferenciando-o de judeidade); Freud não formulou conceito de arquivo, contudo apresentou conceitos similares e estratégicos como lembrar a tradição (o index da memória locada em textos e discursos ou coisas do passado ou ler as escavações geológicas e arqueológicas da lembrança viva, memória e recordação)
a). Mal do arquivo como pulsão de morte (Thanatos) como esquecimento (amnésia, recalque ou repressão) ou pagamento (perversão ou diabólico mal-estar) radical do arquivo. Um vírus silencioso intra-psiquico e inerente à ação corrosiva do tempo.
b). Atratividade/Pathos= arder-se de paixão por, não ter sossego, desejo compulsivo, repetitivo, nostálgico, irreprimível, uma saudade de... Colocar no prelo (arquivar) ou investimento e auto-alimentação (investimento-Eros ou pulsão anárquica/retórica): Não há arquivo sem locação, tipografia-publicização, consignação... (p.22), daí as técnicas de memorização como o bloco mágico (similar ao cérebro. p. 25) e arquivística (saberes como rastros do passado ou do futuro: p. 48). Lamarck e Darwin no complexo de traços hereditários na língua, na cultura e nos genes.
2. O arquivo do arquipatriarca: o pai de Freud presenteia Freud uma Bíblia com dedicatória/exergo e pele nova: dos ensinos da Torah, Midrash, Talmude - o arquivo não se fecha em si! Derrida elabora o conceito de circuncisão–tipografia (impressão no corpo masculino como substituto simbólico da castração do filho pelo pai: p. 104)
3. As três portas do futuro (W. Benjamin em Teses para a filosofia da História) como promessa/penhor de pro-por-vir (exp. irredutível - p. 31 e 66 - messianidade);
4. Conceitos de economia arquival em Derrida: Arkhê=  arquivo como lugar físico (arkehion=casa, museu, biblioteca), comando ou autoridade dos arquivos (arcantes ou magistrados ou guardiões de doc. oficiais). Ark (inglês= arca - arkhê, archium, archive como depósito/vestígios ou suporte da lei e força de Hermes como instancia discursiva: instituidor/conservador ou tradicional/revolucionário.
J B Pereira
Enviado por J B Pereira em 07/12/2014
Reeditado em 07/12/2014
Código do texto: T5061558
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Sobre o autor
J B Pereira
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