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O Ramalhete Espiritual

Diz lá, rapaz, já preencheste o teu formulário para compor o Ramalhete Espiritual de novembro? O meu, de dezembro, há de ser o melhor de minha série neste ano. A simples sobrevivência em meio ao burburinho e principalmente ao tumulto, dizem muito da graça divina, sempre com a infalível intercessão da Virgem.

Puxando pela memória, tento comparar um dos formulários antigos, de coisa de quase 60 anos, com os atuais. A coisa evoluiu muito, e ficou mais sistematizada, além de ser bem superior o papel a ser preenchido. E acho que, mesmo com o risco de erros e borrões, pode-se usar caneta para o preenchimento, ao contrário do que a gente fazia antigoutrora, com a pontinha do lápis já pra fora.

Há alguns quesitos que parecem ter uma limitação quase física, como é o caso das comunhões e missas assistidas, ao longo de um único mês.
Mas já há interpretações alvissareiras, até da parte dos que frequentam os cultos religiosos com mais assiduidade. Vejamos o caso da comunhão: era entendimento tácito de que era só - e até - uma vez ao dia. Hoje já parece haver mais flexibilização  nesse domínio, que é do Altíssimo. Afinal se você pode assistir a mais de uma missa por dia, por quê não se estender à comunhão essa graça, essa liturgia? A máxima latina bem que poderia ser aí colocada em benefício do saber e da segurança espirituais: Quod abundat no nocet, ou seja aquilo que abunda, não prejudica.

Não sei contudo se a aplicação dessa interpretação nova nos facilita a vida ou a torna mais complexa. Uma confissão por exemplo, mais amiúde pode cair na frivolidade insubstantiva, a menos que se trate de um pecador contumaz, daqueles com parte até com o Sacanaz...

E o caso das jaculatórias, que eram tão frequentes na boca da gente e que de repente, somem dos boletins atuais? Talvez tenha sido um recuo mais determinado pelo pudor, pois, afinal, jaculatória, que já não é uma palavra  que caiba em qualquer boca, ela ainda dá a margem à pronta associação com ejaculatória, muito de uso da meninada, porém, para Sancta Ecclesia mantida, senão a sottovoce, totalmente censurada. E justa ou injustamente para se evitarem os questionamentos cada vez mais frequentes e incisivos da gendarmerie da moralidade, do politicamente correto.

Inda há poucas semanas a nudez humana num museu, quanto bafafá não deu. Fico a imaginar se ao invés do marmanjo que lá se estirou por horas a fio não tivesse em seu lugar uma contraparte fêmea, com todos os seus encantos à flor da pele, qual não teria sido a reação dos censores? Mais estridente ainda por sinalizar a exploração da mulher?

Voltemos, no entanto a Ramalhete, que hoje permite contabilizar visitas ao Santíssimo, momentos de contemplação, exame de consciência e, infalivelmente, o terço, que parece, de longe o que permite maior volume de enchimento, principalmente se for daquele dito bizantino, ensinado pelo Padre Rossi em que cada emissão da palavra Jesus, tão-somente, já corresponde a uma conta vencida...?

Não consegui lobrigar no boletim atual o espaço para a manifestação de  um desejo, um pedido de graça. De meu tempo no dobrar da década de cinquenta para a de sessenta, quanta trepidação não nos pervadia, ao vermos, ainda impúberes, nas imediações da matriz, senhoras já idosas, aproximando-se dos balcões dos estabelecimentos comerciais, como da Padaria Boa Sorte, do Perdigão, e humildemente pedirem ao cunhado e balconista de bela grafia Raimundo, e de muitas outras prendas domésticas, que lhes preenchesse  esse quesito final, escrevendo bem espevitado, ..."Uma boa hora de morte.."

Do baixo de meus onze ou doze anos eu achava aquilo tão mórbido, e pouco criativo. Achava então que um passeio à Lua me bastasse. Ida e volta, completaria...
Paulo Miranda
Enviado por Paulo Miranda em 14/12/2017
Código do texto: T6198955
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Sobre o autor
Paulo Miranda
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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