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Trecho de O HOMEM SEM DESEJOS

Na hora combinada, apareci no bar para me encontrar com Barbra. O bar ficava na Vila Madalena, mais precisamente na rua Fidalga. Sob um toldo que se estendia por toda a frente do bar, havia mesas e cadeiras de madeira esparramadas, inundadas pelo sol que se desvencilhava das muitas nuvens. Eu refletia sobre aquele calor que fazia, e ele me significava coisa alguma, a não ser uma bela tarde. Já me representara clareza e bem-estar, tal como sol e frio, e, semanas atrás, simbolizariam um conflito entre lucidez e angústia para mim. Procurei por ela com os olhos no bocado de pessoas sentadas, casais rindo, amigos conversando e, como se via na maioria delas, jovens solitários ensimesmados em seus celulares. Em uma mesa distante, fazendo uma linha diagonal em relação a mim, avistei-a.
Acenei, ela não me viu. De novo? Estava acontecendo de novo? Fui caminhando para ela. Havia algo muito errado. Primeiro, eu perdera parte – boa parte – de minhas lembranças; depois, em poucas semanas, fui dando conta de que perdia minha afetividade, o desejo por mim mesmo e pelas pessoas, o vulgo tesão pela vida. E percebia que me achavam um tanto frio, duro, não reclamavam disso porque não conheceram o Yves antigo, mas não sabia o motivo de me tornar aquela pessoa, sabia que existia um Yves antes. Pelas recordações que me restavam, eu tinha alguma consciência dele, porém não sabia precisar quando acontecera a mudança. Outras mudanças em minha vida ocorreram devido a um trauma ou a uma felicidade imperdoável e inesperadamente necessária. Agora, para complicar, parecia que as pessoas estavam se esquecendo de mim, numa amnésia coletiva, ou eu perdera a noção de espaço, das faces, de onde realmente estava. Um jovem Mr. Magoo.
Naquele momento, refleti se não seria por causa de uma miopia que eu vinha achando que fulano era sicrano, mas eu enxergava os mínimos detalhes de tudo. Se bem que não mais aqueles implicitamente abstratos. Talvez houvesse mesmo uma perda da visão, decorrente do afeto perdido, que refletisse tanto em meu ver quanto em meu olhar. Quanto mais me aproximava, mais me certificava de ser Barbra. O estilo de vestir e sua compleição física: calça jeans, camiseta sem estampa, os cabelos naturalmente encaracolados nas pontas, sem brincos, sem maquiagem, apenas um batom na pele muito branca, o corpo mediano e proporcional, a sandália de couro estilo hippie, porém o olhar triste e sem direção, como o via antes, agora ganhara uma conotação apenas despretensiosa. Fui cumprimentar Barbra, mas ela me olhou assustada, desentendida, e começou a se afastar, protestando:
— Desculpa, mas...
— Que foi?
— Quem é você?
— Sou eu, Barbra, o Yves. Combinamos aqui.
— Barbra? — ela riu nervosa e recuou mais um pouco. — Sou a... a Manuela.
— Manuela? — exclamei.
Sabia que ela mentia. Não era Barbra, não era Manuela, pois hesitou em falar o próprio nome por medo de revelar quem realmente era, mas eu estava olhando para Barbra, falando com ela, ouvindo-a.
— É, Manuela, cara — foi um pouco ríspida.
— Desculpa, é que você é a cara de uma amiga — sem me constranger, fui me afastando e saindo.
— Desculpe, Manuela. — ... — ela tentou dizer algo, mas as palavras morreram em sua boca. Ficou me olhando enquanto lenta e confusamente se sentava outra vez. O que havia de errado? Era o terceiro inequívoco desencontro em menos de umas vinte horas.
Pensei em ligar imediatamente para Barbra, mas decidi esperar. Não esperei e liguei para o seu número. Foi como de uma outra vez. O número era o dela, mas quem atendeu não foi ela.
Agora era uma velha:
— Quem é, é o Donato? — uma voz senil e solitária, que ganhara expectativa.
— Foi engano, dona.
Depois, foi um rapaz: — Frances, quem gostaria?
Desliguei e liguei. Deu ocupado. Esperei. Estava ficando nublado o céu, mas eu não sabia disso olhando para cima, encontrando algum pedaço dele em meio aos prédios, aprendi a senti-lo apenas olhando para o aspecto turvo do asfalto, para as lojas fechadas, tristes e mortas, as poucas pessoas mornas nos veículos e nas ruas, apesar dos sorrisos, apesar das brigas, sim! Anteriormente, aquilo fora um cenário angustiante para mim. O que acontecera que eu perdera dor e prazer? Presentemente, essa era uma de minhas poucas certezas: eu não percebia mais o sentir, mesmo se aquilo que um dia me fora relevante pudesse ser novamente experienciado. Estranho era que um domingo lutuoso como aquele me era familiar, fora reconfortante. Eu sabia sobre minha dor plena. Sabia, eu a conhecia desde cedo e dera mais conta dela do que da felicidade pouca que tive. Felicidade que eu, voraz e inutilmente, ensaiara conquistar palmo a palmo, mas, naquele momento, sequer a necessidade de saber o que acontecera comigo me causava algum sentimento bom ou ruim. Essa parte de mim estava se desbotando.
Entrei num outro bar e pedi uma cerveja. Pedi por engano, pois – agora – o álcool me dava enjoo antes de me dar aquela sensação leve de estupor. Ali, ao menos, eu não conhecia ninguém, ninguém me conhecia. Não havia risco de me enganar quanto a fulano ou sicrano, de terem se esquecido de mim. Meu celular tocou ainda na primeira golada. Era Barbra.
— Onde cê tá, Yves? Tô te esperando.
Onde ela estava? Boa pergunta.
— Já estou chegando.
Voltei ao bar. A Manuela não estava lá, mas também não estava a Barbra. A mesa estava desocupada. Conferi o nome do bar. Olhei ao redor. Esperei por Barbra, de pé mesmo. Ela me ligou de novo. O bar não era o mesmo bar. Aliás, parecia que tudo era o mesmo lugar, todos eram as mesmas pessoas.
— Oi, Barbra. Não vou conseguir chegar. Por quê? Porque o Thompson, um amigo meu, apareceu. Não sei como me encontrou, mas tá lá na porta de casa. Não, não precisa me levar, é perto. Beijos, desculpe.
André Claro
Enviado por André Claro em 01/10/2017
Código do texto: T6130023
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Sobre o autor
André Claro
Três Corações - Minas Gerais - Brasil, 40 anos
47 textos (489 leituras)
2 e-livros (30 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 12/12/17 23:40)
André Claro