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Fortuna

Eu sou um papagaio lindo, verdinho, e muito inteligente, modéstia à parte! Eu nasci no verão de 2004, mas precisamente no Norte do Brasil, num planeta chamado Terra, um planeta lindo, cheio de florestas, rios, cachoeiras, montanhas, mares e oceanos! Ah, e cheio de outras formas de vida também! Cada uma mais linda que a outra! Aqui na Terra, até o presente o momento, ainda se pode contemplar todas essas coisas. Eu não sei dizer até quando teremos todas essas maravilhas, já que os seres que, por aqui chamamos de homens, já destruíram muitas coisas legais e necessárias para o equilíbrio da vida na Terra.

Mas quero continuar com a minha história de papagaio, é por isso que estou escrevendo, para falar sobre a minha vida, e para registrar as minhas experiências vividas aqui. Eu fiz questão de contar que sou da Terra, porque talvez, sem ser pretensioso, mas, quem sabe no futuro os seres de algum outro planeta queiram traduzir e contar a minha história paras as suas crianças! Ou para outras criaturas, não é mesmo? Isso me deixaria muito orgulhoso sabe! E seria muito legal ver a minha história ecoando no Universo afora, sendo reproduzido nas estrelas, nas luas, através das vozes de outros seres.

Voltando ao verão de 2004, lá numa fazendinha no Norte do Brasil, a minha mãe e o meu pai encontraram um buraco no alto de uma grande árvore, eles sabiam que era o tempo de eles construírem um ninho, e ali, naquele oco na madeira, o fizeram. É que minha mãe já estava preparada para botar os seus ovinhos. Eu estava em um deles! Isso não é o máximo? Saber que eu era apenas um ovinho e agora estou aqui, lindo! Maravilhoso! Todo verdinho! Inteligente! E ainda contando a minha história! A vida é um milagre, não tem outra explicação! E eu sou um papagaio muito feliz com a minha vida. Eu sou um milagre da natureza! Eu sou. Eu existo.

Então, continuando com a minha história, mamãe botou dois ovinhos naquele ninho; éramos eu e meu irmão, ela começou a chocá-los; vocês sabem, as aves nascem de ovos, e eles precisam ser aquecidos por, dias e dias, até que se formem filhotinhos dentro deles. Todos os dias papai saia em busca de alimentos para a mamãe enquanto ela cuidava de nós no ninho. Até que um dia consegui abrir um buraquinho no ovo onde eu estava, daí para a frente fomos fazendo isso, eu e meu irmão quebramos as cascas dos nossos ovinhos, estávamos nascendo! Quando abri o meus olhos e vi a vida, eu fiquei maravilhado! Era tudo muito lindo, o céu, as árvores, e mamãe! Mamãe era linda e tinha uma plumagem sensacional. Eu olhava para mim, e só havia pele, não havia nenhuma pena sobre o meu corpo e sobre o corpo do meu irmão. Mas eu nasci um papagaio muito otimista! Eu sabia que iria ficar tão bonito quanto a mamãe e o papai, era só questão de tempo.

Os dias foram se passando, e mais de um mês depois eu já estava com boa parte do corpo cheio de penas, já estava até começando a sonhar com os meus primeiros voos. Mas algo não estava normal, ouvi vozes humanas perto da minha árvore. Senti que ela começou a se balançar, e de repente um rosto estranho apareceu na entrada do oco onde estava a minha casinha. Eram humanos, eles levaram a mim e ao meu irmão para um lugar muito longe. Fui viver na toca dos humanos.

No início foi muito difícil a adaptação, eles até cuidavam bem de mim e de meu irmão, e nos deram nomes que eles mesmos inventaram. Me chamaram de “Fortuna”, não sei por que, se bem que depois descobri que este nome significa “sorte”, e fui aprendendo a gostar dele e a dar atenção quando me chamavam. Já o meu irmão, eu não me lembro que nome deram a ele.

O meu irmão não teve a mesma sorte que eu, ele nasceu com uma deficiência nas pernas, e não aprendeu a voar, acho que ele tinha outros problemas de saúde também. O fato é que ele morreu pouco tempo depois de estarmos na casa dos humanos. Eu fiquei muito triste, mas não pude evitar sua partida.

Continuei tentando encontrar graça nos humanos e a aprender a falara língua deles. E acreditem, eu aprendi muitas palavras, aprendi a cantar músicas, e assobiar também! Eu assobio músicas que os humanos quando ouvem ficam encantados. E o mais legal ainda, eu aprendi a sorrir igualzinho aos humanos! Quando eles sorriem eu também sorrio, daí eles acham engraçado ver eu sorrindo e sorriem mais ainda, são tantas gargalhas que não acabam mais, eles só param quando sentem dor de barriga de tanto sorrirem.

Certa vez quase morri por causa de um cachorro, eu estava tomando sol numa goiabeira, na verdade eu estava triturando as frutinhas novas com o meu bico, quando de repente um cachorro surgiu do nada e começou a latir. Eu senti muito medo dele e me descontrolei, fui parar no chão, e isso foi a pior coisa que poderia ter me acontecido, porque o cachorro me abocanhou e me mordeu. Eu comecei a grazinar bem alto, e fiz tanto barulho, que minha mãe humana ouviu e veio me salvar. Ficou um corte estranho, lá, debaixo das penas do meu traseiro, mas a minha mãe humana cuidou de mim, passou remédio e eu fiquei bom novamente.

Assim, os anos foram passando, as coisas foram se transformando, e eu fui morar em outra casa, numa outra cidade, um lugarzinho cheio de árvores, e é o lugar onde eu ainda estou vivendo. É desse lugar que escrevo a minha história. Aqui posso voar bem alto, ir a lugares mais distantes, e depois, no final do dia, eu volto para casa.

Eu levo uma vida até legal, talvez eu tenha algumas pequenas reclamações, mas nada tão insuportável que não dê para resistir. É que eu tenho um bico inquieto, estou sempre procurando alguma coisa para picotar, e acreditem, as árvores frutíferas de perto da minha casa sofrem com o meu bico. As goiabinhas não crescem, os cajus também não, talvez escapem alguns frutos das mangueiras, é que a safra da mangueira é muito grande e eu não consigo derrubar todos eles. Tá, eu sei que isso é feio, eu estou tentando me controlar.

Ah, ia me esquecendo de dizer sobre uma galinha do bico bravo que tem aqui pertinho da minha casa, de vez em quando ela entra no quintal para ciscar e procurar comida, mas pensem numa galinha monstruosa de zangada! Eu caí uma vez do pé de caju e ela, pela minha falta de sorte, estava lá, ciscando com as suas garras extra gigantes. O pior não são as garras dela, mas aquele bico terrível! Ela quase acabou com a minha vida de papagaio naquele dia, foi sufoco o que eu passei viu! Eu não desejo uma galinha daquelas na vida de ninguém! Ô bicho zangado e terrível! Mas eu fui socorrido a tempo de manter a minha integridade física conservada.

As pessoas pensam que os animais não possui sentimentos, que não sentem dores, não tem emoção, mas esse pensamento está errado. Eu sou um papagaio que sente emoção! Eu fico feliz quando revejo meus antigos cuidadores. Eu senti muita dor quando o cachorro me mordeu, e quando a galinha me beliscou. Eu chorei quando o meu irmão partiu. Eu me emocionei quando voltei a viver em liberdade e pude fazer voos mais longos, quando pude ir mais longe no horizonte. A vida de um papagaio tem valor tanto quanto a vida de um ser humano.

Valorizem o sopro da vida de cada criatura, pois cada uma tem a sua importância na constituição do mundo.

Rozilda Euzebio Costa
04.11.2018
ROZILDA EUZEBIO COSTA
Enviado por ROZILDA EUZEBIO COSTA em 11/11/2018
Código do texto: T6499998
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Sobre a autora
ROZILDA EUZEBIO COSTA
Araguaína - Tocantins - Brasil
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ROZILDA EUZEBIO COSTA