Caso de Política
Estamos em mais um ano de eleição.
Ufa!
Este é o ano da amizade, daqui a alguns dias ganharemos vários amigos pela rua afora.
A cidade estará repleta de pessoas, prestativas, simpáticas e afins, todas querendo conquistar a nossa simpatia e consequentemente o nosso tão precioso voto.
Seremos, bajulados, paparicados, reconhecidos.
Este ano, seremos importantes, principalmente para aqueles que nunca nos deram importância alguma.
Todo ano de eleição, lembro-me de uma história verídica a qual fui protagonista e que ocorrera há alguns anos.
Eu morava com meus pais naquela época e como morávamos em uma cidade pequena era natural que em época de eleição os candidatos visitassem a casa de supostos eleitores, apresentando propostas, sugerindo favores e claro solicitando votos.
Em época de eleição papai sempre dizia:
- Filho, por pior que seja o político que vier à nossa casa, devemos tratá-lo muito bem, afinal, nunca saberemos quando vamos precisar de algum favor dele.
E assim era feito.
Eu definitivamente nunca concordei com papai, no entanto, a casa era dele, por isso respeitava sua opinião.
Num belo dia, chega em casa um político e conforme as boas maneiras sugerida por papai convidei-o a entrar.
Após alguns instantes de conversas banais, como: “Como está calor hoje”, “será que vai chover”, “qual o nome do cachorro”, etc., ele diz:
- Pois bem, como vocês devem saber, eu estou sendo candidato a vereador e gostaria de contar com o apoio de vocês para esta empreitada... Vocês sabem que a cidade está passando por um momento muito difícil e que é necessária uma mudança radical nos rumos da política... Precisamos de sangue novo... De pessoas dispostas a trabalhar para o bem de nossa cidade...
- É... – respondi.
- Por isso estou aqui. Gostaria de poder contar com o voto de vocês.
- É...
- Sabe o que é doutor – disse mamãe – eu sei que este não é um momento oportuno, mas, o senhor sabe, o senhor conhece muita gente e as coisas aqui em casa não estão muito boas não, sabe, este meu filho, o mais velhos, faz vários meses que está desempregado.
- Sei...
-... Então, o senhor não poderia nos dar uma ajudinha e conseguir um emprego para ele. Pode ser qualquer coisa. Ele está disposto a fazer qualquer trabalho.
- Sei...
- Eu sou vendedor – completei – mas está tudo tão difícil que aceito qualquer coisa.
- Um emprego? Você está precisando de um emprego? Como as coisas estão difíceis nesta cidade, não é verdade? Um jovem como você desempregado, infelizmente precisamos melhorar muito isso aqui, né?
- Com certeza.
- Olha eu vou te ajudar. Pode ficar tranqüilo que vou te ajudar a encontrar este emprego. Este emprego vai te ajudar muito?
- Sim! Claro!
- Eu me comprometo a arrumar em emprego para você, meu jovem. Eu só lhe peço um pouco de paciência, afinal, estamos às vésperas da eleição e eu estou trabalhando feito um louco, mas, pode ficar tranqüilo, seu tão sonhado emprego logo vai chegar... Eu conheço muita gente... Muita gente mesmo que poderão lhe ajudar... É só ter paciência, ta bom?
- Ta! Claro que sim! – eu disse empolgado.
- Logo, logo nos veremos. Até mais.
E assim ele se foi.
Dias depois, foi eleito.
Não mais o vi, até que, quatro anos após nosso primeiro encontro eu estava sentado na varanda da casa dos meus pais, quando.
- Boa tarde!
- Boa tarde! – respondi, logo, percebi que era ele.
- Tudo bem com você? Com sua família? – perguntou entrando e se sentando na cadeira ao lado.
- Graças a Deus! – respondi secamente.
- Então, meu jovem, estou aqui por que estou concorrendo a reeleição, e, como na eleição passada, gostaria de contar com seu apoio e de sua família.
Diante disso, não pestanejei e respondi olhando em seus olhos.
- Oh, Doutor! É claro que o senhor pode contar com o nosso apoio – dito isto o político se enche de orgulho – afinal, como poderíamos eu e minha família, negarmos voto a uma pessoa que tantos nos ajudou, não é verdade? Principalmente eu... Olha pode ficar tranqüilo que aqui em casa não tem pra ninguém, é o senhor disparado.
- Eu... – gagueja - Eu fico muito feliz por estas palavras, pois, agora sei que estou no caminho certo. Agora sei que, o meu destino é a política, pois, só assim posso ajudar ao próximo, ajudar aos outros. Muito obrigado pelo apoio, meu jovem, seu e de sua família.
- Doutor! Eu só gostaria de pedir-lhe um favor?
- Pois não! Estou a inteira disposição para ajudar meus fiéis eleitores.
- Sabe o que é? ... Eu fico até sem jeito... Sabe...
- Pode dizer, meu filho, não se sinta envergonhado, somos amigos. Grandes amigos! Não é verdade?
- Bem, sabe o que é... Vou pedir heim!
- Pois peça!
- Sabe aquele emprego que o senhor me arrumou, aquele, de quatro anos atrás. É que eu queria que o senhor me conseguisse uma promoção, um aumento de salário, eu estou querendo me casar e o senhor sabe né, casamento, despesas, enfim, dá uma força pra mim de novo, se não for um incomodo.
Ele, sem nada dizer se levanta aperta minha mão e vai embora.
Não notei constrangimento, tampouco, vergonha em seu olhar.
Papai após ficar sabendo da história, nada me disse, afinal mantive a tradição da casa em tratar muito bem os políticos até elogiei tal mister ao dar-lhe méritos pelo o que nunca fizera.