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EU E CECÍLIA  MEIRELES
 
Bateu o sino, e eu, com oito ou nove anos – não lembro direito- corri para a sala de aula de uma escola rural juntamente com meus colegas. Os cabelos castanhos claros bem curtos e com franjas balançavam ao vento. Desde menina gostei de cabelos curtos. Nunca os tive compridos. A saia pregueada azul marinho de gabardine, a camisa branca de tergal, os sapatos tipo Conga, era o estilo escolar daquela doce menina, que, ainda não sabia, mas trazia em si o olhar poético e, na pasta rota, além dos poucos cadernos, o maior tesouro de sua vida.
Sentada na carteira balançando os pezinhos eu aguardava a ordem da professora Olga, torcendo para que depois da correção do dever de casa fosse aula de Literatura. Era nas aulas de Literatura que eu podia viajar na imaginação. E era livre. Livre para criar as imagens que quisesse nas histórias e na poesia. Gostava de fazer isso no caderno de Literatura, mas preferia imaginar. Doces e encantados momentos...
Quando Dona Olga anunciou: — Tirem o caderno de Literatura e o livro de poesias, eu abri meu sorriso mais largo e enfiei a mãozinha branca e magra na pasta rota e de lá tirei o meu tesouro: o livro “As mais belas Poesias”. Nem dava tempo de admirar e alisar a capa que eu adorava: meio avermelhada e com a imagem de uma árvore e uma estrada longa desenhadas com efeito lápis. Eu ainda não sabia, mas sentia que a poesia era uma árvore, cujos galhos apontam em muitas direções. E era uma longa estrada que não tinha fim...
A uma ordem de dona Olga abri na página do poema “Ou isto ou aquilo” de Cecília Meireles.   O nome da poetisa me encantou de cheio: “Cecília”, um nome tão lindo e jamais me esqueci desde então. Parecia nome de flor, de água... Não sabia direito, só sabia que era lindo e balouçava feito flor ao vento ou fazia barulhinhos como água corrente em minha cabecinha de menina: ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo...
Na verdade o primeiro sentimento que tive por Cecília foi a ideia de flor e água de seu nome e não o poema de fato, até porque no poema a poetisa parecia tão indecisa e eu, tão menina não entendia direito essa problemática de escolhas, decisões, possibilidades, oposições... Mas mesmo assim adorei por causa do nome “Cecília” e eu nem sabia que ela tinha olhos azuis e aquele sorriso lindo e que era professora também.
Depois que cresci é que entendi direito as questões básicas das escolhas: a dúvida e a incerteza e então compreendi minha musa Cecília Meireles e o porquê daquele poema que nem rimas tinha. Comecei a entender que as oposições vivem sempre lado a lado e fazem parte da vida. Não necessariamente as coisas do poema, claro, mas coisas muito mais difíceis, escolhas e decisões que mudam rumos da vida, enfim...
 
Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!
 
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
 
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
 
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
 
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
 
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
 
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
 
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
 
Mas naquele dia, há, talvez quarenta e oito anos, Cecília, o nome de flor e água, desencarnou daqueles versos tão confusos e veio sentar-se ao meu lado tornando-se minha musa preferida e veio seguindo-me pela vida afora, tão compreensiva com seus olhos tão azuis  de poetisa e professora, construindo-me fantasias poéticas. Conheci outros poemas de Cecília naquele tempo como “Bolhas” ou” leilão de Jardim”, mas foi” Ou isto ou aquilo” que me marcou de fato.
Anos mais tarde quando eu já havia assumido minha personalidade poética, Cecília ainda me seguia e só então a conheci de verdade: sua história de poetisa, professora, jornalista e pintora brasileira. Descobri, inclusive, que ela fazia aniversário no mês de novembro assim como eu e que, “Ou isto ou aquilo” nasceu no ano seguinte ao meu nascimento, ou seja, em 1964 e isso foi o máximo.
Apesar de tudo isso, foi em 2014 — meu ano mais poético—, que decidi trazer para junto de mim todos os meus queridos amigos poetas e inspiradores e comprei várias obras poéticas.
Com relação à Cecília Meireles, eu estava caminhando pela Saraiva Online numa sexta-feira negra, rsrs — a famosa Black Friday —  e encontrei todos meus amigos poetas. Entre eles, Cecília, que com seus olhos azuis e sorriso tímido, seu nome de flor e água, veio ao meu encontro trazendo-me sua Antologia Poética em edição de bolso onde  o apresentador e organizador Fabrício Carpinejar, poeta, cronista e professor, fala com ênfase de seus poemas como “ versos de tragar [ livres para escorrer”como a água. Não seria  por isso que seu nome desde menina me lembrava  a água? E eu nem sabia ainda que para Cecília tudo era mar e mais nada. Mas o apresentador e organizador da Antologia ao dizer que todos os poemas de Cecília são líquidos  me deu a certeza da minha primeira impressão quando ainda menina. Não necessariamente em razão dos versos do poema “ ou isto ou aquilo”, mas pelo sentimento do “ tragar” ou “ escorrer”. E foi isso que senti ao longo da leitura da Antologia  sem esquecer nada como ela mesma poetizou
 
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
 
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
 
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
 
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
 
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.
 
Cecília e eu, sem modéstias, temos algo em comum: o mês de nascimento e o poema  seu que mais adoro  e com o qual me identifico
 
MOTIVO
 
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
 
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
 
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
 ou passo.
 
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.


 

 
Essa crônica eu criei para homenagear a poetisa Cecília Meireles que é minha musa poética desde menininha. Ela reencarna tudo que eu penso de um ser poeta. E nesse dia quero homenagear a todos os poetas em especial aos poetas do Recanto: meus doces amigos poetas. Que Deus os abençoe e ilumine sempre lindas inspirações poéticas para humanizar o mundo que tem perdido um pouco dessa essência poética. Mas graças a Deus ainda bem que existe o poeta, que, mesmo em meio às correrias da vida, à efemeridade das coisas ainda consegue enxergar além do olhar e da alma e versar... versar... Isso é maravilhoso e agradeço imensamente a Deus por ter me feito poeta.  


 



SOBRE CECÍLIA MEIRELES

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https://www.ebiografia.com/cecilia_meireles/

 




 
Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 20/10/2019
Código do texto: T6774273
Classificação de conteúdo: seguro

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