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A Caverna dos morcegos que não voavam

Ele era um morcego, nascido como todos os outros: tinha asas, olhos, orelhas grandes, pelos eriçados, patas fortes, com bons sentidos. Era, por sinal, mais fraco que a maioria deles. Despertava menos a atenção dos outros morcegos - para não dizer nenhuma: tinha orelhas menores que a do Outro, ouvia menos que Alguém, não gritava tão bem quanto Você. Ninguém via Ele. Ele era um simples morcego no meio de todos, na escuridão da caverna.

Ele se sentia muito incomodado com isso. Ele parecia ter que se esforçar mais que a maioria dos morcegos para conseguir o que todos conseguiam com aparente facilidade, ou pelo menos sem a angústia que Ele sentia.

Enquanto Ti se vangloriava de ser o que ficava mais tempo de cabeça para baixo, Ele ficava enjoado ou sentia dores de cabeça com alguns minutos; Mim eriçava seus pelos de forma tão perfeita e assustadora que amedrontava até Si, o que tinha os dentes mais aterrorizantes da caverna. Ele, ao contrário, quando eriçava seus pelos, despertava mais risos do que sustos, e, quando tentava mostrar seus dentes para melhorar sua performance horripilante, as gargalhadas eram certas.

Mesmo sendo ridicularizado em tudo, - e até por causa disso - Ele treinava com determinação para se equiparar ao considerado "normal" pelos outros morcegos, mas nunca ficava melhor do que eles, e muito menos sentia que fazer aquilo era "natural" como parecia aos outros; divertido quase nunca era para Ele. Os outros achavam estranha essa "incapacidade" de Ele fazer as coisas que "todo morcego faz", mas nunca o ajudavam, preferiam admirar o seu ridículo e constante fracasso. Ele era diferente e sempre soube disso.

Em certa idade de sua vida, quando ainda era bem jovem, Ele percebeu que realmente tinha algo de diferente: Ele tinha olhos que viam coisas que os morcegos não viam. Na verdade, Ele sentia que era o único que realmente enxergava, os outros pareciam cheirar ou gritar antes de vê-lo com os olhos. Nunca havia notado isso, pois para Ele era algo normal. Percebeu que isso, inclusive, atrapalhava-o a fazer as coisas "normais" que os morcegos comuns faziam, já que ele fazia de um jeito diferente, usando seus olhos primeiro.

Esses olhos davam a Ele habilidades que não notava nos outros. Uma delas era o que chamou de Perceber: era quando ele identificava as atitudes, os comportamentos; era o único que conseguia captar as ações e dividi-las em grupos, como as que chamou de Chacota, Deboche, Bondade e Indiferença. Uma outra, que gostou muito, era a que deu o nome de Sentir ou Empatia: ele via o que não era dito, o que pairava no ar como uma nuvem, ou como o calor da umidade; às vezes essa aura esquisita saía de uma pessoa ou de um conjunto delas, ou ficava no local depois dos morcegos saírem, como nos grupos que chamou de Ódio, Inferioridade, Saudade e Preconceito. Divertia-se solitário e silencioso com seus poderes únicos, classificando aqui e ali, a toda hora e em todo lugar os morcegos e as coisas.

Mas isso, de início, não mudou muita coisa na vida d'Ele, pois, na prática, ele ainda era o mesmo esquisito para os outros. Ele nem mesmo entendia que seu poder era algo de especial. Pensava o inverso: era uma esquisitice ainda maior do que as outras que todos já lhe apontavam; no entanto, uma esquisitice divertida que lhe distraia em sua solidão, pelo menos. Seus poderes eram seu segredo.

Ele cresceu, junto com seus poderes. Já estava cansado e quase revoltado com a debilidade, com a impotência dos outros morcegos. Todos diziam que ele era fraco nas coisas "normais", contudo eles eram tão insignificantes que não sabiam nem da existência de tudo aquilo que Ele via com seus olhos, sequer conseguiam treinar seus olhos como Ele conseguia com as coisas "comuns". Essa falta de habilidade, que achava ridícula, Ele chamou de Ignorância.

Ele, depois de usar sua Percepção durante vários anos, via que os morcegos eram quase todos iguais, muitas vezes por que queriam chamar a atenção dos outros - coisas como "ser o melhor morcego", que chamou de Competição, quando era em grupo, e de Orgulho, quando era individual - ou porque eram obrigados pelos outros morcegos (que chamava de Sociedade) - essa atitude, que achava bem covarde, Ele chamou de Coerção.

De uma forma ou de outra, por vontade própria ou por obrigação social, os morcegos ficavam iguais, com as mesmas atitudes e reações, quase mecânicas e pateticamente previsíveis, na opinião d'Ele. Os que não o faziam tinham que ficar numa área separada da caverna, como Ele. Esse grupo Ele deu o nome de Excluídos ou Inferiores.

Mas a verdade era que nenhum morcego perguntava a si mesmo o porquê daquilo tudo. Ninguém se incomodava com aquilo; ou, pelo menos, não tinham a ousadia de dizer que estava tudo errado. Talvez os Excluídos quisessem, mas, mesmo perguntando em particular para alguns deles, Ele não ouviu de nenhum qualquer reclamação direta. Por incrível que pareça, muitas vezes os próprios Excluídos repetiam entre si as ofensas e zombarias da Sociedade.

Certo dia, Ele, encolhido na área dos Excluídos, cansado e triste dessa situação incontornável, olhou para cima e para trás; olhou para o canto da caverna, para onde nenhum morcego olhava - afinal, eram cegos. Lá viu uma luz. Já notara ela antes e gostava de olhá-la quando aparecia, às vezes durante horas. Quando era novo não a via bem, pois sua visão não era boa, porém agora ela brilhava tanto que lhe doía os olhos.

Uma sensação, a que chamava de Curiosidade, despertou nele como nunca lhe ocorrera: e se ele subisse até onde a luz está? Ele ficou com Medo, já que teria de subir sozinho e ficar bem longe dos outros morcegos, coisa que nunca havia feito. Sentiu tanta vontade que preferiu se arriscar a cair do que a ficar ali naquela mesmice - sobretudo depois de usar a Imaginação para criar em sua mente um lugar sem morcegos-robôs.

Subiu. E caiu. Reclamou. Escalou de novo. Caiu de novo; se machucou dessa vez. Olhou para cima. Subiu mais uma vez. Despencou; caiu de cabeça. Xingou. Chorou. Por que estava fazendo algo tão idiota?! Não importava. Agora ele tinha que conseguir, era questão de Honra!

Depois de pensar e tentar várias vezes Ele finalmente conseguiu. Como um pensamento quase instintivo, como se fosse algo natural de seu ser, como algo que sempre soubesse fazer, Ele abriu suas enormes asas e voou. Sim ele voou! Como ele conseguira aquilo?! Aquilo lhe pareceu tão natural que nem se impressionou. Voou muito alto, meio descoordenado, em direção à luz, e sentiu como se entrasse nela, e depois pisasse num chão macio, mas firme.
 
Sentiu, mas não viu, pois a luz forte ofuscara seus olhos sensíveis acostumados à escuridão. Pela primeira vez em sua vida, desde que se lembrava, ele ficara cego, totalmente. "Então é assim que é ser cego. É assim que é não entender o mundo", Ele pensou. Andou um tempo apenas tateando as beiradas da caverna até se acostumar com a luz. Quando conseguiu abrir os olhos, viu que aquela parte alta era muitíssimo diferente do interior escuro, onde sempre vivera. Pensou em seu poder de voar com as asas e o chamou de Consciência.

Sem pensar duas vezes, voou para fora da caverna. Nem se lembrava do Medo que sentira antes de começar a subida. Pensou de repente: "Espera! Mas como eu sei que aqui é o 'lado de fora'?!". Era inexplicável, mas simplesmente sabia e pronto.

Não pensou mais nisso. Explorou durante muito tempo o "lado de fora". Na verdade, era lá sua casa agora. Lá era mais interessante, muito mais colorido, com muitas árvores diferentes para se pendurar de cabeça para baixo, muitas frutas que nunca sonhara provar.

Certo dia, dormia pendurado quando, surpreso, foi acordado por outros morcegos. Eles também enxergavam, alguns até usavam lentes escuras nos olhos para melhorar a visão e diminuir a dor da luz. Eles se autonomeavam morcegos-filósofos, algo que deixou Ele boquiaberto, sem palavras, pois, nenhum morcego que Ele conhecera na caverna dava nome a nada; apenas Ele fazia isso, era o que Ele pensava.

Com pouca conversa Ele já se identificou com seus novos amigos e, finalmente, sentiu-se membro de um grupo. Finalmente achara morcegos que Percebiam e Sentiam como Ele e que gostava de verdade. Curiosamente, os morcegos-filósofos também chamavam o voo de Consciência, mas também de Individualidade ou até de "Ego", palavra que achou mais pomposa, mas elegante. Estava Feliz, sentia Satisfação e Reconhecimento, coisas que nunca sentira antes na caverna.

Após um bom tempo em sua nova vida, Ele pensou em sua antiga, na escura caverna. Havia muito para se descobrir do "lado de fora" por toda a sua vida, contudo ele não conseguia esquecer seus entes queridos que abandonara lá dentro. Ele sentiu que precisava voltar e contar para todos suas descobertas, sobre os poderes, sobre o "mundo do lado de fora". Era seu dever resgatar os outros.

Os morcegos-filósofos o alertaram que todos eles já tentaram fazer isso e falharam e que era isso que aconteceria com Ele. Mesmo assim, Ele foi, novamente sozinho, para o interior escuro, cinza e sombrio.

Não estava mais acostumado com a escuridão. Bateu em muitas pedras no caminho. Teve que rastejar, coisa que nem conseguia mais Imaginar como fazia. Havia muitos obstáculos que não estava mais acostumado, pois o Céu do "lado de fora" era amplo e aberto, bem mais fácil de voar.

Chegando na Sociedade, reparou que vários morcegos se pareciam com Ele, muitos até tentando escalar a caverna por outros pontos que Ele não conhecia, como fizera Ele e seu grupo de morcegos-filósofos muitos anos atrás. Como Ele nunca reparou nisso enquanto estava no meio deles? É claro que não, pois agora Ele viu de cima, voando, e com olhos treinados.

Chegou e não perdeu tempo. Descarregou todo o Conhecimento que aprendera do "lado de fora" e sozinho para os morcegos cegos e de asas murchas, como um profeta. Exatamente como antes, todos riram d'Ele - pareceu-lhe um Déjà vu, palavra complicada que nenhum deles conhecia, claro -, vendo-o como o mais esquisito de todos os tempos, com asas e olhos enormes e bizarros; ridículos para a Sociedade. Ele não se ofendia mais com aquilo, vendo que a Ignorância era um problema grave que os destruía e estagnava. Compreendia-os agora, e queria ajudá-los.

Muitos de seus antigos amigos o ouviam e seguiam. Tentavam enxergar e escalar a caverna, tentavam até voar, mas a maioria não conseguia fazer nem um, nem outro e nem o terceiro. Muitos eram teimosos e continuavam tentando; alguns morreram sem conseguir. Outros, a maioria, logo se cansava de tentar e desistia para sempre. Era mais fácil viver a vida de morcego-robô, que não os desagradava, pois era a única que conheciam. Pouquíssimos conseguiam e até chegavam a entrar para o grupo dos morcegos-filósofos ou a criar outros grupos do "lado de fora".

A bem da verdade, a tentativa d'Ele foi um fracasso. Queria levar para cima todos, no mínimos seus amigos e parentes queridos, porém quase todos eram e continuariam a ser, admitia Ele, simples morcegos cegos com asas atrofiadas. Muito deprimido com isso, Ele fez uma outra tentativa.

Inesperadamente, Ela, sua nova amiga, ouvia tudo que Ele lhe dizia. Conversaram muito, e muito, e muito. Ele tentou ensinar tudo que sabia: falou da Percepção, de Sentimento, de Consciência, de rolar na grama, de comida, de tudo e qualquer coisa. Ela adorava falar com Ele, e Ele adorava falar com Ela. Ele nunca conhecera um morcego tão divertido, nem entre os morcegos-filósofos. Numa discussão acalorada sobre Sentimentos, juntos perceberam que sentiam a mesma coisa. Chamaram isso de Amor. Já ouvira falar disso entre seus amigos do "lado de fora", no entanto nunca entendia os debates. Agora sentia o que era e estava Feliz. Valeu a pena todo o esforço.

Chegara o dia. Ele levou Ela para o mesmo caminho que conhecia para o "lado de fora". Ele a ajudaria a subir. Ela enxergava bem e voava mal, mas voava; aprendera bem com os ensinamentos d’Ele e com os empurrões que o Amor lhes dera. Ela subiu com maestria quase toda a subida, afinal, estava bem preparada. Subia, caia, mas se apoiava e voltava a subir. Quando a distância era curta, voava de uma pedra a outra, sem se cansar muito, pois suas asas eram pequenas. Não se machucou muito.

Todavia, quando Ela atingira o topo, a luz forte lhe penetrou de tal forma nos olhos meio cegos que Ela caiu, e caiu, e caiu, despencou de toda aquela altura enorme; seu voo já ruim ficou pior com o choque e não ajudara em nada a amortecer a queda. Ela quebrou a asa. Não conseguiria subir de novo tão cedo.

Ela saiu correndo de volta para dentro da escuridão da caverna, chorando muito de dor. Ele ficou muito sentido com o acontecimento e voou depressa para sua Amada. No entanto, para a imensa tristeza d’Ele, Ela disse que nunca mais o veria. Disse que Ele a enganara de forma perversa dizendo que "de onde vinha a luz" era melhor, mas era mentira! Era muito pior, muito mais doloroso que a caverna sombria - que Ela não achava sombria, porque nunca fora a outro lugar melhor. Mesmo Ele já tendo lhe dito antes que doía muito de início, mas que depois Ela se acostumaria, Ela não lhe deu ouvidos e repeliu com tamanha violência suas palavras que Ele não conseguira dizer mais nada.

Nunca vira tamanha agressividade e ingratidão vinda de um morcego, nem mesmo do morcego mais cego e mais manco que já conhecera. Pelo menos era o que Ele sentia naquele momento. Ali mesmo, vendo Ela afastar-se sem nem olhá-lo uma última vez, Ele chorou, e chorou, e chorou...

Totalmente desiludido com essa caverna horrível, descrente que a Sociedade mudaria um dia e que poderia sentir o Amor d’Ela novamente, Ele ficou dias e dias no topo da caverna, ali na beirada, onde voara pela primeira vez, olhando para baixo - para os morcegos cegos e mancos - e para traz - para o Paraíso da Consciência e dos morcegos-filósofos. Pensava em tudo que tinha feito, pensava n’Ela, principalmente. Não queria, mas pensava, era inevitável. Depois de muito pensar, lembrou-se de um dos debates sobre o Amor dos morcegos-filósofos, que diziam que podia ser mais doloroso para um morcego que para o outro e que o Amor poderia confundir-se, com outro sentimento: o da Paixão. Qual dos dois Ele ou Ela sentiam ou sentiram, Ele não sabia. Não queria mais refletir sobre isso.

Após muitos dias de inércia e deprimido, Ele notara que a seu lado sentara outro morcego, de aspecto tranquilo, e olhava para baixo, como Ele. Parecia reconhecê-lo; talvez fosse um de seus amigos morcegos-filósofos. Após longo silêncio, o morcego disse que se chamava Professor, e como Ele, tentava trazer morcegos para fora, só que já fazia isso a muito mais tempo que Ele. Disse, inclusive, que lembrava d'Ele de uma das vezes que fora ensinar os morcegos cegos. Disse também que Ele não deveria se abalar com sua primeira expedição para ensinar a Sociedade. Professor e seu grupo já o fazem a várias gerações, com pouco sucesso.

Isso entristeceu Ele mais ainda, contudo, estranhamente também o revigorou. Estava quase totalmente desacreditado, era verdade, não tinha mais ânimo de ensinar nada e só queria voltar para os seus amigos do "lado de fora", que já sabiam de tudo. Professor disse em seguida, com toda a calma que era possível a um morcego: "Descer ou subir é escolha sua, e apenas sua, meu jovem. Não posso te obrigar a nada, nem a você, nem a eles. Mas alegre-se com qualquer escolha que faça, pois, se você consegue escolher por si só, ótimo, é isso que importa. A opção que é feita por você mesmo sempre será a certa". Ele não entendeu o que Professor queria dizer com aquilo e nem como isso o ajudaria, mas aceitou o conselho sem dizer nada. Professor continuou; "E se quer ensinar algo para eles lá embaixo, ensine-os a fazerem suas próprias escolhas. E muitos escolherão vir para cá. Como farão isso eles descobrirão sozinhos, da mesma forma que você e todos nós descobrimos".

Depois de dizer isso, Professor voou para baixo, sem hesitar, para encontrar novamente os morcegos cegos. Ele olhou-o até perdê-lo de vista, tendo um rápido relance de suas lembranças de infância: então realmente já vira Professor antes. Fora quem a muito tempo lhe dissera que Ele poderia ver o que quisesse com seus próprios olhos, bastava Ele querer. E Ele quis, e viu.

Após refletir sobre as palavras de Professor, as anteriores e as novas, mesmo não as entendendo bem, decidiu-se. Não sabia o que fazer, mas sabia o que faria. Um dia, talvez não agora, desceria lá de novo e faria com que muitos morcegos cegos e mancos enxergassem e voassem como Ele faz. Não todos, mas muitos. E mesmo que seja apenas um, ou dois, ou três por vez, tudo bem. Ele era apenas um e já sentia que o trabalho de ensinar tinha sido feito. E estava imensamente grato por poder escolher o que quisesse.
Renan Brantes
Enviado por Renan Brantes em 15/02/2019
Código do texto: T6575835
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Sobre o autor
Renan Brantes
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 31 anos
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Renan Brantes