ENTRVISTA DO BLOG GANDAVOS

Entrevista: com  Geraldinho do Engenho

CARLOS LOPES

Ninguém aprende a escrever bem sem ser um bom leitor. Alguns escritores são unânimes em afirmar que a escrita está intimamente ligada à leitura, a mais variada possível. Porém é imprescindível a dedicação, a perseverança de trabalhar duro para transformar o material acumulado em nova matéria literária. Escrever é estar em constante aprimoramento. Creio também que escrever bem é pensar no leitor ao fazer ao escolher as palavras certas e isto não significa escrever de forma rebuscada, pois, quem escreve assim, não comunica, e sim exclui. Nossas leituras ao longo da vida alimentam e constroem o que carregamos em nossos pensamentos.

O entrevistado da semana é de Bom Despacho/MG, muito sábio, com ar tranquilo, paciente, vivido. Um mineiro escritor de histórias, que sabe registrar a cultura de um povo, entoando os seus causos, contos e poesias com calma, respeito e mansidão. Conhece a vida das cidades, mas sua origem sertaneja o envolve deixando transparecer em seus textos, as crenças, hábitos, modos de agir do povo de Minas Gerais... Esse é jeitão do escritor e amigo de todos, Geraldinho do Engenho.

1 - Pergunta: Quando e como surgiu seu interesse pela leitura e escrita?

Geraldinho do Engenho - Adquiri o hábito da leitura ainda criança, frequentando a escola... Quanto a escrita foi motivada também pela escola. Eu já maduro com meus quarenta e seis anos de idade, atendendo a solicitação da diretora da escola Maria Guerra em nossa comunidade, pedindo-me para fazer um pequeno relato do nosso Distrito, numa palestra aos seus estudantes. Uma vez que até aquele momento no decorrer do ano de 1988 não havia qualquer tipo de registro, sobre sua origem e formação. E os alunos a cobravam constantemente a respeito desse fato. Senti-me tão gratificado com o interesse das mais trezentas crianças que me assistiram. Decidi então rascunhar sobre o acontecimento e engavetar para que mais tarde alguém capacitado pudesse usá-lo com fonte de informações para escrever nossa historia. Quinze anos mais tarde, Em 2003 minha filha Silvane encontrou o Rascunho cujo titulo é (Gavetas da Mente) o mostrou a uma sua colega que trabalhava numa editora em Brasília. Vierem me convencer a publicá-lo, recusei é claro, achei a ideia absurda, mas acabaram me convencendo. Assim nasceu meu primeiro livro Gavetas da Mente!

2- Quais foram seus livros preferidos quando era criança e
Os livros favoritos atualmente?

Geraldinho do Engenho - Foram vários, mas os que mais me marcaram foram: Na Fazenda, Minhas Lições, e um livro cujo titulo é Historia Geral, o qual me fez apaixonar pela historia do Brasil colonial.
Atualmente fica até difícil mencionar os preferidos, são tantos os bons escritores, devoro todos eles, vou citar apenas dois A CABANA E NÃO HÁ SILENCIO QUE NÃO TERMINE DE HINGREDY BITHENCOURT.

3 - Quais escritores são suas fontes de inspiração?

Geraldinho do Engenho - Darcy Ribeiro, Jorge Amado, Casto Alves, e outros mais incluindo alguns bom-despachenses meus conterrâneos.

4 - De que forma o conhecimento adquirido, seja pelo senso comum, ou pelo meio acadêmico, ajuda na hora de escrever?

Geraldinho do Engenho - O ser humano não atinge nenhum objetivo sem o conhecimento, seja ele na prática ou na teoria, aliás são dois fatores que só atingem o alvo almejado se estiverem assimilados!

5- Segundo o escritor Rubem Fonseca, “a leitura, a palavra oral é
extremamente polissêmica. Cada leitor lê de uma maneira diferente. Então cada um de nós recria o que está lendo, esta é a vantagem da leitura". É isso mesmo? Concorda com essa posição?

Geraldinho do Engenho - Exatamente. Muitos leitores tem uma capacidade extraordinária de ilustrar mentalmente aquilo que está lendo, enquanto outros são conduzidos aos locais que imaginariamente são criados por sua interpretação. É deste contexto de interpretação que nasce a capacidade de escrever alguns de forma tão perfeita, capaz de prender o leitor ao texto afazendo com que ele sinta como se estivesse assistindo a um filme!

6- Ainda segundo o Escritor Rubem Fonseca: “um escritor tem de ser louco, alfabetizado, imaginativo, motivado e paciente.” É o suficiente para ser um bom escritor?

Geraldinho do Engenho - Não necessariamente que ele seja louco, mas alfabetizado sim, muitas vezes ele tem o dom para escrever e não encontra a forma correta para se expressar isso o que faz a diferença em um bom escritor.

7 - Para qual público se destina sua criação?

Geraldinho do Engenho - Escrevo de forma que qualquer leitor possa ler sem se sentir ofendido. Talvez meu linguajar caboclo e coloquial não agrade os intelectuais detentores da literatura clássica. Mesmo assim não deixo de escrever, pois é na humildade e nas coisas simples que encontramos a gratuidade da vida!

8 - Como funciona o seu processo de criação? Quais sãos suas manias (ritual da escrita)?

Geraldinho do Engenho - Dependendo das circunstâncias, e da inspiração. Às vezes numa palavra ou uma simples frase de um amigo, eu encontro motivação para criar um texto, uma critica construtiva a determinados fatos. Um gesto solidário é sempre um bom motivo para escrever. Meu ritual é sempre histórico fundamentada em nossas raízes na natureza, em nossos antepassados mais humildes que geralmente levam com eles para o túmulo sua história.

9 - Em geral, os seus personagens são baseados em pessoas que você conhece, ou são ficcionais?

Geraldinho do Engenho - Em se tratando da realidade histórica escrevo sobre nossa gente com os quais eu convivi e convivo atualmente. No caso de estórias ficcionais, como alguns romances, contos e fábulas são personagens fictícios.

10 - No seu processo de criação já atravessou alguma crise de falta de inspiração?

Geraldinho do Engenho - Sim já perdi a ponta da meada por falta de inspiração, inúmeras vezes, mas de repente vem a luz e eu retomo a direção certa.

11 - Você tem outra atividade, além de escrever?

Geraldinho do Engenho - Na verdade não me considero um escritor, sou apenas um simples escrevinhador apaixonado por História, não tenho nenhuma formação superior, cursei apenas o primário. Minha faculdade foi o cabo da enxada, lavrando a terra na escola da vida. Essa foi minha atividade principal até 1980 quando mudei para o comercio.

12 - Você faz parte das Coletâneas Gandavos. Qual a sensação de participar ao lado de escritores de várias regiões do país?

Geraldinho do Engenho - Com muita honra, participei de todas as adições, graças ao carinho do Grande patrono desta coletânea o nobre amigo Carlos Alberto Lopes, esse Mecenas da literatura brasileira que merece nosso carinho respeito e gratidão pelo seu trabalho voluntário, arrebanhando escritores do Brasil inteiro, e nos dando a honra e o prazer de formar uma grande família, cujo objetivo principal consumou-se nesta publicação coletiva realizando o sonho de muitos escritores em ver seus textos publicados em livros.

13 - O financiamento coletivo e a publicação independente têm se mostrado a opção das publicações Gandavos. Quais são os pontos positivos e negativos desse tipo de publicação?

Geraldinho do Engenho - Não vejo pontos negativos. Vejo sim união e paz. Um por todos e todos por um, este é o fundamento que norteia o agrupamento solidário. O alicerce do bem comum independente. Uma irmandade capaz de atingir seu objetivo e realizar o sonho de muitos que unidos como os grãos de areia sustentam grandes edificações, e caminharam juntos pelas trilhas da literatura dividindo conhecimentos e realizando sonhos.
Sempre que sou acolhido em ambientes nobres e sadios como o projeto Gandavos, me vem a recordação do conselho de minha saudosa mãe: ¨Filho nunca queira ser melhor do que seus amigos, procure sempre acatar os ensinamentos dos bons, seja sempre o menor e mais humilde deles¨.
A todos os meus colegas que de uma forma ou de outra caminhamos juntos nesta empreitada literária, meu carinho e meu abraço de gratidão, e aos que partiram chamados por Deus para compor no reino celestial minha fé em oração!

14 – Você já fez publicação de livros sozinho, seja impresso ou virtual? Quais e como o leitor pode adquiri-los?

Geraldinho do Engenho - Tenho nove livros publicados e o décimo em andamento, que deverá ser lançado até o final do ano. Uma obra completamente diferente de todas que já publiquei. Inspirada numa viagem que fiz a Europa em março de 2015. São lendas e contos da península Ibérica. Minhas publicações são todas independentes. Os interessados em adquiri-los, entre em contato pelo E-MAIL- geraldo_er@yahoo..com.br.

15 - Qual mensagem você deixaria para autores iniciantes, com base em suas próprias experiências.

Geraldinho do Engenho - Não é por caso que Deus concedeu a você esse maravilhoso Dom de se tornar um escritor para sua posteridade. Ele o escolheu no meio de tantos outros, porque aqueles que virão após precisam de sua contribuição. É a história que identifica uma sociedade. E se coube a ti essa missão, procure sempre fazer o melhor. Escreva com ética e respeito, sem preconceito sem discriminação, Escreva a seu modo de ser, sem plagiar a literatura alheia, "inspirar nos bons sempre! Copiar jamais!"

A atitude de escrever, além de ser uma boa terapia para quem habitualmente faz uso dessa prática, tona-se numa importante contribuição social, mesmo que não haja acontecimentos de grande relevância. É no dia a dia do cotidiano da sociedade em que se vive, que a historia acontece. E se alguém não a registra através da escrita sua identidade se perde no tempo. Escrever é um gesto nobre para com o leitor que busca alimentar a alma através da leitura, fazendo dela uma terapia ocupacional.






 
Geraldinho do Engenho e Carlos Alberto Lopes
Enviado por Geraldinho do Engenho em 04/06/2016
Reeditado em 04/06/2016
Código do texto: T5656881
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