Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Embaixo das escamas do Dragão

Escrever sobre assuntos que não dominamos é muito fácil, o que mais existe por aí é gente escrevendo sobre os mais variados temas com aquela certeza inabalável, enganando incautos e deformando lentamente a própria percepção. Para provar a facilidade deste charlatanismo, eu mesmo tecerei alguns textos assim. Segue o primeiro.

Embaixo das escamas do Dragão

Xi Jinping ensaia se perpetuar no poder, e embora a direção do dragão oriental tenha, desde a época de Mao, ficado com o onipotente Partido Comunista, os grandes líderes costumavam se revezar. O dirigente atual parece enxergar na época em que vivemos a chance crucial de reunir o planeta inteiro sob o imperativo categórico do Partido, realizando, portanto, as aspirações que carcomeram o coração de Antônio Gramsci. As coisas só chegaram nesse estado porque o Ocidente, onde o pensamento esclarecido mundial surgiu e se organizou, como nos lembra Giovanni Reale e Dario Antiseri no início de "História da Filosofia", canalizador das revelações espirituais mais importantes surgidas nos ônfalos da Terra (1) se tornou enfraquecido por mais de um século de marxismo e por outros séculos de filosofia ruim; os ocidentais tomaram como hábito despejar ao lixo suas lições e tradições, duvidaram mesmo da própria existência (2) e permitiram que seus salões do conhecimento se tornassem hostis a Deus e à Verdade, de maneira que os homens que freqüentavam tais ambientes eram decompostos e remontados em moldes mais ou menos Voltaireanos, e era assim que retornavam à sociedade como cidadãos ilustres, verdadeiras tochas contra as trevas mais obscuras; eles só não sabiam que a tal iluminação seria fornecida às custas das cinzas de bibliotecas, igrejas e casas de família.

Com o Ocidente cada vez em maiores frangalhos, portanto, o dragão oriental pôde ensaiar investidas mais ousadas, infiltrou seus demônios por todo lugar, externou seus anseios imperiais, subjugando o orgulho de vários vizinhos e partiu ao ataque direto contra nações já demasiado enfraquecidas pelos próprios vícios físicos e mentais, portanto, incapazes de reação.

Isso tudo é horrível, toda esta movimentação pode muito bem levar o mundo inteiro a uma era negra, talvez a era mais fria e miserável da humanidade, contudo cabe a seguinte pergunta: como a China ficou assim? Tirar esta dúvida pode nos ajudar a entender quais foram os motores que puseram em ação a marcha daquela civilização, outrora tão bela e próspera, cheia de lendas fantásticas (3) e sábios veneráveis (4) rumo à barbárie comunista. Há estudiosos que acreditam inúteis o entendimento do passado como fonte de lições para o presente e o futuro (5), porém sem desmerecer todo o excelente trabalho de alguns desses mestres, fico ao lado de Jacques Le Goff e Johan Huizinga nesa questão, que acreditavam claramente no poder didático e elucidativo do estudo da História.

Pois muito bem. Se esticarmos nossa vista através do imenso véu temporal, que flana encardido de revoluções fadadas ao pó e adeja um tanto mais vigoroso aqui e ali, onde os sinos das catedrais ainda soam e o combate aos males libertos por Pandora vai ao menos equilibrado, e espiarmos os milênios chineses em busca de resposta, certamente a primeira figura a chamar atenção é Mozi, filósofo que viveu mais ou menos durante o século V antes de Cristo e que pregava, d'uma só vez, a igualdade entre os homens e a superioridade dos governantes. Ele também era pragmático e muito rígido no tocante à ordem social.

Oras, parece-me claro, então, que os ensinamentos do filósofo penetraram diversas consciências influentes e importantes e se espalharam, de maneira direta e indireta, reforçada e diluída, através do imaginário do povo chinês, especialmente das elites chinesas, de maneira que, quando o marxismo cruzou a Grande Muralha e encontrou um país arrasado e indolente (6), parte da elite local já possuía a predisposição necessária para aceitar as premissas daquela ideologia como fonte de salvação e retorno às glórias ancestrais. Esta linha de raciocínio não é absurda a ninguém que tenha lido "Fire in the Minds of Men", de James H. Billington, e é surpreendente que ninguém, até hoje, tenha conectado pontos tão óbvios; aliás, arrisco dizer que, sem efetuar algumas conexões deste tipo, é impossível terminar a montagem do desenho diante de nós, e por conseqüencia se torna muito difícil extrair algumas lições preciosíssimas de todo este quadro tão terrível. A incompreensão dessas coisas pode arrastar a todos nós para um buraco negro de dor e confusão muito antes do esperado.


1 - Ver "Ordem e História", de Voegelin
2 - "Discurso do Método", Descartes
3 - A lenda de Sun Wukong talvez seja uma das histórias mais conhecidas da China antiga, e serviu de inspiração para várias obras da cultura popular, como "Dragon Ball" e "Enslaved: Odyssey to the West"
4 - Confúcio provavelmente é o pensador chinês mais famoso, ao menos fora da China, mas a importância de Ge Hong e sua filosofia da harmonia com a substância de todas as coisas existentes, e de Zou Yan, que fez um esforço notável na unificação de vários aspectos das cosmovisões anteriores, não pode ser subestimada.
5 - O historiador Ricardo da Costa parece ser um desses estudiosos, pois numa entrevista, quando perguntado da utilidade da História, respondeu que ela era inútil.
6 - A China já havia passado, entre outras coisas, pela Guerra do Ópio no século XIX e pelos massacres japoneses no século XX.

Agora, é o seguinte:

Não passei das primeiras páginas de "Ordem e História", nunca li nada de Descartes, nunca li nada do Voltaire, não tenho noção de como o partido comunista se organizou ao longo da história na China, nunca li nada do Gramsci, não conheço bem a situação da China com os países vizinhos, não conheço as lendas chinesas, nunca li nada de Confúcio e os outros sábios chineses que mencionei surgiram após minutinhos pesquisando na internet; Nunca li uma linha de Le Goff ou Huizinga; Não sei nada da Guerra do Ópio; não sei quase nada da situação do Japão com a China no século XX; eu não li "Fire in the Minds of Men", etc.
Yuri Igor
Enviado por Yuri Igor em 27/01/2021
Reeditado em 28/01/2021
Código do texto: T7170066
Classificação de conteúdo: seguro


Comentários

Sobre o autor
Yuri Igor
Bragança Paulista - São Paulo - Brasil, 34 anos
100 textos (1063 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/04/21 02:19)
Yuri Igor