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Camôes, o poeta boêmio

O português Luís Vaz de Camões dispensa apresentações. Ele se eternizou, sobretudo, por ter compostos em versos a saga Portuguesa nas conquistas marítimas do século XVI, em 'Os Lusíadas'.

Mas, ao que consta, além do Camões militar e fidalgo que perdeu um olho na Batalha Ceuta, havia o Camões boêmio e galanteador com as mulheres.

Tanto que quando uma dama da corte o indagou se um poeta de um olhos só poderia ver o mundo em profundidade, ele usou da sutileza e elegância: "De olhos não faço menção,/ quereis que olhos não sejam: / vendo-vos, olhos sobejam, / não vos vendo, olhos não são."1

Alguns de seus versos sugerem que ele se apaixonou por uma alta dama da corte, chamada Caterina, mas que em seus versos, por ela ser casada, ele escondeu o nome dela sob o anagrama de Natércia (as letras do nome de Caterina dispostas em outra ordem). Para superar o amor não vivido com Caterina, o poeta se pôs a navegar por outros mares.

Conta-se que em uma viagem à Índia em 1553, o navio em que Camões estava sofreu um naufrágio, no atual Vietnã. Uma nativa chinesa que estava a bordo e pelo qual Camões havia se enamorado (era comum portugueses relacionarem-se com mulheres africanas ou asiáticas) veio a se afogar, levando nosso marinheiro-poeta a entristecer-se e a escrever: "Alma minha gentil, que te partiste / tão cedo desta vida, descontente, repousa lá no céu eternamente, / e viva eu cá na terra sempre triste."2

Se em 'Os Lusíadas' Camões poetizou a epopeia marítima portuguesa, foi em Lírica que ele poetizou de forma mais encantadora os arroubos do coração.

Como todo poeta que se prese, Camões era fascinado pelo lirismo que habita as mulheres, possuindo um coração sensível aos encantos femininos. Não que vivesse um amor em cada porto, mas estava sempre aportando na beleza que se via por toda parte nas mulheres, ainda que escravas. Tanto que em um de seus poemas ele se declara escravo de uma escrava africana, a qual a chama de Bárbara: "Nem no campos flores,/ nem no céu estrelas, / me parecem belas / como os meus amores. /[...] Pretidão de amor, / tão doce a figura,/ que a neve lhe jura / que trocara a cor."3

Que admirável devoção às flores dos jardins do mundo - as mulheres -, que ficam mais bonitas quando cultivadas no coração, tinha o nosso ilustre poeta...

Ele também não deixou escapar sequer a notória atração dos opostos: "Amor com seus contrários se acrescenta."4

Tampouco, como todo poeta, não teve a pretensão de engarrafar a palavra amor em um conceito, antes preferia vê-la navegado nos mares do coração, soprada pelos versos: "um não sei quê, que nasce não sei onde, / vem não sei como, e dói não sei por que".5

E foi da contradição entre os amores idealizados por sua poesia e pelos amores por ele vividos, que ele chegou à conclusão que: "Amor é um fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói, e não se sente."6

Por fim, humilde, reconhecendo que nos mares do amor somos apenas simples navegantes, tanto que o amor nem aos deuses do olimpo poupou, ele reconheceu sua ínfima dimensão no mundo: "Errei todo o discurso de meus anos".7



1 Luís de Camões, Lírica. SP: Itatiaia, 1982. Cantiga 98, p. 118
2 Lírica, Soneto 80, p.193.
3 Lírica, Trovas 106, p.122/123.
4 Lírica, Soneto 32, p. 169.
5 Lírica, Soneto 3, p. 154.
6 Lírica, Soneto 5, p. 155.
7 Lírica, Soneto 108, p. 207.

Arte: Victor Bastos, Monumento a Camões, Lisboa, 1867.
Moacir Willmondes
Enviado por Moacir Willmondes em 30/06/2020
Código do texto: T6992509
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Moacir Willmondes
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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