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“DOM CASMURRO”, e o seu tempo. A Escravatura, e a Mulher

Este estudo sobre "DOM CASMURRO" é um texto muito breve, pois destinou-se a ser publicado num jornal diário, o jornal moçambicano
O AUTARCA . Primeiro jornal electrónico editado na cidade da Beira
Ano XIX – Nº 3723 – Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
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Páginas 6/9 até 9/9:
sendo a última destas páginas, ilustração com a capa da primeira edição e a capa do livro que li, em edição da Universitária Editora, Lisboa, 1997.
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Como sempre, as páginas da minha colaboração no AUTARCA têm layout do artista Mphumo Kraveirinya.
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MACHADO DE ASSIS
Machado de Assis (1839-1908) é considerado um dos grandes escritores do Brasil, senão o maior.
Foi ele o iniciador da corrente realista no Brasil. Assim, sendo um autor realista – através das suas personagens, ele retrata a sociedade tal como ele a vê. Mas escreve num estilo muito próprio, ironizando e por vezes mesmo, ridicularizando, as hipocrisias e misérias humanas que vai fazendo desfilar perante os seus leitores.
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DOM CASMURRO, o romance
Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis conta a vida de Bentinho. A história é contada pelo próprio protagonista.
As narrativas na primeira pessoa são, como se sabe, muito mais sugestivas. Dom Casmurro é a alcunha que as pessoas dão a Bentinho, mais tarde, quando, já adulto marcado pela grande desilusão que atingiu a sua vida, ele se torna um homem calado e taciturno.
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A ÉPOCA em que decorre a “acção” em DOM CASMURRO:
A “acção” passa-se no decurso do século XIX, no Brasil.
O início da “acção” reporta-se a 1857.
É o tempo do Romantismo, em que se vive sob o prestígio da Igreja católica e da sua influência sobre a educação feminina. Ainda o tempo da autoridade dos progenitores, e de um currículo escolar específico para as meninas.
É um tempo em que ainda tem grande peso a cultura clássica greco-latina.
E é também o tempo da Escravatura, que, no Brasil, desde o século XVI fora a mão de obra por excelência do ‘ciclo do açúcar’. A escravatura só terminaria após a Lei do Ventre Livre datada de 1871; e definitivamente após a Lei Áurea, de 1888;
É o tempo do Imperador D. Pedro II (de 1831 a 1889); do ‘ciclo do café’ (que vai, grosso modo, de 1760 até sensivelmente aos anos 30 do século XX); e em que já se nota a presença italiana (que conhece o seu ponto máximo entre 1880 e 1930, coincidindo esta última data com o final do ‘ciclo do café’); Era, enfim, um tempo em que ainda se morria de lepra (e parece que actualmente isto ainda acontece)...
Internacionalmente,  é o tempo do papa Pio IX (papa de 1846 a 1878); da Guerra da Crimeia (1853 a 1856); de disputas entre a Europa e os EEUU, pela posse de algumas ilhas...
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A ESCRAVATURA
A Escravatura vigorou no Brasil logo a partir do século XVI. Foi a mão de obra por excelência do Ciclo do Açúcar. Só terminaria após a Lei do Ventre Livre, datada de 1871; e definitivamente, após a Lei Áurea, de 1888.
Por seu lado, a presença italiana está relacionada com o Ciclo do Café. Conheceu o seu ponto máximo entre 1880 e 1930, coincidindo esta última data com o final deste ciclo.
Nas sociedades europeias, nomeadamente na sociedade portuguesa, os escravos foram, como diz José Ramos Tinhorão, “uma presença silenciosa”. Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis ilustra bem essa afirmação: o Autor regista a existência dos escravos. Refere a sua condição, sem tecer comentários. Aliás, quaisquer comentários seriam dispensáveis.
Logo no início da obra, ao apresentar D. Glória, o Autor faz-nos encarar a realidade de uma senhora muito religiosa mas que não se perturba com a crueldade que é vender pessoas (escravos) ou alugá-las, pondo-as “a ganho”.
Por outro lado, logo no início desta obra, no capítulo 9º, capítulo muito importante, o Autor compara a vida a uma ópera. Deus é o autor do libreto, mas o Inferno é o autor da partitura. E portanto, “assim se explicam a guilhotina e a escravidão”. Com este capítulo magistral, Machado de Assis diz tudo.
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Como é retratada a “presença silenciosa” dos escravos
A- Muitos escravos vivem com a família. Comportam-se com conformismo e há momentos em que demonstram respeitosa ternura ou familiaridade para com Bentinho, o protagonista-narrador.
Mas em geral, são “o pau mandado” a que se manda executar alguma tarefa.
Capítulos: cap. XX, cap XXXIX, cap LIII, cap LXXI, cap LXXXVI, cap XC, cap CXXI .
B- Os nomes dos escravos são-lhes atribuídos pelos senhores, e substituem os seus nomes originais. Por vezes, os nomes indicam a sua origem geográfica: cap XCIII.
C- Outros, são “escravos de ganho”: cap VII, cap XCIII.
Nos capítulos VII, e XCIII, fica claro que ter “escravos de ganho” era equivalente a ter uma pequena empresa.
D- Aparece ainda um ex-escravo, que vende na rua. cap CX.
Finalmente, no capítulo CXLV o Autor já não fala em “escravo”, mas sim em “criado”. O que situa o fim do romance após a abolição da Escravatura.
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A MULHER
A figura feminina é moldada pelo ideal Romântico:
A Mulher é representada segundo dois extremos: D. Glória, mãe de Bentinho (o protagonista), profundamente religiosa; e Capitú, uma jovem “laica”.
A Mulher ideal toca piano, é sempre alegre e dinâmica, dirige a criadagem, sabe dar um conselho e aclarar as hesitações profissionais ou de negócios do marido. A Mulher deve pois, ser delicada, pura, e dedicadíssima.
Enfim, é o tempo em que se idealizava a mulher dentro do paradoxo da “virgem e mãe”, ignorante em formação escolar geral, mas religiosa até à superstição.
O que a torna egoísta, possessiva, narcísica, manipuladora.
Assim, educado com medo da mãe, Bentinho (mais tarde o Dr. Bento) fica um homem frágil, que se coloca sucessiva e acriticamente, sob a protecção de José Dias, de Capitú e, finalmente, do amigo Escobar. Por isso, é manipulado e, provavelmente, traído.
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A TERMINAR
Neste excerto do capítulo IX, “A Ópera”, o Autor  compara a vida das sociedades humanas ao libreto de uma ópera. Conforme referimos atrás, esta ópera seria escrita por Deus e musicada por Lúcifer.
Este capítulo é uma brevíssima obra-prima. Nele, vemos a ironia e crítica social de Machado de Assis no seu tom mais amargo:
“Deus é o poeta. A música é de Satanás (...)
“Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
- Ouvi agora alguns ensaios!
- Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão.”
(...)
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© Myriam Jubilot de Carvalho
Julho, 2019
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Myriam Jubilot de Carvalho
Enviado por Myriam Jubilot de Carvalho em 24/07/2019
Código do texto: T6703330
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Myriam Jubilot de Carvalho
Portugal
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