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REFLEXÕES SOBRE LEITURA E ESCRITA: O PODER DO LIVRO E O MEDO DE LER...

RESUMO DE ANDREA

Prefácio a edição brasileira

Em 1998, o editor mexicano Daniel Goldin, convidou Michèle Petit para dar palestras sobre leitura. As palestras feitas, reunidas em livro percorreram por a América de língua espanhola, algo pelo qual ela não esperava. Sua pesquisa foi feita durante dez anos.
Ela nos conta, que os estudos em seu país foram estimulados, a fim de diminuir o número de jovens desempregados. Mas, muitos dos jovens da camada popular, que foram estimulados a prosseguir os estudos e entraram em uma faculdade, saíram um ou dois anos depois, sem diploma, e com a impressão de terem sido enganados pela escola.
O sociólogo, Stéphane Beaud, fez uma pesquisa com esses alunos. Descobriu que eles não levavam a sério o estudo fundamental, e que não estavam preparados para enfrentar uma universidade.
Havia um bloqueio em relação à leitura, o que não permitia que eles desenvolvessem habilidades proporcionadas apenas pela leitura, como: Escrita e compreensão de texto. Funções que eles necessitaram usar ao longo da vida, para terem uma boa carreira profissional, e assinar documentos etc. “A relação com a cultura escrita é um elemento essencial para êxito escolar, é mesmo a chave de tudo” Diz Beaud.
Mesmo assim, muitos jovens rejeitavam o acesso a biblioteca. “As bibliotecas também estão qualificadas para contribuir para uma mudança de atitude em relação  a leitura”.
Os rapazes se sentiam intimidados. Os que entravam em contato com a leitura, era por meio de garotas ou professoras. Com o tempo, a leitura foi começou a ser introduzida na vida dos rapazes, que romperam essa barreira entre a leitura e o estudante.
A leitura não é capaz de repara o mundo, mas pode mudar nossos pensamentos, a forma de ver o mundo, podendo abrir novas portas, e nos trazendo conhecimento.

Primeiro encontro
Petit diz ter sua infância rodeada por livros. Via seus pais com livros nas mãos diariamente, o que foi favorável para ela se interessar por leitura.
A uma grande preocupação a respeito da juventude, pois a leitura foi perdendo espaço, de uns vinte anos pra cá. Hoje em dia, a atenção dos jovens, esta concentrada em jogos, redes sociais, cinema e música, deste modo desvalorizando a leitura, deixando os livros de lado como se fossem roupas velhas e sem uso.
Os avanços tecnológicos só aumentam, e os escritores temem a completa rejeitam. A cobrança afasta os jovens, todos dizem que “devemos ler!” o que é verdade, mas acaba nos fazendo fujir.
A leitura, nos faz um bem enorme, sem que percebemos, nos leva a outros mundos, faz com que nossa imaginação trabalhe e nossos sonhos fluam, e assim nos afasta um pouco da cegueira socialista, nos fazendo agir mais com o pensamento, ignorando o uso da violência.
As duas vertentes da leitura
Atualmente, a tecnologia tem adquirido mais espaço na vida familiar do que os livros. Não se vive mais momentos marcantes ao lado de livros, como por exemplo, quando os pais colocam os filhos para dormir contando uma “historinha”.
A infância está sendo marcada por programas de TV, jogos etc. Quando a criança chegar a sua idade adulta e se recordar de sua infância, terá lembranças de joguinhos com os pais, programas de TV que assistiam juntos, etc. Diferente das recordações dos “velhos” de hoje, muitos se recordam dos pais lendo livros para eles. Uma das entrevistadas por Petit, recorda quando seu avô lia para ela.
Os pais deveriam dar motivação aos filhos para lerem, o que não tem ocorrido. Os que se interessam pela leitura, é através da escola, raramente por meio dos pais.
A leitura é como um escape do mundo real, podemos viajar no tempo em o espaço, sem ao menos sairmos do lugar, nos isolarmos em nosso próprio mundo criado a partir da imaginação, baseada na historia em que lemos. Através da linguagem, também é possível se impor preceitos, transmitir pensamentos e fundir ideias dentro de uma população, até mesmo controlar essa “massa”. Pois sem conhecimento somos meros fantoches.
“A escrita foi um instrumento fundamental do poder político”. Uma menina de sete anos entrevistada por Petit, relata que sua amiga para ser chefe do grupo, era muito estudiosa e lia o tempo todo. “Aos sete anos ela já sabe, por experiência própria, que a manipulação da escrita é um instrumento decisivo de poder”.
Na leitura, assim como em uma caminhada pela rua ou qualquer outro lugar, duas pessoas indo para o mesmo lugar de chegada, tomam rumos diferentes muitas vezes. Na imaginação é parecido, as conclusões tendem a não ser iguais. Duas pessoas lendo a mesma história, as vezes entendem de forma totalmente diferente.

O leitor trabalhando por sua leitura
O leitor altera o sentido dos textos, reformula a história e as paisagens descritas. A leitura é um terreno sem dono, qualquer um pode possuir, e cada dono faz uma “construção” contrução diferente.
A leitura não nos dá trabalho, obviamente por sermos leitores, e não termos o trabalho do autor de desenvolver a obra, temos apenas que compreender com liberdade o que ele quis nos passar, e assim adquirir o prazer da leitura.
Há uma variedade gigantesca de livros, e temas abordados, o que nos da muitas possibilidades. São milhares de escritores pelo mundo, trabalhando a nosso favor. “Se não houvesse diversidade, se houvesse apenas uma cor, tudo seria monótono”. Diz Ridha, uma entrevistada por Petit.
É possível afirmar que se existissem poucas opções, a leitura deixaria de fazer sentido, não teríamos motivação ou vontade de ler.
Com a leitura, aprimoramos nossa escrita, e começamos a nos afastar do linguajar “informal” de nossas famílias. “As crianças aprendem a se viajar, a extirpir de suas bocas qualquer expressão crioula, a corrigir suas pronuncias e se afastar do falar de suas mães”.
Michel de Certeau: “Ler é estar em outro lugar, ali onde eles não estão, em outro mundo “. Realmente, quando lemos, entramos em outro mundo, nos esquecemos um pouco dos problemas. “Nos nos consolamos das vidas, dos amores que não vivemos, com as histórias dos outros”.
Há jovens que não tem acesso a livros, enquanto outros, leem apenas para ter o que falar com os amigos, e se sentirem por dentro de tudo.
“Hoje em dia, na maioria das sociedades, ficar excluído da escrita é ficar excluído do mundo”. De tão grande a importância que a leitura e a escrita exerce nos dias de hoje, mas não somente, nos dias passados ela também foi muito importante para a sociedade, e seus rastros são encontrados até hoje, através de escritores consagrados que nos deixaram suas obras.

Do lado dos leitores
Quando sabemos interpretar o que lemos, aprendemos a interpretar o que se passa ao nosso redor, abrimos novas possibilidades, aprimoramos a capacidade de resolver nossos problemas corriqueiros, e complexos, civilizadamente. Passando a saber interpretar o que se passa ao nosso redor, nos tornamos ameaças aos que estão acima de nós, controlando a economia, as escolas, comercio etc. Senão sabemos o que acontece, não interferimos nas obras “alheias” que nos afetam, continuando a fazer parte do sistema que os governantes do pais, e do mundo eu acrescentaria, nos impõe.
“Ter quinze anos é, muitas vezes, isso: o mundo está cheio, onde poderei me encaixar?”. A adolescência sempre foi um período difícil, no século XX rapazes eram obrigados a lutar nas guerras, as moças e mulheres eram sempre inferiores, não tinham direito a voto, arriscavam suas vidas em abortos clandestinos. Nesses aspectos, as coisas mudaram, mas a adolescência continua sendo um período complexo, onde tanto o corpo, e os pensamentos do individuo se transformam radicalmente, os sentimentos ficam a flor da pele. É o momento em que as decisões tomadas, decidem o rumo de sua vida. Por isso há tanta pressão em cima dos jovens.

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SEGUNDO ENCOTRO
O que está em jogo na leitura hoje em dia
“O que Ridha revela ao lembrar dos momentos em que por acaso, entre as estantes de uma biblioteca, reencontrou a criança que tinha sido, é que o que está em jogo é a própria identidade daqueles que se aproximam dos livros”. Às vezes, encontramos a nós mesmos diante das páginas.
Quando se mora em periferia, estamos sujeitos às escolas e empregos ruins. Somos desfavorecidos! O que diferencia um jovem que se sujeitará ao emprego ruim e o crescerá na vida são os estudos e a leitura.
“É seu próprio destino que o rapaz considera ter sido tranformado depois de seu encontro com a biblioteca e com as pessoas que conheceu ali”.

Ter acesso ao saber
“A leitura é um meio para se ter acesso ao saber”. Muitas informações de que precisamos, encontramos em páginas de livros quando procuramos. Adquirimos conhecimento através da leitura. Com o saber, somos capazes de traçar nosso próprio futuro.
“A biblioteca representa o lugar do saber” Diz Wassila, uma entrevistada.
Na maioria das casas, há ausência de livros, por isso a importância da visita frequente à biblioteca. Conhecimento nunca será demais. As informações oferecidas nos livros são inumeras, de uma receita de bolo a uma pesquisa ambiental.
Entrevistadas, contam sobre informações que conseguiram, Magali diz pegar muitas revistas emprestadas sobre educação infantil, para ajuda-la educar seu filho, “Haljéa consulta o Vidal [ uma lista de medicamentos disponíveis no mercado, utilizada habitualmente por médicos e farmacêuticos]”.
O secretário do prefeito de uma pequena cidade busca livros frequentemente para se manter informado sobre a política de todos os lados.

Apropiar-se da língua
A leitura nos ajuda a “Ter acesso a um uso mais desenvolto da leitura”. Ultrapassando a barreira que muitos enfrentam: Saber usar adequadamente a língua.
“Entre os jovens dos bairros marginalizados, muitos foram os que mencionavam o papel que a leitura pode desempenhar na aquisição de um conhecimento mais profundo da língua”.
Comunicamo-nos de duas formas, através da linguagem informal, e da linguagem formal, que desenvolvemos com a leitura frequente.
A linguagem informal devemos usas apenas com familiares e amigos, dentro de casa, ou na rua. Saber utilizar a línguagem formal é fundamental para que se possa ter uma boa carreira profissional, e conseguir se socializar em outras comunidades ou em outras sociedades.
“Ao se praticar a leitura, melhora-se o conhecimento da língua”.
Quando lemos, enriquemos nosso vocabulário.

Construir-se a si próprio
Quando o indivíduo não é capaz de se expressar com palavras, usa o corpo, utilizando a violência.
“Quanto mais formos capazes de nomear o que vivemos, mais aptos estaremos para vivê-lo e transforma-lo”.
Somos capazes de fazer mudanças, apenas se tivermos consciência do que acontece, e do que precisamos melhorar.
“Quando se é privado de palavras para pensar sobre si mesmo, para expressar sua angústia, sua raiva, suas esperanças, só resta o corpo para falar: Seja o corpo que grita com todos seus sintomas, seja o enfrentamento violento de um corpo com o outro, a passagem para o ato”.
Quando o indivíduo não tem sua própria identidade, não possui cultura, ela se torna uma pessoa subjetiva, contentando-se com qualquer oferta. “E os mais desprovidos de referências culturais são mais propesos a se deixar seduzir por aqueles que oferem próteses para a identidade”.
A leitura nos ajuda a acharmos a nossa identidade.
O livro, além de nos tranmitir conhecimentos etc. Pode preencher o vazio que há em nós. Ele se torna um “amigo”. Quando lemos, conseguimos alterar e inverter tempo e espaço. Viajamos para outros lugares, consolamo-nos com a história dos outros.
Quando nos dedicamos á leitura, muitas coisas podem mudar para melhor em nossa vida. Mas, são poucos os jovens que usufluem dos benefícios oferecidos pela leitura.

Um outro lugar um outro tempo
Os livros nos acolhem, conseguem nos fazer ter outra percepção do que sabemos, ou do que nos contam. Por exemplo, o lobo mal, tem a fama de ser malvado, mas uma criança pode ler uma história em que ele faz o bem. E assim descobrir a existência das “exceções”. Ou, perceber que todos podem ser bons. Com esta percepção, já amplia-se o ponto de vista da criança leitora.
Lendo, nos tornamos livres! “Quando lemos, podemos dispor de nosso tempo, em vez de estarmos sempre forçados a nos adaptarmos ao tempo dos outros”.
A leitura, ao contrario da televisão, instiga nossa imaginação. Quando estamos lendo imaginamos as ações, as reações, os lugares etc. Quando assistimos, dão-nos “tudo mastigado”, “já pronto para engolir”. Não trabalhamos, nem fantasiamos com a nossa imaginação, apenas observamos o que se passa na tela a nossa frente. “Sem fantasia, não há pensamentos.”
“Nada está definitivamente conquistado”. Por isso, não devemos parar de ler. Temos que nos manter envolvidos com a leitura sempre.

Conjugar as relações de inclusão
Os filhos de famílias imigrantes sentem-se constrangidos em deixar suas origens de lado, para ter o conhecimento que os pais não tiveram. A uma grande diferença entre a sociedade em que os pais e avos cresceram, e a que os filhos vivem. Com o tempo, muitas coisas se desenvolveram e vários tabus foram quebrados mas, para as pessoas mais velhas ou de certas civilizações, continuam existindo. Por isso, a um abismo entre a cultura do pai e a cultura do filho. São duas formas diferentes de ver o mundo trazidas pela diferença no ambiente em que se cresceu, e pelo mundo ao redor que não tem sido o mesmo.
Os jovens que rompem as tradições, e deixam de lado a cultura do pais, são julgados como traidores . Os mediadores, podem ajuda-los a fazer essa ruptura mais delicada, sem ferir os pais, fazendo com que os filhos enxerguem um meio de mesclar as duas culturas.
A leitura é uma pratica cultural. Que nos fornece instrumentos e recursos para lutarmos contra os desrespeitos do mundo.

Círculos de pertencimento mais amplo
Ler é um exercício onde os limites não existem, qualquer individuo, jovem, criança, ou idoso, negro ou branco, de qualquer nação, religião, ou gosto cultural, pode desfrutar. A leitura é imensamente rica, qualquer um pode se identificar diante das páginas.
A leitura pode ser uma ponte levadiça na vida do pobre ou do jovem leitor, levando-os para outro rumo, um melhor.
“A leitura permite romper o isolamento pois possibilita o acesso a espaços mais amplos”.
Além de poder ser uma ponte levadiça para uma vida com menos dificuldades, a leitura pode ser também um meio de viajar, sem sair do lugar, conhecer outros países, culturas, idiomas, lugares etc.
“Posso ficar sentada aqui e ler sobre qualquer país, qualquer povo, sobre qualquer pessoa, e por meio dessa leitura eu entendo esta outra vida, este outro pensamento, outro país, muitas coisas sem sair de Bobigny [o município da periferia onde vive], sem sair de minha cadeira”. Disse um jovem entrevistado.

QUARTO ENCONTRO

O papel do mediador
O prazer “proibido” pode ser o mais excitante. Quando o indivíduo vive em meio a uma comunidade em que a leitura não é bem aceita, ler se torna uma atividade “fora da lei”. O que pode excitar ainda mais o leitor, por estar “quebrando as regras”.
Podemos nos achar diante das páginas quando lemos, descobrir novos gostos, nova personalidade, abandonando o que está traçado para nós. Evoluindo para outro caminho, um melhor. Caminho que podemos buscar apenas com a leitura, estudo.
Ler pode implicar “riscos”, pois nunca sabemos aonde chegar. Medo, quando não se é familiarizado com a leitura. Se envolver em uma atividade “nova”, pode ser visto como algo “perigoso”.
Quando cria novos pensamentos, mesmo sem perceber, o leitor está deixando de ser controlado pela sociedade, e começa a criar novos argumentos também. Para poder lidar com o “sistema de controle” que tenta o empurrar.
O mediador, que pode ser um professor ou bibliotecário, tem como fundamento incentivar o aluno a ler, buscar conhecimento.

Uma relação personalizada
O mediador pode ser muito importante na vida de um aluno, ele pode influenciar aconselhar, ajudar, e até mesmo se tornar um amigo(a). Em alguns casos, como o de Hava, ele é capaz de motivar o aluno que deseja parar os estudos, que se sente desmotivado com seu próprio desempenho, dando força para que ele continue, abrindo os olhos do jovem, para que ele veja a importância dos estudos e da leitura.
A biblioteca representa o lugar do saber, das trocas de experiências. “Na biblioteca, Hava também trocava experiências, conhecimentos, com outros usuários que, como ela, iam ali para suas tarefas”
Aconselhando bem o aluno, o mediador pode modificar seu destino, transformar  seu caminho através da leitura.
“Os professores eram adultos diferentes daqueles com os quais eu convivia no meu círculo. Eles de deram uma força” Diz Zohra, uma entrevistada.
O mediador tem o papel de despertar o aluno para o mundo lá fora. Acolher o aluno e fazê-lo sentir-se melhor.
O amor pela leitura, às vezes nasce do amor por outra pessoa, que compartilha sua leitura.

Transmitir o amor pela leitura: Um desafio para o professor?
A escola desestimula os alunos no contato com a leitura, por que não fazem com que os alunos vejam-na como um prazer, um benefício. O jeito, com que muitas escolas tratam a leitura, faz os alunos vê-la como uma obrigação. E por isso, muitos fogem, evitam a leitura, eles não percebem como algo bom, ou proveitoso. “Realmente, deixou de ser um prazer para mim quando me obrigaram a fazê-lo contra a minha vontade”- diz Bopha.
O psicanalista Bruno Bettelheim nos conta, que as crianças não deveriam saber a importância da leitura em seus futuros, apenas vê-la como “algo mágico”, para que se interessem. O que não tem ocorrido, o tempo passa, e cada vez mais é enfatizada a importância da leitura. E as crianças são pressionadas a ler.
A leitura enriquece, aumenta o vocabulário, ajuda na compreensão da língua, que é um instrumento de comunicação e de construção. “A linguagem diz respeito à construção dos sujeitos falantes que nós somos, à elaboração de nossa relação com o mundo.”
Daoud, um entrevistado, diferencia os ambientes escolares, como: “ ‘A instituição – Onde, diz ele, ‘há profissionais que estão ali para instruir as pessoas - e o que chama de ‘criação’, onde: ‘há pessoas que se superam, que vão além se suas funções, de seu trabalho, para mostrar quem realmente são.”
Os professores capazes de alimentar, criar o gosto pela leitura dos jovens, são os que não impõem leitura, que abrem espaço para o jovem escolher o que quer ler.

A hospitalidade do bibliotecário
O bibliotecário pode se tornar importante na vida do aluno, pois quando é aceito, e se entrega a sua profissão, ele acolhe,incentiva,ajuda o aluno, cativando o jovem.
Muitos entrevistados por Petit, falaram sobre as bibliotecárias que conheceram, disseram amar quando elas lhe contavam histórias, quando indicavam lhe livros, pois elas sempre sabiam o que agradava a cada um. Christian (entrevistado) relata que ficava impressionado como as bibliotecárias se mobilizavam a ajudar.
Houve uma evolução nos últimos vinte anos na França, o número de bibliotecas dobrou. “Houve uma generalização do livre acesso aos livros”. E estímulo do governo.
Entrevistados enfatizaram o acesso gratuito a livros. “A biblioteca é um lugar para todo mundo, é gratuito’, diz uma jovem. ‘Ler grátis é genial’.”

Ultrapassar umbrais
A leitura não pode ser iniciada, incentivada e depois ser interrompida. O mediador além de iniciar, deve acompanhar o trajeto do leitor, para que ele não a abandone (à leitura). Muitas vezes, o gosto pela  leitura é criado , mas não é vigiado, então se interrompe. “Os trajetos dos leitores são descontínuos, marcados por períodos de interrupções breves ou longas”. A leitura não é algo que se possa conquistar definitivamente. É preciso ultrapassar diversas etapas, para que cada vez mais ela possa se fixar em nossas vidas, mesmo  que não definitivamente. O mediador deve estar presente em cada etapa conquistada.
Na França, as crianças são iniciadas precocemente. “Levaram um tempo para entender que, uma vez iniciada a criança dessa maneira, nem tudo estava garantido”.
A fase de transformação (a adolescência), no que se refere a leitura, trás a passagem dos gêneros literários, a separação, da leitura infantil para a juvenil, que, muitas vezes é confusa. “Essa separação muitas vezes não é conveniente”. Então os jovens se sentem perdidos. Muitas coisas já não lhe servem, não bastam.
“Terão passado dias inteiros na biblioteca, cercados de livros, mas não irão buscar nada além do  que lhes foi pedido, não terão tomado gosto pela leitura”. O que normalmente leva os jovens a buscar livros além dos que lhe foram pedidos, geralmente, e a curiosidade por temas tabu, como por exemplo: sexualidade. Diversos livros com os temas tabus buscados pelos jovens, não lhe são permitidos. Algumas bibliotecárias ocultam esses livros nas prateleiras para que o jovem não os encontre, o que, consequentemente, faz com que ele fique desinformado sobre tal assunto.

Pontes para universos culturais mais amplos
“Assim, o iniciador aos livros é aquele ou aquela que pode legitimar um desejo de ler que não está muito seguro de si. Aquele ou aquela que ajuda a ultrapassar os umbrais em diferentes momentos do percurso.” O iniciador, também, ajuda na escolha do livro, um momento, por vezes, difícil. Ele, ou ela, indica livros, possibilita novas leituras, com variedade de temas e autores. O iniciador pode tornar mais visível o caminho para o jovem. O leitor faz descobertas junto ao seu iniciador, que provavelmente sozinho ele não as faria.
“É preciso dizer que o universo livresco de muitos jovens que conhecemos parecem bastante limitados.” O iniciador tem poder para ampliar tal universo, transmitindo conhecimento e auxiliando o jovem.
Há a leitura produtiva, que como consequência pode tornar a cidadania ativa (“Porem, não sejamos ingênuos: isso não acontece sempre”.) ampliar horizontes, trazer novos argumentos. E também a leitura ligada somente ao prazer, como por exemplo: “Best-sellers”, mas não deixa de ser beneficente, ela pode estimular a imaginação e a criatividade.
O jovem Matoub, entrevistado por Petit, disse: “- Será que a integração pode significar submissão?”. Para mim, em alguns casos sim casos podem sim significar submissão, a partir do momento em que tal integração não lhe permitir escolhas.
A cultura escrita nos oferece uma diversidade imensa de possibilidades. Há muitos escritores trabalhando a nosso favor e inúmeros temas abordados. Existem livros para todos os gostos! No entanto, “Muitas vezes, os jovens pouco familiarizados com os livros não percebem a diversidade dos textos escritos. Para eles é um mundo monocromático, cinzento.”
“Um leitor pode evoluir.” Não nascemos com a imaginação, ela tem que ser incentivada, trabalhada, elaborada.
Bibliotecários são pessoas em potencial, capacitadas para ajudar, aconselhar e influenciar bem os jovens.

O mediador não pode dar mais do que tem
Petit nos diz que os mediadores não são impotentes! Eles têm uma margem de manobra, mesmo que estreita.
Grande parte dos jovens que leem e frequentam uma biblioteca acabam ampliando seu pensamento, escrita e compreensão. E, assim, melhorando seu desempenho escolar. “E, às vezes, profissional”
“Vimos que nem sempre é fácil chegar mais longe que os pais; distinguir-se deles. Assim, alguns pesam no breque por conta própria”.
Às vezes, jovens qualificados, com diploma, se frustram, pois não conseguem emprego em sua área estudada. Ainda há diversos preconceitos na sociedade. E “Os ‘avanços’ profissionais que os mais velhos puderam realizar não foram consideráveis.”
Só se pode dar o que tem. A biblioteca, os mediadores e iniciadores oferecem o que tem aos jovens, e os que usufruem da oferta sempre se beneficiam.
Ao se envolver em novos contextos, novas áreas, muitos jovens se sentem deslocados. E, então, se limitam em seu bairro, e em seus ambientes de costume.
A biblioteca pode representar muito para os jovens que nela se entregam aos livros e ao conhecimento. Professores e mediadores, também, pois, normalmente, são eles os iniciadores ao livro e incentivadores.
Ainda há pessoas incríveis nas escolas públicas do Brasil, que se dão ao máximo para o aluno. Até agora, em meu percurso escolar, eu pude conviver com professores que são a prova viva de que ainda há pessoas capazes de marcar a vida de um(a) aluno(a), com sua dedicação ao trabalho de formar jovens capazes de fazerem uma nova geração melhor.


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RESUMO DE BIANCA

Segundo encontro:

O QUE ESTÁ EM JOGO NA LEITURA HOJE EM DIA

Para iniciar esse assunto, Michèle Petit cita novamente, dois jovens que ela encontrou durante uma de suas pesquisas. Um chama-se Ridha e tem 22 anos e o outro Daoud e tem em média 20 anos.
Ridha o jovem de 22 anos conseguiu relembrar a criança que foi um dia, em um livro que reencontrou na biblioteca municipal. Ele diz: “Há lembranças que se perdem mas que recuperamos quando tocamos em alguma coisa. O que me aconteceu em primeiro lugar foi ter o prazer de me rever pequeno; não tenho fotos de mim. Mas era ainda mais emocionante que uma foto, acho”.
Já Daoud, considera que seu destino foi transformado após o seu encontro com uma biblioteca. Ele fala: “Quando moramos na periferia, estamos destinados a ter uma escola ruim, um péssimo trabalho. Há uma porção de acontecimentos que nos fazem seguir numa certa direção. Mas eu soube me esquivar desse caminho, tornar-me anticonformista, ir em outra direção”. Esses relatos só comprovam a importância da leitura em nossas vidas.
Por que ler é importante? Por que a leitura não é uma atividade anódina, um lazer como outro qualquer? Essas são algumas perguntas que Petit faz em seu livro. (Acredito que a leitura é importante, pois ela nos mostra diferentes culturas, nos ensina a compreender melhor diversos assuntos do mundo, e é fundamental para tornarmos pessoas cultas, com mais argumentos para criticar algo ou alguém... Ler ainda não se tornou um lazer, porque a leitura está associada apenas à escola. Ler para os de hoje em dia não passa de uma obrigação escolar).

Ter acesso ao saber

A leitura é um meio de termos acesso ao conhecimento. Com ela podemos mudar nosso destino escolar e profissional. Para a maioria dos jovens que vivem nos bairros marginalizados, é o saber que lhes dá o apoio necessário em sua caminhada escolar. Ler em casa ou na biblioteca complementa o aprendizado da escola, pois outras fontes de informação permitem a eles entender melhor os assuntos que estão sendo estudados.
É por meio da leitura que muitos decidem em que área irá se profissionalizar. Por ela também é possível encontrar emprego, e saber sobre nosso cotidiano. Outras pessoas ainda a utiliza para saber como educar os filhos ou mesmo para conhecer a formação de um feto durante a gestação. Ou seja, a leitura nos permite conhecer e aprender qualquer assunto que nos interessa, é diverso o aprendizado que ela nos proporciona.
Ler também nos permite manter o controle sobre esse mundo tão imprevisível. Estar informado é algo necessário para não parecermos bobos diante de nossa sociedade.
“Muitas vezes o saber é considerado como a chave para se alcançar a dignidade e a liberdade”.
Apropriar-se da língua
A leitura também é um meio de se ter acesso ao uso mais adequado da língua. Os jovens dos bairros marginalizados, falaram da importância da leitura para se adquirir um conhecimento mais profundo da mesma. Pilar uma dessas jovens disse: “A palavra é algo muito importante; a escrita é algo tão importante que quando não a temos, somos animais. Aquele que domina a escrita é necessariamente alguém que registra na memória sua experiência de vida e pode transmiti-la”.
Geralmente o modo que falamos com nossos amigos e familiares não é o mesmo que usamos em uma conversar formal. As gírias e as pronúncias erradas fazem parte do nosso cotidiano, isso acaba nos prejudicando, pois desse modo fica mais difícil aprender e fazer o uso correto da linguagem culta. Manu, uma entrevistada relata: “Quando falo com meus colegas, às vezes gosto de utilizar um vocabulário mais literário, e me olham espantados; isso me dá prazer como se eu fosse melhor que eles”.
Fazer o uso da língua com mais desenvoltura vai muito além da vida escolar, é preciso praticá-la diariamente. Até porque a língua pode se tornar uma barreira social.
Nas diferentes regiões rurais foram encontradas pessoas que liam o dicionário, pois se preocupavam em se expressar corretamente e queriam enriquecer seus vocabulários. Tanto as pessoas do campo quanto as da cidade, pensam que sem o uso correto da língua não existe uma verdadeira cidadania.
Com tudo isso, percebemos a importância da literatura, é como diz o psicanalista Fethi Benslama: “Com a literatura, passamos de uma humanidade feita pelo texto a uma humanidade que faz o texto”.

Construir-se a si próprio

Quando uma pessoa tem dificuldade em conseguir expressar em palavras, uma angústia, raiva ou até mesmo uma esperança, a mesma transmite essas emoções com o corpo, em atos de agressividade e violência. “A leitura pode ser, em todas as idades, justamente um caminho privilegiado para se construir, se pensar, dar um sentido à própria experiência, à própria vida; para dar voz ao sofrimento, dar forma a seus desejos e sonhos”. Diz Petit.
As pessoas com menos referência cultural, se deixam seduzir por aqueles que lhes oferecem “próteses para identidade”. Esses mesmos para não receberem termos unicamente negativos, lançam-se sobre imagens e palavras que podem recompor seus pedaços.
Desde a infância a leitura representa a abertura para um campo imaginário. Crianças que não praticam a leitura têm em mente apenas as cenas de alguns heróis e de filmes em que estão em cena traficantes de drogas.
Os livros às vezes se mostram nosso companheiro. Eles nos consolam, e com eles conseguimos expressar o que temos de mais secreto e íntimo.
Entre os jovens que foram entrevistados, foram poucos os que viram suas vidas e pensamentos serem profundamente modificados pela leitura. Mas há os que encontraram um texto que lhes permitiram achar palavras para se contar.
A leitura na juventude desempenha um papel muito importante. Mas é em todos os momentos de nossa vida que poderemos encontrar nela, uma forma de se reconstruir após alguma perda, amores não correspondidos, ou uma angústia. Qualquer que seja o problema, ela é um meio para podermos recomeçar tudo novamente.

Um outro lugar, um outro tempo

Por meio dos livros podemos sonhar, imaginar e pensar em outras possibilidades. Ele nos permite ter um tempo para pensarmos em nós mesmos, com ele podemos parar para refletir sem precipitação.
No meio rural, uma senhora comenta sobre esse assunto: O tempo. Ela diz: “Na televisão é tudo rápido, a leitura deixa mais espaço para a imaginação do que a imagem. A televisão dá tudo mastigado, não deixa tempo para pensar, não somos habilitados pelos personagens, ao passo que quando lemos, repousamos o livro e pensamos nele durante o dia, no que irá acontecer”.
Apesar de muitos jovens na França dedicarem seu tempo mais a outras atividades do que aos livros, para eles os livros superam o audiovisual, pois os livros abrem portas para se sonhar. Devemos lembrar também que as invenções e descobertas, na maioria das vezes são realizadas em um momento de imaginação, de fantasia.
Desde os primeiros anos de vida, os bebês sentem uma atração pelas histórias e pelos livros. É por meio desses bebês que as mulheres, ou seja, as mães pouco a pouco vão se aproximando dos livros. Isso as ajuda sair do isolamento em que se encontram nos bairros marginalizados.
Hoje em dia, ainda vemos leitores e sonhadores serem considerados antissociais. No entanto os jovens que lêem são os que mais sentem curiosidade pelo mundo real, pela atualidade e pelas questões sociais, passam longe se serem antissociais, ao contrário, esses gestos solitários faz com que eles descubram o quanto podem estar próximos das outras pessoas.
Muitas pessoas comentaram a importância de terem tido acesso a leitura, alguns dizem: “Passamos a ter menos barreira”, “Aprende-se a ser mais aberto, mais tolerante”, “Ir mais longe, não ficar naquilo que nos dizem”. Esses são apenas alguns comentários dentre vários que explicam os benefícios da leitura.
“A leitura e a biblioteca são, desse modo, lugares onde alguns encontram armas que os encorajam na afirmação de si mesmo, onde se distanciam do que haviam conhecido até então”.


Conjugar as relações de inclusão

“Neste sentido, um aspecto que me pareceu notável é que, graças às leituras, muitos jovens descendentes de imigrantes são capazes de conjugar os universos culturais a que pertencem, ao invés de deixarem que estes universos se hostilizem entre si”.
Apesar das diferenças que marcam a história e a evolução de nossa sociedade, muitos de nós se encontram entre várias culturas. Os jovens, filhos de pais que imigraram relatam constantemente o sofrimento que é viver entre dois mundos. Esses mesmos sentem medo de trair suas famílias e seu país de origem.
A leitura e as bibliotecas ajudam essas pessoas a fazerem algumas descobertas, e o fato de estar entre duas culturas, passa a ser para eles uma riqueza e não um sofrimento.
Os imigrantes encontram nos livros uma forma de conhecer um pouco mais seu país de origem, e acabam se interessando também em conhecer a história do país em que agora vivem.
O desejo de conhecer suas origens é real, os pais muitas vezes analfabetos, não conseguem repassar a seus filhos, costumes e partes da cultura do país que deixaram para trás. Os livros é um meio para que esses jovens esclareçam suas duvidas.
Saber combinar, mesclar é um gesto de toda cultura. É o que diz Jean-Luc Nancy: “O gesto da cultura é em si mesmo um gesto mestiço: é afrontar, confrontar, transformar, reorientar, desenvolver, recompor, combinar e fazer bricolagem”.

Círculos de pertencimento mais amplos
“A lição que a leitura nos ensina pode ser ainda, como dizem muitos, a de que antes de pertencer a este ou àquele território, somos seres humanos”.
Ler, é uma forma de socializar, é poder conhecer pessoas e histórias de nossa época ou de épocas passadas, é uma forma de compartilhar e adquirir conhecimento.
“A pobreza e a ignorância tornavam a vida mais difícil, mais insípida, fechada em si mesma; a miséria é uma fortaleza sem ponte levadiça”. É o que escreveu Albert Camus, em O primeiro homem. Como sempre, sofrer com a reclusão e o isolamento é o que está destinado aos pobres.
A leitura é um meio de rompermos esse isolamento, pois ela nos possibilita ter acesso a espaços mais amplos. É um modo de nos distanciarmos desse mundo que às vezes se mostra tão cruel, ou seja, é uma maneira de viajarmos para outro mundo sem sair do lugar.
Na França e alguns outros países, profissionais da leitura organizam debates e animações em torno dos livros. Essas animações são apreciadas por muitas pessoas, com isso esses profissionais recebem total apoio do poder público, que esperam que a cultura repare essa sociedade que está se desfazendo.
Por meio da leitura, os jovens e todas as pessoas em geral permitem se transformar. Essas transformações ocorrem em todos os aspectos de nossa vida, desde o meio familiar até a maneira de enxergar nosso país.
Ler pode fazer com que uma pessoa saia do caminho que haviam traçado para ela, lhe dá o direito de poder tomar decisões para que não fique submisso a ninguém .
Entretanto, devemos ficar espertos, porque do mesmo modo que existe uma leitura que auxilia em nossa construção e faz com que possamos nos abrir para o mundo, há também a que nos derruba e nos faz regredir.
 
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Terceiro encontro

O medo do livro

A leitura pode ser um caminho para diversas mudanças. Pode tornar ativa a cidadania, a vontade de mudança e a capacidade de fazer a mudança acontecer. Todos podem ser transformados pela leitura; basta ter um mínimo de escolaridade. E quem não tem, basta querer ter, há muitas oportunidades nos dias de hoje.
A difícil libertação do espírito de grupo
“Espírito de grupo” entre outros sentidos variantes é gostar de se exercitar, trabalhar em grupo, com o auxílio de outras pessoas. Isso é que torna a tarefa mais fácil e a vontade de libertação mais difícil. Se você pode ter ajuda ou companhia por que fazer sozinho não é mesmo? Saber trabalhar harmoniozamente em grupo é importante, mas saber trabalhar e lidar com os obstáculos sozinho é fundamental!
Na zona rural, mesmo com o maior nível de escolaridade, a leitura é pouca práticada, pois há obstáculos na vida leitor de zona rural. “Esses obstáculos não eram apenas físicos, não se tratava unicamente da distância geográfica das livrarias ou bibliotecas. Eram também obstáculos sociais, culturais e psíquicos”.
Muitas pessoas não leem, pois: “Ao ler, a pessoa se entrega a uma atividade cuja ‘utilidade’ não é bem definida”. Segundo o seu próprio pensamento sobre leitura, desfavorecido de argumentos favoráveis e gosto pela cultura escrita.
Ao se comunicar com a leitura, moradores de locais mais isolados, desprovidos de recursos econômicos, sentiam-se mais abertos a mudanças. É isso que a leitura faz, proporciona novas possibilidades aos que se rendem a ela.
Do lados dos poderes: O pavor de que as linhas se movam
“As pessoas detentoras do poder-político, religioso simbólico ou doméstico”. Sentem-se ameaçadas pelos livros. Pois eles evocam o pensamento mais amplo, a vontade de mudança maior, as argumentações mais consistentes, a cidadania mais ativa. E assim, consequentemente, os governantes perdem o controle sobre o indivíduo, que não se deixa mais ser controlado, e luta por seus direitos!
O livro pode influenciar, criar novos pensamentos, e modelar os antigos. É  isso que a leitura nos oferece: novos pensamentos, através do conhecimento!
Antigamente, as mulheres eram proibidas de ler. “Seria preciso proibir que todas as mulheres tivessem acesso à escrita e à leitura. É um modo de restringir suas idéias e limita-las aos cuidados úteis da casa”. Escravos eram privados da leitura. “Os proprietários de escravos temiam que os negros encontrassem nos livros ideias revolucionários, que pudessem ameaçar seu poder.” O sistema de ensino Árabe condicionava as crianças ao minímo de conhecimento possível, durante os quatro primeiros anos de escola. Elas não tinham contato com a leitura, não ouviam e nem liam textos.
Trair os seus?
Um obstáculo encontrado na vida dos jovens é o julgamento da família. Eles menosprezam a leitura, por achar que não é uma coisa útil em nossas vidas.
Alguns pais imigrantes da África do Norte afetavam o aprendizado das crianças. O professor contava uma história e, em casa, os pais destroiam a imagem passada pelo professor. Diziam ser bobagem o que eles disseram. Julgavam desnecessário o aprendizado das crianças na escola.
“E realmente medo o que sentem; como não conhecem, colocam uma barreira.” E assim dificultam ainda mais a relação entre livro e criança, pois não a apoiam.
“Introduzir conhecimentos ou valores novos pode ser percebido como algo perigoso, que desestabiliza demais um universo frágil”. Na visão dos pais, a leitura não é vista como algo proveitoso. Pelo contrário, acham até que a leitura pode “roubar” seus filhos, desviá-los dos caminhos que seus pais traçaram.
Entretanto, em algumas famílias de outros países, o discurso se inverte: eles insistem tanto para que os filhos leiam e acabam fazendo os filhos se afastarem.
“Hoje em dia se tem a impressão de que é entre o ‘proibido’ e o ‘obrigatório’ que o gosto pela leitura deve se dar.”
O medo da interioridade
Em algumas sociedades, além do julgamento dos pais, havia o dos colegas de classe, e amiguinhos de bairro.
Existia um tabu não apenas no ponto de vista dos pais, mas também no de algumas crianças. A leitura era como um tabu para eles e os colegas de classe. Quem lia era considerado um traidor, e “se achava melhor que os outros”, para as crianças que não liam.
Alguns leitores, sentiam-se envergonhados por ler, e acabavam se escondendo, tomavam o máximo de cuidado para que ninguém os visse entrando em uma biblioteca. “Nos meios populares, mas não só neles, existe a idéia de que ler efeminiza o leitor”.
No meio popular, as pessoas sentiam medo do que o leitor poderia fazer entre as páginas.
O que, geralmente, movia o jovem a buscar um livro era a curiosidade, ou então, a necessidade de obter alguma informação. O primeiro contato era, inicialmente, com o dicionário. Depois, em alguns casos, os jovens buscavam livros específicos, escondido de seus colegas.
“Na realidade, nos meios populares, não é qualquer rapaz que vai seguir o caminho da leitura. Com frequência é aquele que, por alguma razão, se diferencia do grupo”.
São poucos que criam o gosto pela leitura!
A leitura era vista como uma pratica feminina. Os rapazes que liam eram mal vistos para os outros. Eles estavam sendo feminilizados. Por isso, os rapazes tentavam evitar a leitura. “Preocupados com a perda de sua virilidade”.
Hoje, muitas pessoas dizem não ler por não ter tempo. Mas, quem quer arruma um jeito; quem não quer arruma uma desculpa.
Como nos tornamos leitores
O “tipo” de sociedade à nossa volta influência no aspecto de “como nos tornamos leitores”.
Se o individuo vive em meio a grupos providos de dinheiro, se vem de uma família com poder aquisitivo, ele não encontra os obstáculos que um morador de bairros marginalizados encontra. O de classe social mais elevada tem facilidade em se tornar leitor. Mas, isso não quer dizer que, por ser desprovido de recursos econômicos, não tenha o acesso a livros. “Mas os determinismos sociais não são absolutos: na França um terço dos filhos de operários lê ao menos um livro por mês, e um terço dos filhos de executivos lê menos de um livro por mês”.
Muitas pessoas limitam sua própria leitura, leem apenas quando necessário, não usufruem da leitura como uma forma de lazer.
Quando se é criança ver o pais lendo, pode ser uma forma de tornar-se leitor. A criança sente curiosidade, vontade de se envolver no exercício do pai. “O exemplo dos Pais é fundamental”.
Um entrevistado por Petit diz ter dez irmãos e irmãs e, embora sejam filhos dos mesmos pais, não se parecem, nem fisicamente. Ele gosta de ler, os outros não. Daoud: “Isso faz parte das maravilhas da vida: Uns nascem Hitler, outros, Mandela”.

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Bianca: resumo - Prefácio à edição brasileira

A leitura tem o poder de despertar em nós sentimentos e sensações que não conseguimos expressar, ler nos mostra o mundo de uma maneira que, às vezes, não conseguimos enxergar.
Michèle Petit cita que a leitura despertou-lhe um continente que ela tentará esquecer: a América Latina. Ela morou na Colômbia dos treze aos quinze anos. E revela que deixar esse país e mudar-se para França foi um sofrimento, chegou a pensar que nunca mais cruzaria o Atlântico.
Passaram-se décadas até que em um dia de 1998, um editor mexicano, Daniel Goldin, convidou-a para ir a seu país dar uma palestra sobre leitura. Ela não imaginou que essas palestras se tornariam um livro, e que esse livro viajaria por toda a América de língua espanhola.
“Hoje é no Brasil que tenho a oportunidade de ver meu livro publicado em uma das línguas mais belas da terra”, disse Petit que, em São Paulo, pôde conhecer histórias e paisagens que, até então, eram desconhecidas para ela.
Relendo alguns capítulos de seu livro, a autora relata que pensou muitas vezes nas cenas de violência de que as periferias urbanas francesas foram palco em 2005: o mundo todo viu carros, escolas e algumas bibliotecas serem incendiados.
Por conta de uma ordem lançada em 1985, os filhos das classes populares foram estimulados a prosseguir os estudos para não engrossar o número de desempregados entre os jovens. Desse modo, o ensino foi conduzido a passo forçado, sem oferecer os meios pedagógicos para acolher esses estudantes, que ficaram com a impressão de que foram iludidos pelas escolas.
As bibliotecas estão colaborando para mudar a atitude dos jovens em relação à leitura. Durante uma entrevista, muitos deles disseram que, vivendo em bairros marginalizados, iam a bibliotecas para estudar, pois ali encontravam um profissional pronto para aconselhá-los e protegê-los das ruas.

Primeiro encontro:

AS DUAS VERTENTES DA LEITURA

Em sua infância, a autora viveu cercada de livros e, diariamente, via seus pais com um livro nas mãos. Isso a ajudou se tornar uma leitora. Ela diz que foi na América Latina que descobriu as bibliotecas, pois, na França, esse local ainda era sombrio e o acesso aos livros era restrito.
A juventude se tornou uma preocupação mundial! É trágico ainda vermos muitos desses jovens serem mortos, feridos e perdidos no mundo das drogas, pois é neles que depositamos a esperança de um futuro melhor.
O problema é que a leitura foi perdendo espaço entre a juventude, de vinte anos para cá, o número de jovens leitores diminuiu quando se deveria ter aumentado devido à maior escolarização, os livros simplesmente foram trocados pelos esportes e as tecnologias em geral.
Segundo George Steiner, nos Estados Unidos, 80% das crianças não sabiam o que significava ler em silêncio. Liam próximo a televisão ou escutando música, ou seja, não conheciam a experiência que é ler sozinho, realmente em silêncio.
As duas vertentes da leitura.
Para iniciar as duas vertentes da leitura, a autora se baseou em relatos de pessoas de diferentes níveis sociais, que moravam no campo e gostavam de ler. Esses relatos falam em particular da experiência dessas pessoas com o livro e com a leitura.
Antes de trabalhar com a leitura, Michèle Petit participou de uma pesquisa sobre os empresários chineses. Constatou que qualquer ser humano preocupado com a sua influência sobre seus semelhantes compreende, naturalmente, essa função mandarim da escrita. Um exemplo disso foi dado por uma garota de sete anos chamada Emilie. Ela conta que uma de suas amigas passava o tempo lendo para assegurar seu poder. Aos sete anos, ela já compreende que a manipulação da escrita é um instrumento decisivo de poder.
 Em Uma história da leitura, Alberto Manguei lembra que, tanto o chicote como o livro, foram durante séculos, o símbolo daquele que ensinava a ler. É, por isso, que no início o aprendizado da leitura muitas vezes causava um receio entre os leitores.
Não se pode controlar o que cada leitor entenderá do texto, ou qual sentido dará ao mesmo, é por essa razão que se teme o acesso direto aos livros.
O leitor “trabalhando” por sua leitura
Nessa segunda vertente da leitura, Petit fala sobre o diálogo entre o leitor e o texto. Como já havia dito, o leitor muda o sentido, distorce e entende de sua maneira o texto que está lendo.
Durante as entrevistas, vários jovens contaram sua experiência com a leitura, um deles relatou que não vê a leitura como uma diversão.  Para ele, a leitura é algo que o constrói, e a biblioteca o permitiu imaginar filmes e fazer seus próprios filmes como se ele fosse o diretor.
Petit citará agora o escritor Patrick Chamoiseau, em seu livro Escrever em país dominado, fala-se sobre a sensação de ser prisioneiro do traçado das letras dos outros, até o momento que a escrita do outro lhe permite encontrar suas próprias palavras, seu próprio modo dizer ou escrever. Relata a história de uma prisão onde trabalhou como educador e de um jovem detento para quem levava livros escondidos.  Esse rapaz lia obras de grandes escritores como V.S Naipaul, lezama Lima, Nicolas Guillen, Jorge Amado, entre outros. Aos poucos, a leitura-escrita teve o potencial de despertar desejos e anular os rancores, que a prisão poderia ocasionar a esse jovem.
Passaremos agora da leitura em geral, para a experiência em particular que é a leitura de uma obra literária. Na literatura o escritor faz um trabalho de modificação da língua, como Michèle Petit não considera qualificada para examinar a experiência da leitura literária, não irá se aprofundar nesse tema; citará apenas partes desse assunto.
Podemos dizer que é o texto que “lê” o leitor, ele sabe nomear regiões que o próprio leitor não saberia. O texto consegue revelá-lo, assim os escritores buscam, acima de tudo, colocar palavras em locais que nos desperta dor. Alguns desses escritores falaram sobre isso, como Rilke, no início de Os cadernos de Malte laurids Brigge. Ele diz “Fiz algo contra o medo. Fiquei sentado e escrevi”, ou como o escritor austríaco, que observa: “Com minhas palavras, desenho uma prisão ao redor do temor”.
Muitas vezes, só conseguimos escrever nossas próprias histórias, por conta dos escritores, eles conseguem nos tocar de uma maneira diferente.
O espaço íntimo que é aberto pela leitura não é uma ilusão, permite-nos fugir para um lugar em que não se depende dos outros; é uma alternativa quando achamos que não se tem solução. E como diz Salman Rushdie: ”Por meio das histórias, nos construímos”, podemos citar ainda fragmentos da nossa vida que também fazem parte dessa construção.
Essas são algumas partes sobre a experiência da leitura de obras literárias. A autora apoiou-se muitos nos leitores mais cultos, mas fala que leitores de meios sociais desfavorecidos dizem coisas parecidas.
Nos dias de hoje, uma pessoa que não teve acesso à escrita por qualquer motivo, fica excluída do mundo. Muitas delas até se sentem menos dignas por esse motivo. A pobreza na maioria das vezes é a responsável por essa restrição, pois muitos têm que abandonar a escola para trabalhar. Ser pobre impede esses cidadãos de participar de uma sociedade, de ter conhecimento e de ser compreendido.
Do lado dos leitores
Voltando ao seu propósito inicial, a autora fala que, na França, em relação à preocupação com a juventude, muitos sentiam saudades de uma leitura que permitisse moldar e dominar os jovens. A juventude que causa preocupação na França é a juventude que vive nos bairros marginalizados. E a que sempre a mídia associa à violência ou ao envolvimento com as drogas.
Foi ao longo de uma pesquisa realizada para o Ministério Francês da Cultura, que Petit compreendeu melhor o que está em jogo com a democratização da leitura. Revela que foi durante a pesquisa que sua compreensão em relação a esse assunto melhorou. Tanto nessa pesquisa quanto na da leitura em meio rural, ela se colocou do lado dos leitores. Resolveu nos contar um pouco sobre seu procedimento e o que ocorreu por trás dessa pesquisa.
Para começar, antes de responder às propostas do Ministério da Cultura, ela buscou encontrar a adolescente que existia dentro de si, assistiu a filmes sobre a adolescência e a juventude. Relata que, nesse período adolescentes, tem a impressão de que o mundo está cheio: Ficam se perguntando onde poderão se encaixar em meio a tudo isso, observando que a adolescência para todas as épocas, é um momento em que se tem que lidar com as transformações repentinas do corpo, em que a insegurança e o medo da solidão são algo frequente.
Assistiu inclusive, a um programa de televisão que falava sobre um cantor rap, muito conhecido na França, chamado MC Solaar. Era um adolescente crescido na periferia. Contou como foi o dia em Paris em que entrou em uma grande biblioteca. Sentiu-se sentiu livre naquele local, pois não tinha obrigações escolares e podia escolher os livros que quisesse. Foi assim que ele tomou gosto pela leitura e por escritores, principalmente pelos mais difíceis.
Foi com a história desse cantor que Petit escreveu a introdução do projeto. Essa pesquisa foi realiza por ela e mais quatro pesquisadoras, Chantal Balley e Raymonde Ladefroux, geógrafas; Gladys Andrade, sociolinguista; Isabelle Rossignol, que havia terminado uma tese sobre ateliês de escrita, e Michèle Petit, que fez a abordagem antropológica.
Estudaram qual poderia ser a contribuição das bibliotecas públicas na luta contra o processo de exclusão e marginalização, buscando saber o que faziam com o conteúdo da biblioteca, e o que isso mudava em suas vidas.
Foram ouvidos noventas jovens, que de um jeito ou outro teve a vida mudada por uma biblioteca. Eles tinham, entre quinze e um pouco mais de trinta anos, e moravam em seis cidades localizadas em diferentes níveis sociais. Essas entrevistas foram completadas com observações de diferentes bibliotecas. Foi estudado também a questão econômica, social, cultural e política de cada lugar em que pesquisaram. Tudo isso as permitiu entender melhor a participação das bibliotecas no processo contra a exclusão e a marginalização.
Os jovens, como as outras pessoas, sentem a necessidade de se expressar bem, de mostrar como eles são, e tem necessidade de sonhar e de serem ouvidos.

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Terceiro encontro
O MEDO DO LIVRO
Como já havia dito, a leitura nos transforma, muda nosso pensamento e o nosso modo de enxergar o próximo, mas, com tudo isso, ainda encontramos pessoas que sentem medo do livro. Essa sensação de medo não atinge somente os jovens. Ela está presente nas famílias, no bairro em que moramos e até mesmo entre os professores. Sentir medo do livro é algo que não deveria ocorrer, pois o acesso aos livros deve acontecer de modo totalmente natural.
“Entretanto, praticar a leitura pode se revelar impossível, ou arriscado, quando pressupõe entrar em conflito com os modos de vida, com os valores próprios do grupo ou do lugar em que se vive”.

A difícil libertação do espírito de grupo
Apesar da população rural de algumas regiões da França ter sido escolarizada desde antes da Revolução Francesa, a leitura não se tornou uma prática comum entre os moradores desse espaço.
Muitos dos agricultores apontam um caminho cheio de obstáculos quando se pede a eles, relatos de como adquiriram o gosto pela leitura. Esses agricultores sofriam com a dificuldade de se ter acesso às bibliotecas. E encontravam em seus caminhos também, os obstáculos sociais e culturais.
A leitura para eles não tem uma utilidade definida. Por isso, deixam de ler para se dedicarem a afazeres que consideram mais úteis, como construir e reformar a casa e fazer trabalhos manuais.
Muitos nomeiam a leitura com o adjetivo inútil, porque ler é um prazer solitário onde o leitor se distrai e se afasta do grupo. Por esse ato, são julgados como isolados.
No meio rural, esse “isolamento” não era bem visto. Nesse local, as pessoas dão preferência às atividades compartilhadas. Porém, é isso que faz com que a leitura se distancie desse meio.
No campo, durante muito tempo, os textos impressos só chegavam às mãos de quem tinha o poder, nessa época a Igreja Católica, em particular, condenou as leituras não controlada da Bíblia e queriam que a leitura se tornasse um gesto unicamente coletivo.
Devido a isso tudo é comum ainda vermos pessoas se escondendo para ler. Muitos de nossa sociedade ainda consideram a leitura uma bobagem. E que quem lê não faz nada da vida, é o que relata a esposa de um agricultor:
“É a mentalidade daqui: não se perde tempo lendo ou fazendo palavras cruzadas. Sempre tem gente que passa e diz: ‘É incrível, ela não faz nada enquanto seu marido se acaba no trabalho!’. Quando vejo alguém chegando, escondo o livro. Vejo quem vem. Estou sempre alerta. Ao menor ruído... me aprumo”.
A resistência à leitura acontece, porque, com ela, as pessoas criam vínculo com uma sociedade. Os poderes autoritários se sentem ameaçados e buscam formas de controlar a utilização da linguagem impressa.

Do lado dos poderes: O pavor de que as linhas se movam
Todos que têm o poder em suas mãos sentem medo de perder seu lugar para as pessoas que buscam o conhecimento e que tentam, de alguma forma, ultrapassar as barreiras que são impostas por esses que querem nos dominar.
Podemos usar, como exemplo, o fato de que tempos atrás só os homens tinham acesso à leitura. Essa foi uma tentativa de fazer com que as mulheres ficassem submissas aos homens, tendo como única função os afazeres domésticos.
Outro exemplo é o da lei que proibia os negros de terem o aprendizado da leitura. Naquela época, os proprietários dos escravos tinham medo de que eles encontrassem, nos livros, algo que pudesse reverter a lamentável situação que viviam. Temiam que esses escravos viessem a ameaçar seu poder.
Na Argélia, a mais de trinta anos, o governo adotou o sistema de ensino do árabe, justamente para impor uma limitação no enriquecimento da língua. Durante os quatros primeiros anos de escola, esse sistema “proibia” as crianças de ler e de ouvirem qualquer tipo de texto. Seu ensino tinha como método, somente, o audiovisual.
Com tudo isso, podemos observar que os que estão no poder tentam de qualquer forma limitar o aprendizado de nossa sociedade, simplesmente pelo fato de sentirem medo de que o povo alcance seu poder.
Trair os seus?
São poucas as pessoas que sentem interesse pelas bibliotecas e pelos livros. A maioria de nossa população nem nunca passou pela porta desse local. Talvez, um dos motivos para que isso ocorra é porque como no meio rural, muitos não consideram a leitura algo útil. Ou ainda isso pode acontecer por conta do medo do livro, medo de conhecer algo novo, que possa nos levar para outros lugares.
Os pais, antigamente, temiam perder seus filhos para os livros, queriam manter principalmente as meninas longe da leitura, pois não desejavam que elas desviassem do caminho doméstico que já haviam traçado para elas. Mas, essa visão em relação aos livros pouco a pouco foi mudando. E esses pais que não queriam seus filhos perto de uma biblioteca viraram seus maiores incentivadores.
Nos bairros populares franceses, muitos pais também não estavam contente com o fato de terem filhos leitores.  Acontece que, nesse caso, há uma porcentagem de egoísmo por parte dessas pessoas. Elas, simplesmente, não queriam ser superadas pelos seus filhos, queriam redimi-los a um aprendizado inferior ao seu.
Por meio das escolas, os jovens encontraram um meio de fugir do destino que estava pré-determinado a eles. Mas, dentro desse meio escolar, há pessoas que contribuem para que a escola funcione de forma errada, e faz com que ela trabalhe como uma “máquina de exclusão”. Muitas vezes é por conta disso que a juventude que mora nos bairros marginalizados tem como destino as escolas desqualificadas.
Para muitos, os livros trazem péssimas recordações da escola, desde humilhações até aborrecimentos. Manter distância dos livros é, considerado por eles, o melhor caminho para se esquecer esse passado.
O medo da interioridade
O medo da interioridade ocorre com mais freqüência entre os rapazes, pois, além dos pais que temem que os livros levem seus filhos para longe, há os amigos que rejeitam a escola e, consequentemente, a leitura. Esse é um dos motivos de vermos cada vez menos garotos se interagindo com a leitura.
Quem lê ou quem estuda é colocado de lado pelos grupos populares da escola. Esses que buscam um futuro melhor são considerados traidores e puxa-saco.
Os rapazes sentem medo de que a leitura possa ocupar um espaço vazio que existe dentro de si e que ela ainda, tire sua masculinidade. Assim o afastando do seu grupo de amizade. Mas, existem as exceções, os rapazes que, por algum motivo, adquiriram o gosto pela leitura e até passaram a escrever poesias.
Richard Hoggart, um entrevistado, se diferenciou de seus amigos e escreveu sua autobiografia. Ele diz:
“Precisava descobrir algo por mim mesmo, desviar-me do caminho traçado, realizar minhas próprias descobertas, encontrar minhas próprias inspirações, fora daquilo que os professores propunham e muito além do que diziam a maior parte de meus colegas. Esse caminho passava pela biblioteca municipal...”.
Existem pessoas que consideram a leitura como um exercício vital. Dizem: “se a pessoa não lê, morre; ler alimenta a vida”.
É comum encontrarmos pessoas que dizem não ter tempo para ler. Acredito que isso não passa de uma desculpa de quem busca de alguma forma fugir dos livros, porque tempo todos nos temos, basta sabermos administrá-lo.
Quem adquire o gosto pela leitura chega a compará-la com uma “droga”, pois ler acaba se tornando “um vício” do bem. Esse é o único, “vício” que só tem a acrescentar em nossa vida.
Como nos tornamos leitores
Há quem encontre algumas dificuldades para se tornar um leitor. Isso acontece na maioria das vezes por conta das questões sociais, que atinge frequentemente os meios mais pobres.
É importante que as crianças tenham contato com os livros desde a infância, para que, futuramente, possa se tornar um leitor. É preciso haver o incentivo dos adultos ao longo dessa caminhada. São esses gestos que, possivelmente, fará com que a criança desde pequena associe o livro a algo bom. E no futuro, possa usá-lo a seu benefício.
Nos bairros marginalizados, pais analfabetos incentivam seus filhos a ler. Eles querem ver seus filhos adquirindo conhecimento e se tornando sábio, pois acreditam que, assim, possam se tornar mais dignos. Esses pais analfabetos, muitas vezes, valorizam o conhecimento e os livros muito mais do que aqueles que concluíram seu percurso escolar.
Quando não há incentivo dos pais para que seus filhos pratiquem a leitura, são os professores que desempenham esse papel. Esses professores podem mudar o futuro desses jovens, tornado-os pessoas de bem, colaborando no seu  crescimento interior e fazendo com que esses alunos valorizem o ensino que tiveram ou que ainda têm.

 







 












 







aNDREA E BIANCA e resumo de outros autores
Enviado por J B Pereira em 17/12/2014
Reeditado em 17/12/2014
Código do texto: T5072105
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
J B Pereira
Piracicaba - São Paulo - Brasil
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J B Pereira