Aí então...
...as pessoas caem da cama e acordam. Depois de uma década em sono profundo. Depois de sonharem durante uma noite conturbada, repleta de pesadelos esverdeados e vermelhos-ferrugem. Uma névoa mental com cheiro de fuligem paira sobre seus pensamentos. A noite pareceu ter durado 6.000 anos, mas finalmente acabou.
Aí então, todos os homens, mulheres e crianças do mundo - alguns nem tão homens, nem tão mulheres e, surpreendentemente, nem tão crianças - arregalam os olhos enlameados pela goma onírica, e bocejam em silêncio perplexo. Morreram centenas de vezes em suas vidas ilusórias. Vidas curtas demais, que perdiam o sentido a cada tentativa. Muitas vezes tentaram gritar para acordar a si mesmos, mas o máximo que conseguiam era um curto período de real consciência. Curiosamente desencadeado pela morte de suas projeções oníricas.
Aí então, vislumbraram o quão distante de sua real essência foram seus atos naquele mundo de pesadelos. Haviam tornado-se monstros. Crias de carne, suicidas, que se intoxicavam por prazer, e depredavam o mundo virgem. Moldaram os sonhos em horrores, para depois fugirem para lugar nenhum.
Aí então, levantaram. Lívidos. Completos. Mortos antes de viverem; vivos sem temer a morte. Talvez nem todos tenham aprendido as lições que o mundo duro de seus sonhos tinha para ensinar. Mas desta vez não errariam novamente.
Aí então, mais perto de seu criador, humildes e sábios, olharam para os céus e para os semblantes de seus iguais. Todos tão idênticos, e tão diferentes. Perfeitos onde o limite de suas perfeições os limitava. Redundantes. Mas não se deram conta de que haveriam outros passos em seus caminhos. Outros sonhos. Não se deram conta de que ainda estavam dormindo. Não eram, de fato, perfeitos. Jamais seriam.
Aí então, seu criador - juntamente com toda a criação - sorriu orgulhoso. Como um pai que admira o mais largo passo das encurtadas pernas de seus filhos. Uma medíocre e ínfima evolução no caminho sem fim. Ainda assim digna de um sorriso.
Aí então... continuaram seu sono. Ainda acreditando estarem acordados.