ALMA FALA (BVIW)

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ALMA FALA

 

Os portões das casas estão fechados. As portas das lojas também. As saídas para outros municípios são vigiadas. Ninguém entra, ninguém sai. Em vão canta, com sua bela e inconfundível voz, o saudoso Luiz Melodia: “(...)Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí...”, porque não iremos a lugar nenhum. É dar um passo fora do limite permitido, e meia-volta volver! Então eu fico em casa, e vou ver as flores, os passarinhos, os livros silenciosos querendo ser tocados. Enfim, imagino algo para trazer o mundo lá de fora para dentro de mim, e deste modo vejo as ruas cheias de gente feliz, de ar renovado, respirando fundo a liberdade sem máscaras, e eu abraçando sem medo de morrer ou de me sentir culpada pela partida de alguém querido. Tenho ido por aí numa viagem introspectiva, visitando meu interior, e me redescobrindo. Há lugares obscuros habitados por lembranças doídas, a ausência de seres amados ainda incomoda. Em outro local, encontrei a frustração que insiste em perturbar meu sossego. Em contrapartida, vi tanta luz no cantinho reservado, onde deposito fé. E mesmo ocupando pequeno espaço, essa luz consegue me iluminar quase que por completo, porque seu poder é imenso. No momento, fico por aqui em reclusão no lar, mas a alma me anima:

 

 — Aos poucos, qual Fênix, ressurge o brilho nos olhos, o sorriso na face, a paz no espírito. A esperança sendo escora para a vida seguir seu curso.