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Pandemia de egoísmo, insensibilidade e indiferença

Esses dias fiz uma postagem em minhas redes sociais ressaltando que, nos recordes de óbitos nesta pandemia aqui no Rio Grande do Sul, ocorridos nos dias 22 e 29 de dezembro (101 e 144 mortes, respectivamente), 80% eram de idosos acima dos 60 anos, que representam 14% da população gaúcha. Dois amigos comentaram-na dizendo que dar esse tipo de informação incentivava o pessoal mais jovem a sair para a rua e não se cuidar. Discordo deles, claro, pois, se concordasse, não a teria feito.

Pelas características que essa pandemia apresenta no mundo, viu-se que a ação humana é fundamental para o controle do seu espalhamento, muito mais do que qualquer outra variável. Dos governos, espera-se planejamento, ações e exemplo; da população em geral altruísmo, sensibilidade e empatia, em suma, solidariedade social. Aqui no Brasil, contudo, pelo que temos visto nos últimos meses e no final do ano, ocorre justamente o contrário e, por resultado, o país entrou numa segunda onda sem sair da primeira e o RS tem agora o seu repique mais forte do que o que era para ter sido o "ponto alto", no inverno passado. Assim, a pandemia mais nociva contra a vida e a saúde das pessoas dos grupos de risco nem parece ser a do coronavírus, mas sim a da falta de uma atitude humana de parte da população. E disso os meus dois amigos não se deram conta e que a imagem acima, tirada dia 30 de janeiro na praia de Capão da Canoa pela RBS e divulgada pelo site G1, revela.

Na minha postagem, ressaltei outro dado que, somado ao óbito gigantesco dos idosos, também os incomodou: não aconteceram mortes entre pessoas abaixo de 29 anos e quatro ou cinco na faixa etária de 30 a 39 anos - e o incômodo não foi, graças a Deus, por não acontecerem óbitos nesse grupo, mas sim por eu ter destacado isso. Considero ingênuo da parte dos dois achar que essas pessoas não sabem os riscos dessa pandemia para a faixa etária delas, supor que evitar esse tipo de informação sobre a incidência percentual da letalidade da Covid-19 sobre determinados grupos faria com que as pessoas mais jovens ficassem em casa, por medo do desconhecido. Isso é ignorar que os jovens de hoje não são mais como aqueles nascidos nos anos 1950, 60 e 70, que perguntavam as coisas para os pais. Estamos na revolução digital e as gerações que a viram surgir ou vieram ao mundo já sob a sua vigência podem até não possuir instrumentos teóricos para lidarem devidamente com determinadas informações, mas sabem perfeitamente buscar no mundo virtual toda que precisem num clique, sendo as da pandemia apenas mais uma. Eles não ignoram nada, sabem tudo, por isso foram o grosso do povo que lotou as praias no réveillon. Não é um problema de ignorância, mas de formação científica, intelectual, ética e moral. Ou alguém aí acha que se as 80% das vítimas de Covid-19 fossem as pessoas mais jovens, elas estariam nas praias, festejando? Óbvio que não, pois ninguém quer morrer. Só quem se sabe "seguro" se dá ao "direito" de ser irresponsável e insensível durante uma situação dessas. Só quem sabe perfeitamente que, se adoecer, terá prioridade no tratamento sobre as pessoas do grupo de risco, arrisca-se assim para poder se divertir.

Quando um jovem dessa faixa etária, o maior jogador de futebol brasileiro da atualidade, fez uma salomônica festa de "Ano Novo", por sete dias e para 500 convidados no Rio de Janeiro, é porque sabe exatamente como as coisas estão, mas não liga e prioriza o seu prazer em gozar a vida como pode, na sua plenitude. E, mais do que dar um mau exemplo, está em sintonia com o comportamento de muitos outros da mesma idade, pelo que vemos. Pior é quando o Presidente da República faz uma live com o jovem craque e pergunta, fazendo humor, como foi a festa, se ele pegou mulher nela. Isso sim, um grotesco mau exemplo de ambos, que vem "de cima" (?): o primeiro, por validar aglomerações que deveriam ser evitadas durante uma pandemia mortal; o segundo, por se prestar a ser garoto propaganda da irresponsabilidade social desumana, já que, no fim da ponta de ações insensíveis como essa, estão os 195 mil óbitos brasileiros, sobretudo das pessoas dos grupos de risco. Deboche e escárnio para com os mortos, seus amigos e familiares e para com os profissionais da saúde em risco e sobrecarga, coisa repugnante e revoltante.

Sobre esses óbitos, o ex-ministro da Saúde Nelson Teich - o último antes do ministério e da Anvisa serem insensatamente aparelhados por militares do Exército - falou dia 25 ao site UOL que estima serem, na realidade, aproximadamente 230 mil, mais do que as 190 mil então oficialmente divulgadas, devido a subnotificação. Ainda dentro dessa lógica, o médico intensivista britânico Hugh Montgomery foi duramente categórico, ao mesmo UOL: "o aumento de casos e mortes é devido ao comportamento das pessoas e não à nova variante do vírus", e "pessoas que não seguem regras de distanciamento social ou não usam máscaras têm sangue nas mãos". Nesse mesmo compasso, a microbióloga brasileira Natália Pasternak, ao comentar sobre o uso de máscaras e de como lidar no cotidiano com quem se recusa a usá-la, vociferou: “Tem gente morrendo. Não tem humor, não tem leveza, eu não tenho que pedir permissão do outro para dizer que ele tem que usar máscara, que ele tem que fazer a coisa certa. Ele tem que tomar vergonha nessa cara que ele vai matar alguém”.

Nesse sentido o que meus dois amigos não viram em minha postagem foi a intenção de alertar as pessoas dos grupos de risco, principalmente os idosos, que devem se cuidar em dobro, tanto do vírus quanto daqueles que irresponsavelmente os espalham motivados pelo egoísmo, insensibilidade e indiferença, estimulados "de cima" justamente por pessoas que usam o nome Dele em vão por dinheiro e poder, à revelia do amor ao próximo e da caridade contida nos Evangelhos. Num país onde se "faz arminha" em uma marcha para "louvar" aquele que disse a Pedro "embainha a tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão", isso não surpreende em nada, como alertou o pastor Caio Fábio em um de seus vídeos no You Tube. As risadas de políticos e de alguns líderes religiosos que lá estavam só mostra um descompasso entre o que se "prega" e o que se "martela", "espírito" que repercute agora na festa do "menino" (?), não o Jesus, mas o jogador.

Cuidem-se bastante, protejam-se muito pessoas dos grupos de risco, e rezem para que Deus dê discernimento tanto social quanto cristão para os cegos da razão, para os consumidos pelo egoísmo hedonista desenfreado sem consciência e para os insensatos que promovem a morte com seu agir.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 04/01/2021
Reeditado em 04/01/2021
Código do texto: T7151454
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
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