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Tributo a William Lee... o herói das ruas de Sampa


 
No dia 03 de julho de 2017, o Brasil perdeu seu mais conhecido artista de rua, William Lee: um mineiro que adotou a cidade de São Paulo... as ruas e viadutos (no centro da pauliceia) como palco para desfilar sua arte mágica, encantando os que tiveram privilégio de assisti-lo.

Suas mãos possuíam habilidade raríssima, dedilhando uma velha guitarra de fundo branco, com contornos amarelo e preto. No instrumento acústico, via-se a figura de uma rosa vermelha e pequenos decalques de guitarras.
 
A técnica e o talento de William Lee são inquestionáveis, identificados nos maiores guitarristas do gênero. Isso é reconhecido por músicos de renome (Paulo Ricardo, ex-RPM), que se manifestaram sobre seus incríveis riffs, passeando com competência pelo rock, blues, baladas, soul, MPB...

Brincava com a voz, utilizando timbres graves ou suaves. Era capaz de fazer covers perfeitos de quaisquer intérpretes... dos nacionais aos estrangeiros mais populares, fosse em português, inglês ou italiano. Até cantou em francês, mas, “nunca se sentiu à vontade”, declarou em vídeo postado no Youtube.
 
Suas interpretações dos clássicos de bandas estrangeiras (Dire Straits, Pink Floyd, Eagles, Bee Gees) ou das brasileiríssimas (Nenhum de Nós, Titãs, Rádio Táxi)... de artistas solo, a exemplo do italianíssimo Eros Rammazotti e do inglês Eric Clapton... emocionam pela beleza incomum e leveza singular, acompanhadas de solos memoráveis da sua inseparável guitarra.

Tornou-se conhecido pelo público que transita nas artérias do centro de São Paulo e famoso pelas mídias sociais. Passou a ser requisitado para abertura de eventos empresariais e bailes de debutantes, inclusive, fora de São Paulo.
 
Aos poucos se tornou famoso na televisão. Fez apresentações em programas de expressiva audiência (Fátima Bernardes, João Kleber, Décio Piccinini, etc).

Vídeos no Youtube tiveram mais de 15 milhões de acessos... atraindo quase 100 mil seguidores, nas mídias sociais (INSTAGRAM, FACEBOOK e YOUTUBE). Sua desenvoltura sobre divertidos temas musicais, tornaram-se reverências aos adeptos do rock e da MPB.

Encantou o Brasil com um talento raro e carisma especialíssimo, chegando a ser lembrado em programas televisivos, noutros países.
 
Os compromissos se multiplicaram, mas, nunca deixou o palco das ruas. Esse era seu maior prazer e fonte inesgotável de felicidade, declarados em entrevistas a emissoras de TVs ou nas redes sociais.

Dizia... "nas ruas não ganho dinheiro, mas, sou feliz... proporcionando alegria e prazer a pessoas anônimas". O contato com o público era grande vitrine para outros trabalhos. Reconhecia!
 
Ocorreu um breve hiato nesse percurso. Em algum momento, desiludido com situações adversas, deixou sua arte, tornando-se vendedor de instrumentos musicais. Logo voltou a fazer o que lhe dava alegria e prazer: tocar e cantar nas ruas de Sampa!

William Lee tinha uma outra particularidade: vestia-se com simplicidade... muita simplicidade. Sempre de calças jeans, trajando camiseta com a imagens de bandas de rock ou de super-heróis das antigas... Superman, Batman, Capitão América, Homem de Ferro. Também, usava demais uma camisa amarela da Seleção Brasileira. Ah... gostava de usar um boné escuro, atribuindo-lhe aparência mais jovem e despojada.

Pelos trajes e repertório predominantemente rock... além dos logradouros públicos como palco para desfilar sua arte... passou a ser chamado "Herói das Ruas"... seus shows cognominados "Rock in Rua".

Eu tive o privilégio de assisti-lo. Foi uma única vez, lá no largo situado no término da passarela metálica do Viaduto da Santa Ifigênia - onde, muitas vezes, brindava transeuntes com solos de guitarra e interpretações personalíssimas. A predileção pelo local, é identificada em muitos vídeos no Youtube.
 
Mais que um privilégio, curti extasiado William Lee e sua magia. Era uma manhã fria, mesmo para padrões paulistanos. Tinha atravessado o viaduto em busca de um posto do Banco do Brasil, situado no interior de um velho prédio do INSS (vide imagem do artista).

Quando saí do edifício, William Lee organizava o palco de sua apresentação matinal. Na verdade, tudo muito simples: caixa de som, mesa de controle, o microfone, a guitarra... e  fundamentalmente sua ARTE e seu TALENTO.

Rapidamente, foram chegando pessoas. Muitas paravam e saiam apressadas... outras, como eu, resolveram adiar compromissos. Logo, centena ao redor do artista. Era visível a emoção daqueles que o assistiam.

Meu intuito era chegar cedo ao hotel, descansar um tempinho, esperando momento de ir ao médico. Mas, bateu algo por dentro; resolvi ficar um pouco. Somente fui embora, quando a apresentação terminou... MARAVILHOSA. Nem me lembrei mais do frio e do cansaço.
 
Saí, dali, certo que assistura um artista de rua "excepcionalmente diferenciado", sem saber de quem se tratava.

Dias depois, identifiquei um vídeo na internet, em que William Lee, vestindo a camisa da Seleção Brasileira, cantava "Sultans of Swings" - clássico do Dire Straits. Identifiquei logo o artista visto no Viaduto da Santa Ifigênia.

Diga-se: a interpretação de "Sultans of Swings", de William Lee, é absolutamente "ir-re-to-cá-vel". Tenho convicção que o próprio Mark Knopfler (autor, intérprete, guitarrista e líder do Dire Straits) a assinaria com louvor. Era esse o principal "hit", homenageando o saudoso pai, que tinha essa canção como sua favorita.

Vi postagem de um vídeo de William Lee no Facebook. Resolvi olhar mais alguns e, infelizmente, lá estava a notícia de seu falecimento. Pior: uma morte dolorosa, vitimada por câncer no pâncreas... e marcada por enorme dificuldade de internação nos hospitais de Sampa.

Noutro vídeo, numa mensagem longa e chocante, William Lee fazia um apelo desesperado, ao então prefeito de São Paulo, João Dória, para que interviesse em favor de sua internação, junto ao Hospital AC Camargo: unidade de saúde especializada em oncologia.

Imagem realmente muito forte. Mostrava o artista sendo tratado, amadoristicamente, em sua própria casa, por uma irmã-enfermeira, que lhe aplicava morfina para debelar a dor. A haste que segurava o soro, improvisada por cabo de microfone.

Muito debilitado, mostrava esperança e fé em sua recuperação. Pedia aos fãs que orassem por sua saúde e comprassem seus CDs, no Mercado Livre, para ajudar no tratamento e exames específicos.
 
Revelava, humildemente, que fora 6 vezes a hospitais e não conseguira se internar. Infelizmente, o dramático apelo demorou a ter respota. O tratamento adequado foi tardio... o câncer avançou ferozmente e veio a óbito.

A dor e o calvário de William Lee desnudam a face mais cruel e sangrenta do Brasil. É o retrato de um país que não cuida de seus velhos, da juventude, dos trabalhadores e muito menos de seus artistas.

Há poucos anos, por exemplo, perdemos o mais genial letrista dos últimos 50 anos: o cearense Antônio Carlos Gomes “Belchior” Fontenele Fernandes. Amargurado com situações que não aceitava, preferiu o autoexílio. Morreu endividado, distante dos fãs, dos amigos, dos shows e da mídia.

William Lee, o maior e mais talentoso artista de rua brasileiro, faleceu desamparado... com enorme dificuldade de encontrar abrigo, ao tratamento do câncer voraz, que o consumia e o impedia, até mesmo, de dormir. Foi desumano!

Morreu sem o apoio do poder público. Esquecido pela mídia que o reverenciava, apenas, enquanto ativo e com saúde.

Diante dessa narrativa, decidi lhe fazer homenagem no FACEBOOK, postando vídeo que espelhasse um pedacinho de seu enorme talento. Tive dificuldades... entre dezenas de apresentações maravilhosas, fiquei indeciso na escolha...

Inclinei-me, finalmente, pelo interpretação de "Cose Della Vita", de Eros Rammazotti. Show ocorrido no dia 02 de fevereiro de 2017. 
https://www.youtube.com/watch?v=r7Mih8fCSNU

Naquela tarde, os imponentes prédios da Av. Paulista permaneceram silenciosos para reverenciar William Lee... uma cadeirante cantou e dançou alegremente, ao som da sua guitarra mágica e interpretação personalíssima.

Foi-se o cidadão mineiro/paulistano, William Soares da Silva. Ficaram a ARTE e o TALENTO de William Lee (o maior artista de rua do Brasil), definitivamente registrados em dezenas de vídeos... e no coração de quem teve a primazia de assisti-lo ao vivo.

Obrigado... William Lee!

 
 
 
Aluízio A C Amorim
Enviado por Aluízio A C Amorim em 01/08/2020
Reeditado em 01/08/2020
Código do texto: T7022806
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Aluízio A C Amorim
Teresina - Piauí - Brasil
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Aluízio A C Amorim