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    Torquato Neto                      Caetano Veloso                Capinam 




A cajuína cristalina em Teresina...


Em homenagem a Torquato Neto e ao seu pai, Caetano Veloso escreveu a icônica canção "Cajuína", página poética-musical mais sublime do álbum "Cinema Transcendental". Os versos desnudam o encontro do compositor baiano com o senhor "Heli Nunes", em Teresina, anos após a morte do poeta piauiense - porta voz da estética Tropicália.

Para entender o significado de "Cajuína", é necessário conhecer a controversa personalidade de Torquato Neto, "O Anjo Torto da Tropicália"... e sua relação com o próprio Caetano.


Torquato Neto é um dos grandes expoentes de sua geração. Filho único, foi criado com zelo e carinho por seus pais (Heli e Salomé). Precoce, com 11 anos e meses, solicitou ao pai toda a obra de William Shakespeare. Aos quatorze, já tinha lido quase tudo de Machado de Assis.

Aos dezessete anos, foi estudar em Salvador, contra a vontade de sua mãe. Queria contato com mundo mais amplo, maior que a provinciana Teresina, de seus tempos. Lá, foi assistente do cineasta Glauber Rocha, no filme “Barravento”, um dos clássicos do Cinema Novo.

Torquato era absolutamente genial... e, também, genioso. Em relação a sua personalidade, o escritor Antônio Carlos Vaz, um de seus inúmeros biógrafos, disse certa feita: “Torquato Neto não poupou ninguém – dos cinemanovistas aos tropicalistas e bossanovistas".

Sobre Edu Lobo, com quem fez a estonteante "Pra Dizer Adeus", despejou uma frase ferina: "Esse cara quer é ser Villa-Lobos".

A história de Torquato é bem conhecida pelos admiradores e biógrafos do poeta piauiense - tinha personalidade fascinante e contraditória. Possivelmente, por ser acometido de distúrbios psicóticos, com um quadro depressivo, que foi se acentuando ao longo dos anos.

Torquato alternava momento de extrema doçura e afabilidade com amigos, parceiros e interlocutores... com outros de grande radicalismo, na defesa de suas ideias e convicções políticas, culturais e sociais.


Quanto ao relacionamento com a esposa Ana, biógrafos relatam que não ia bem, há tempos. Atribuem à personalidade doentia do poeta e de seu inconformismo com a vida, evidenciado em muitas de suas poesias.

Torquato se tornou alcoólatra e, por várias vezes, internado em Teresina ou no Rio de Janeiro. Atentou contra a própria vida, em ocasiões distintas, até o fátidico dia da partida final.

Brigou acirradamente com muita gente “grande” de sua geração, inclusive com Caetano Veloso, com quem dividia a liderança do movimento tropicalista. Afastou-se de quase todos. Raras exceções, como o baiano Tom Zé.

Assim, quando esteve com a esposa na Europa (Caetano e Gil exilados em Londres), Torquato não os procurou e não lhes fez qualquer comunicação.


A narrativa dos fatos, a seguir, que retratam a construção de "Cajuína", é do próprio autor, em entrevistas concedidas a programas televisivos...

Ao saber da morte de Torquato, Caetano estava na Bahia com Chico Buarque. Por conta do distanciamento entre ambos, não manifestou nenhum sentimento, naquele momento. "Chico foi quem demonstrou tristeza e teceu comentários sobre a partida de Torquato", declarou.

Anos depois, fez um show em Teresina. Estava no camarim, quando foi surpreendido pela presença do pai de Torquato. O conhecera no Rio de Janeiro, no apartamento do poeta piauiense, local de costumeiros encontros de tropicalistas.

Aceitou convite para ir a sua casa, visitá-lo. "Seu Heli" se encontrava sozinho: a esposa enferma e hospitalizada.


Caetano sentiu como se o próprio Torquato estivesse lá, recebendo-o: retratos do poeta espalhados pelas paredes e estantes, trouxeram-lhe profunda tristeza. Desnorteado, caiu num choro copioso. Lembrava angustiado da convivência e do afastamento do amigo e parceiro... interlocutor maior do movimento tropicalista.

O pai de Torquato, compungido com a cena, tentou confortá-lo. Abriu uma garrafa de cajuína (bebida típica local) para degustarem. Depois, foi ao jardim e colheu uma
pequenina rosa, entregando-a num gesto de carinho.

Em desespero,
Caetano abraçou fortemente o anfitrião. Continuando a chorar, convulsivamente, até chegar ao hotel.

Após aquele inusitado momento, deslocou-se para São Luís, onde realizou mais um show da turnê. E, na capital maranhense, ainda emocionado com a generosidade de "seu Heli"... num quarto de hotel, o compositor baiano escreveu os versos
primorosos e construiu a melodia harmoniosa de “Cajuína”.

 
 
Cajuína
 
Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina


 

POST SCRIPTUM

 
O objetivo específico desta crônica é revelar a história dessa belíssima canção "Cajuína", pérola de Caetano Veloso. Para tanto, descrevi conexões entre o compositor baiano e o poeta piauiense Torquato Neto... maiores expoentes do Tropicalismo, movimento cultural mais importante do Brasil, na década de 60.

Torquato Neto faleceu em 1972, aos 28 anos. Sua obra é monumental, absurdamente atual, após quase cinco décadas de sua partida. Esse poeta, letrista, jornalista, cronista, cineasta, ator e ativista cultural... um artista multifacetado, retratou o Brasil de sua geração com visão crítica singularíssima.

Aos que quiserem conhecer um pouco mais desse gênio piauiense e sua importância para a cultura brasileira, sugiro a leitura da crônica: Torquato Neto "O Anjo Torto da Tropicália", postada em minha escrivaninha no RL.




 
Aluízio A C Amorim
Enviado por Aluízio A C Amorim em 12/07/2020
Reeditado em 14/07/2020
Código do texto: T7003371
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Aluízio A C Amorim
Teresina - Piauí - Brasil
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Aluízio A C Amorim