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Pequenas Lições de Botânica

Realmente se pode tirar sabedoria de qualquer lugar que se queira, basta para isso que se saiba olhar. Sim, porque olhar não é um ato qualquer. Pode ser feito de forma natural, mas também pode ser feito com arte. Um jardim pode ser apenas um aglomerado de plantas que exige nossos cuidados diariamente, algo que fazemos a contragosto para agradar quem acha flores uma beleza singela indispensável à felicidade. Mas também pode ser um conjunto de plantas cuidados com arte, o que envolve harmonia e senso estético, mas principalmente dedicação.
Bem, de minha parte devo dizer que não sou um bom jardineiro, logo se deduz que meu jardim é uma bela bagunça, mais parecendo um matagal a maior parte do ano. Não que isso não seja artístico, pois eu poderia argumentar que se trata de “jardinagem surrealista” ou simplesmente “jardinagem abstrata”, mas eu sei que não convenceria a minha noiva e os meus amigos mais próximos que conhecem bem o meu estilo “amanhã juro que faço”.
De qualquer modo, assim como em qualquer outra arte, cuidar de um jardim pode ser um grande exercício de introspecção e – por que não? – de bons conselhos para a vida. Por exemplo, havia um espaço relativamente grande no meu jardim que não estava sendo ocupado por nada. Outrora, ali havia uma taioba que eu gostava bastante, tinha aqueles folhões verdes-escuros e largos que eu adorava – sempre me chamaram mais atenção a beleza das folhas do que das flores, mas isto é outra conversa. Porém, minha mãe que sempre relaciona excesso de plantas com ausência de gente, achou que aquela taioba enorme e viçosa significava que o quintal estava abandonado. Em menos de dez minutos a faca de cozinha deixou de cortar frango para “limpar” o canteiro e quando voltei do trabalho havia apenas um saco de lixo a mais para o lixeiro. Não reclamei, ela já fez isso com plantas que eu gostava mais, tanto quanto fazia com as minhas namoradas no tempo de garoto. Talvez a minha mãe faça parte do ecossistema do meu jardim: quando uma espécie cresce horrores ou se expande muito, ela entra em ação como um terrível Brontossaurus esmagador de arbustos.
Mas a lição não reside no “não reclamar” que as pessoas tanto gostam de dizer que aprenderam. Pelo contrário, eu sou um grande reclamão e até acho que nunca vou perder essa mania. A lição do “canteiro limpo de taiobas” é que ao invés de desistir de tudo por causa das atitudes que algumas pessoas fazem para roubar a beleza da vida, é melhor semear de novo. E dessa vez, no mesmo pequeno espaço, semeei muitos tipos diferentes de temperos e legumes. O resultado é que todos os dias quando olho para aquelas plantas-crianças crescendo no lugar que um dia uma grande planta-duquesa viveu, não apenas me conformo com a sua partida desta para uma melhor, como faço a natureza me dizer que “a vida não desiste nunca de nascer e vencer a morte”, mesmo que no final tenha que perder para ela e tornar a vencer, num ciclo eterno que nunca compreendi muito bem. Faço a vida dizer para mim que, seja qual for a grande perda, sempre haverá a terra para que eu possa semear de novo, bastando apenas que eu tenha disposição de ir buscar e escolher sementes.

***

Na varanda de cima tenho muitas outras plantas. Há uma samambaia que todo mundo diz que eu deveria dar cabo dela. Até conseguiram me convencer, mas hoje quando a olhei, pensei bem e resolvi fazer a pobre dar a volta por cima. Por que diabos tem que ser extirpada apenas porque estar feia, doente e acabada? Ora, acaso não é minha a culpa de ela não ter um vaso apropriado para suas raízes se desenvolverem? Acaso não é minha a culpa de deixá-la naquela terra horrível de exaurida? Não, não vou condená-la a guilhotina sem antes lhe dar o direito de se recuperar. Amanhã mesmo irei ao centro da cidade comprar um xaxim maior e um adubo para plantas só para tentar lhe arrancar um perdão pelo meu desleixo. Quem sabe assim deixa de ser sisuda e de uma vez por todas decide enfeitar a minha vida? Declarar guerra contra uma samambaia é uma odisséia perdida. Acredite, ela não vai se importar de te abandonar e, injuriada, ainda vai sujar sua varanda todinha com um monte de folhas marrons e secas deixando aquele terrível aspecto de mansão dos mortos.

***

No outro extremo da varanda tem um vaso grande com uma dessas plantas psicodélicas que eu não sei o nome e que têm uma folha de cada cor – verde, amarelo, vermelho e marrom. Na verdade, depois eu descobri que a cor representa a idade da folha: verdes, quando jovens; amarelas quando adolescentes; vermelhas, quando adultas e marrons quando velhas. E, é claro, tombadas no chão quando a Mãe Terra as chamou para viver nas raízes de outros vegetais. O fato é que não havia nenhuma folha verde naquela pobre criatura. Imagino a droga de vida que deveria estar levando: sempre com as mesmas folhas e a mesma aparência miserável. Era assim porque havia outra planta – esta muito mais sorrateira – que ao invés de crescer para cima, decidiu investir em se espalhar, num agressivo imperialismo vegetal. Meu pai me disse que tal arbusto se chamava “Mil Folhas”, mas tal verdade se limita ao nome, pois na prática certamente havia muito mais de uma milhar naquele espaço de pouco mais de trinta centímetros de diâmetro de terra preta.
O vegetal imperialista, talvez por não ter mais para onde levar sua civilização, agarrou suas “mil raízes” nas raízes da pobre planta hippie e começou a sugar, além da terra, todo o resto que estivesse sobre ela. Resultado: a hippie estava carcomida, toda acabada, murcha, sem colocar um broto ou uma folha nova e, além disso, eu ainda tinha que molhar diariamente porque aquela relação unilateral exauria toda água do escasso solo. Um dia, disposto a levar a sério aquela verdade de que nem tudo que amamos é capaz de nos fazer bem, tomei coragem e arranquei mil ramos e mil raízes, deixando a terra nua ao redor daquela pobre tentativa de árvore mil vezes vampirizada. Uma semana depois a ex-presidiária me agradeceu o ato heróico com várias folhas novas. Logo ficou toda verde e hoje quando passei pela varanda para abrir a porta do escritório a olhei rapidamente e quase tive a certeza de que não era a mesma planta, de tão diferente que ficou. Não, ninguém me convence do contrário – nem a Mãe Natureza – aquela é outra planta.

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Plantas são como relacionamento: têm fases e requerem atenção perpétua. Um antúrio que recebe somente o sol da manhã anda meio amarelado e com umas flores muito entediadas. Não está gordo, simplesmente está cansado das mesmas coisas: tem raízes, mas precisa fortificar as mesmas; dá muitas flores, mas talvez fosse melhor que investisse em qualidade, sem falar que falta uma maquiagem àquelas folhas. Que fazer? Jogar no olho da rua dentro de um saco de lixo? Não, eu não seria tão prostituto. Acho que estou melhorando minha capacidade de entender os humores dos antúrios: um dia foi bom estar ao sol, mas a estação não é propícia e agora a moça está querendo uma boa sombra com uma terra mais rica e água fresca, quem sabe um canto mais sossegado. Talvez esteja ficando velha, mas luta tão bravamente para viver que acaba me convencendo que não deseja me deixar.

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Há plantas, porém, que são marrentas por natureza e me deram um belo pé na bunda pelo desleixo. Na semana passada joguei fora os restos mortais de uma arruda que se cansou de eu não saber dosar a água. Desagradável isto, mas – fazer o que? – não podia insistir para que ficasse. A pobre não sabia, contudo, que todas as vezes que deixamos quem nos ama, acabamos morrendo também. É claro, não adianta eu tirar o meu da reta: eu fui culpado por não compreender a natureza da única planta de folha azul do meu canteiro.

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Aqui há também um feijão-filósofo. Diariamente ele me fala sobre a essência da vida e a inevitabilidade da morte. O sábio gigante me diz que, apesar de breve, a vida pode ser lindíssima e que vale a pena dar o máximo de nós mesmos para fazermos o melhor, vencendo paredes, escalando obstáculos e mesmo assim dando flores e sementes para alimentar a nossa própria alma. “Feijão, o Grande” – como eu o chamo – já ocupou todo um muro da minha casa, invadiu o terreno do meu vizinho da direita, do vizinho de trás e já começa a estender seus verdes tentáculos para a casa da velhinha na esquerda de minhas “vastas terras”. É uma pena que talvez ele não viva para ver suas novas fronteiras – já começa a amarelar muitas folhas e um maldito fungo anda devorando seus “pulmões”. Até agora não consigo entender por que tanta vontade de viver. Ele me diz que para tal desejo não se deve ter porquês, mas simplesmente vontade. É mesmo um sábio! E vejam vocês: fui eu que cuidei dele nos primeiro anos de vida. Não fazem idéia do orgulho que sinto.

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Majestosamente, logo na entrada da varanda, há o lírio que minha noiva – uma botânica – e eu resolvemos adotar como “bicho de estimação”. Eu o chamo de Lírio-Poeta. Há um tempo atrás, ele deu umas flores tão belas e de cheiro tão doce que me inspirou uma foto e um poema para minha namorada. E olha que eu sou um fracasso na arte dos versos. Aquele lírio é um bardo, sem dúvida. E ainda sabe ensinar caras mecânicos feito eu. O efeito foi 100% bem sucedido: minha noiva ainda tem esse lírio como papel de parede do computador até hoje e aquelas palavras, com aquelas flores, parecem ter ilustrado uma das inspirações mais tocantes que tivemos. Hoje em dia o menestrel anda meio na dele: nunca mais deu flor. Mas sei que me ama, pois suas folhas continuam roubando a cena. Há que se apreciar cada momento: se não há uma flor, que se encante com as folhas verde-escuras. Tudo uma questão de época, de sabedoria: ele me disse hoje que é burrice reclamar dos ritmos da vida. Não adianta se incomodar por ele não me dar uma flor, pois só irá mesmo fazer quando quiser. Lírios são assim e nós os amamos.

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Lírios, begônias, feijões, coqueiros, samambaias, dentre outros, meu jardim diariamente me fala sobre a vida e sobre temas relacionados. Depois ainda há gente que diz que sente solidão. Confesso que minhas plantas não são tão eficientes como os de minha espécie para me dar companhia e que os animais conseguem ir mais longe, mas uma coisa é certa: elas falam comigo. Numa linguagem diferente, é claro. Talvez haja muitos seres – inclusive de nossa espécie – que estejam falando diariamente conosco, nos dando até soluções para dilemas pessoais, mas não lhes damos ouvidos. Tudo porque insistimos que o mundo inteiro tem que falar a nossa língua e tem que “ser interessante”. Esquecemos, contudo, que quando impomos tantas condições a nossos interlocutores, na verdade falamos sozinhos. Agora estão lá fora, todas molhadas olhando a noite, desejando a lua e as estrelas e me prometendo folhas mais verdes ainda e flores na primavera. E eu aqui, relatando conversas, tal como nós humanos gostamos de fazer. É isso aí! Cada ser na sua. Elas lá vivendo e eu aqui tentando entender a vida. Um dia elas morrem. E eu também.


WPS
24/05/2008


Wilde Green
Enviado por Wilde Green em 08/07/2020
Código do texto: T6999393
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Wilde Green
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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