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Covid 19 à Brasileira - A Anta Doente

Há muitos anos, pouco após o início do Plano Real, vi uma palestra antológica do Joelmir Beting, que dizia que o Brasil era como uma anta, um bicho diferente, que não se encontra igual no resto do mundo. Na época, a doença do animal era a economia e a palestra divagava porque os remédios de outros países não funcionavam. Seria por que mesmo tendo tromba, crina e casco, a anta era diferente de elefante, cavalo ou boi? A história parece a da nossa Epidemia, que já é visível em seus aspectos mais relevantes e a única conclusão possível é que é diferente das outras do mundo.

O TAMANHO DO BICHO

Assustados com a tragédia italiana,mas com otimismo brasileiro, pensava-se que não se chegaria ao número de mortos daquele país. Senti-me um arauto do desastre quando em março imaginei que teríamos ao menos 20.000 mortos. Hoje, o máximo do meu otimismo é achar que ficaremos ao redor dos 80.000 e não superaremos os ianques neste triste ranking.

O bicho é muito grande e assustador, em três meses já tem quase tamanho da violência que mata 50 mil por ano em um ano e já ultrapassou de longe o nosso trânsito que assassina 30 mil por ano.

O pior é que, igual a estas duas tragédias bem brasileiras, já esquecemos que por trás de cada número havia um nome e uma família, e já assumimos como parte da vida, como se não pudesse ter sido evitado ou ao menos diminuído, se tivéssemos governo.

SOLUÇÕES DE SAÚDE TABAJARA

Começamos a epidemia acreditando que poderíamos fazer como os ricos europeus, ficando em casa e paralisando a economia. Muitos aderiram, por lei ou por convicção. Mas jamais superamos 60%. Por quê? Entre vários motivos, o principal é que a maioria das pessoas não tem um emprego fixo, vivem na informalidade, ganham de dia o que comer de noite. Gente assim não tem reservas para ficar em casa muito tempo, tem que ir para as ruas ganhar o pão. Já no início dava para saber que não ia durar, nem ser 100%, mas ninguém admitiu isso.

Agora, nosso isolamento Tabajara começa a ruir, como os produtos piratas que compramos sabendo serem ruins por termos pouco dinheiro e nos enganando de que são iguais aos originais. Os prefeitos em ano de eleição suspendem o isolamento para recuperarem o apoio dos empresários desesperados.

A solução? Outro produto Tabajara, as máscaras de pano, que podem até funcionar. Desde que se ensine às pessoas que precisam ser trocadas em no máximo quatro horas, que precisam ser lavadas, têm de ser individuais e que não adiantam se não cobrirem nariz e boca.

Tem também a cloroquina. O tipo de magia que costumamos venerar. Barata, conhecida, fácil de produzir, a solução simples para um problema complexo. Por que nenhum país do mundo usou? Por que não são espertos como nós? Foi o grande projeto do governo federal. Não sei se funciona, tenho um amigo que adoeceu e jura que escapou por causa dela. Parece-me que ficaremos discutindo por décadas, para não pagar um estudo definitivo que deveríamos ter feito desde o início.

Muitos não escaparão do vírus e precisarão ser internados e entubados. Talvez sejam salvos por respiradores de baixo custo desenvolvidos de improviso com tecnologias criadas nas abandonadas universidades públicas, que continuam existindo, lembram que investir em pesquisa pode ser bom.

Com isolamento parcial, máscaras de pano, cloroquina e respiradores não testados, assim o Brasil enfrenta a Covid 19.

O RENASCIMENTO DO SUS

A única explicação para não termos tido uma mortandade épica e superior à americana no Brasil é a existência da saúde pública. O SUS não tem luxo, tem ambientes cheios e muitas limitações. No entanto, proporciona atendimento de saúde gratuito a milhões de brasileiros e mesmo estrangeiros residentes.

Acredito que aqueles prefeitos que dedicaram mais recursos ao SUS de suas cidades, vão com certeza ter reconhecimento da população. E isto será ótima notícia para nossa saúde pública.

FAVELA CUIDA DA FAVELA

A tragédia nas favelas foi menor do que o esperado, ainda bem. Imaginava-se que as casas lotadas, as ruas sem acesso aos médicos e ambulâncias públicas e impossíveis de isolar teriam mortes às dezenas de milhares. Em Paraisópolis, com 100 mil habitantes, houve até agora menos de 200 mortos em três meses, ruim, ainda assim, abaixo da hecatombe esperada.

Como explicar? Criou-se uma rede dentro da própria favela para produzir refeições e diminuir as saídas, contratar ambulâncias com autorização para circular, as escolas fechadas viraram locais para isolamento dos doentes menos graves. A favela cuidou dela mesma.

É positivo, há lições a aprender desta organização independente do governo. Em minha mente, porém, só o fato de terem populações mais jovens explica porque não houve o desastre esperado.

SUSTENTO PARA OS INVISÍVEIS

A epidemia fez o impossível. O mesmo país que tentava reduzir o bolsa família de menos de R$ 200 por mês de repente topou pagar R$ 600 por mês para 60 milhões de brasileiros.

E, mesmo a um alto custo, descobrimos ser possível evitar uma grande convulsão social simplesmente provendo salário para os que se dizia não existir, pessoas com renda muito baixa que não teriam o que comer.

Levanta-se uma nova questão: e se for possível algo maior, transformar os invisíveis em cidadãos que consomem e progridem na vida? Esse pode ser o debate capaz de repor o Brasil no caminho do desenvolvimento.

PARA ONDE VAMOS?

Não há dúvidas que esta epidemia produzirá, além de muitas mortes, uma grave crise econômica, com muitas falências, maior desemprego e recessão.

No entanto, tudo que mostrei acima é que vão surgindo adaptações, o brasileiro se adapta às situações mais adversas. Boas ou ruins, criamos nossas formas próprias de reagir.

Não sei qual a saída. Para a pandemia, é quem puder manter o isolamento, quem não conseguir, não descuidar das máscaras e do distanciamento físico que for possível. Para a crise econômica, também vai se criar algo diferente do resto do mundo.

Com um pouco de sorte, poderemos mudar a cabeça, aprender com esta epidemia, e finalmente entender que o rumo em que estamos simplesmente não é bom, precisamos de mudanças, e para melhor, para variar um pouco.
Paulo Gussoni
Enviado por Paulo Gussoni em 14/06/2020
Reeditado em 14/06/2020
Código do texto: T6977244
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulo Gussoni
Santana de Parnaíba - São Paulo - Brasil
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Paulo Gussoni