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O Dono de Tudo...
 
Fui dono das coisas, mas não possuidor delas. Tive centenas de coisas. Pares e ímpares. Claros e escuros. Milhares delas aportaram em minha vida - sem ao menos eu pedir.

Fui dono de quatro mulheres, uma casa, dois quartos e cinco cortiços. Conversava com todas. E contava histórias de minha vida que me parecia nada interessar às quatro.

Fui dono de um bar onde vendia pão, chocolate e avelãs. Fui à falência porque dava tudo para as crianças pobres e os cães famintos - destes que amanhecem em sua porta todos os dias.

Fui dono de uma padaria e, cedo, fazíamos a massa para colocar no forno de madeira, onde os senhorios, quatro horas mais tarde, chegariam famintos para a primeira refeição do dia.

Disso, me prezo. Rompi a fome de milhares, entre homens, mulheres, crianças e animais.

Tive um jardim, mas morreu por falta de sol.

Vendia fumo de rolo e cigarros comuns. Fui à falência pois dava aos bêbados e trôpegos da vida, maços e maços de cigarros. Até que a derrocada veio e não surgiu muita gente para remediar minha situação. Apenas ficou um cão fiel na minha porta e eu não sabia se ele estava ali para me confortar ou com ânsias de pão.

Fui muito religioso ao ponto de rezar todos os dias. Um dia meu Deus morreu e não tinha a quem orar. Paciência. Esqueci até de como se reza. Nem escondido conseguia.

Fui dono do meeiro, do oficial de justiça e do carregador de animais. Tinha um cartório e ali fazia casamentos avulsos. Apesar de minhas palavras até certo ponto reconfortantes, sabia que aqueles enlaces pouco durariam. Era só olhar pro rosto deles. Era sexo puro! E sexo é igual lhames à beira de um rio: derrete e desaparece com o tempo.

Fui dono de alvenarias e construí um castelo de madeira. Tinha 18 anos quando o castelo se atiçou em chamas. Fui chamado à ordem do rei que me mandou para longe de seu reinado. E a andeira era muito longa pois o reinado do tal rei era muito grande.

Comprei, logo depois, de um vendedor simpático e loquaz, uma cachoeira de verdade. E era de verdade mesmo. Jorrava água o dia inteiro. Então, rodeei a cachoeira de flores silvestres e pés de frutas. Tudo ia muito bem até que vieram as monções e a cachoeira tímida, virou um cachoeirão empertigado de lama e pedras, destruindo meus canteiros e comendo minhas frutas.

Finalmente, já no final da vida, resolvi fazer uma última compra.

Fui ao pedreiro e mandei ele construir a maior chaminé que passasse por sua fugaz imaginação.

Ele passou quase um ano para levantar a chaminé.

E assim, como não tinha amigos, acendia todas as manhãs o fogo, e da chaminé saia tanta fumaça que avançava sobre a vila até deixá-la completamente enevoada e ninguém mais se enxergava.

Criei então o caos com minha chaminé. Os homens não se entendiam mais, não se viam mais, os amantes se trocavam e até o vigário dava perdão errado de tanta fumaça e nevoeiro. Acabava de criar um caos muito grande.

Fui chamado pelo Ouvidor-Geral que me intimou a acabar com a chaminé. Assim, o mesmo pedreiro que a construiu, a desfez em dois dias e a calma voltou à vila.

Sem mais nada a fazer e sem ser dono de mais nada, resolvi comprar uma cadeira de balanço e colocar na minha varanda. Assinei o melhor jornal da região - aquele mais grosso e que só contava desgraças.

E assim, passei a ser respeitado por todos. E nunca mais levantei da cadeira de balanço ou parei de ler jornal.

Voltei a saber de tudo - até que a República havia sido proclamada e sabia também dos casos de infidelidade pois todos os dias os jornais contavam histórias de homens achados mortos sem motivo aparente.

E fui feliz para sempre. Mas, por dentro, por dentro, nunca perdi a vontade de ser dono de tudo novamente.

Eram coisas sagradas que os homens da terra não compreendiam.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 30/12/2019
Reeditado em 06/01/2020
Código do texto: T6830520
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel

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