Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto
O Dono da Vez...
 
Tenho um álbum de figurinhas. Nele guardo as últimas estampas de animais que chegam às bancas.

Sou possuidor de uma bicicleta de dois quadros, sempre engraxada e invejosa. Faço parte do conselho paroquial contra a imoralidade.

Sou possuidor de um aparelho de dentes. Por isso escovo os meus no dentista. Vou ao médico três vezes ao mês. Um para rever meus olhos que só enxergam bem na escuridão. Outro para analisar minha cabeça que anda tonta de tantas coisas que me atormentam. E outro para remediar minhas feridas que brotam na pele.

Sou possuidor de duas mulheres. Uma levanta comigo, outra dorme comigo. Sou dono de sonhos que ninguém sabe explicar e se soubesse ninguém entenderia nada.

Minhas mulheres são dengosas e sempre levo flores para elas. Flores que vou colhendo pelo caminho depois que saio de meus dois empregos.

O primeiro emprego é para me sustentar. O segundo é para sustentar as mulheres, que normalmente necessitam de muito carinho. Sou dono delas e me orgulho. Tenho poucos parentes.

Um primo e uma tia. O primo é dado ao esporte alpinista. Não pode ver uma montanha que ele sai correndo para conquistá-la.

Minha tia é alvenaria do tempo, já idosa é dona de mim e eu sou dono dela. Sou dono de todo seu dinheiro, suas jóias e fantasias. Mas caio na malha dela e ela fica dono de mim.

- Seu Zé - diz ela, vai comprar pão. E eu vou.
- Seu Zé, vai à quitanda e trás frutas frescas e eu vou.
E assim passa a vida. Cada um é dono de alguma coisa.

Tenho uma carrapeta, um corrimão pra brincar e um jogo de dados que disputo com os poucos amigos. A saber, pela ordem: Seu Zelofredo, dono da quitanda e seu Malaquias, dono da mercearia.

Sempre perco nos jogos, mas sou dono deles. Sempre perco as mulheres, mas sou dono delas.

Sempre fico perdendo e procurando. Mas sou dono das coisas. Sempre dono da vez.

Desde o muro alto até à barricada que construíram para não deixar o inimigo chegar próximo ao muro do meu castelo.

Sou possuidor de muitas coisas mais: do melão, da maçã, do jornal do dia e da voz do rádio. Tenho duas televisões, mas não vejo nenhuma porque mal enxergo de uma vista.

Esta é minha história. Sou dono de quase tudo e de quase todos.

Só não sou dono do sol e da lua. Mas a lua eu sobrevoo. Bem à noitinha quando todos dormem. E sabem o que tem na lua dos homens? Escuro, muito escuro e frio.

Tanto que puxo mais o cobertor, coloco o meu capacete espacial e vou brincar de esconder com as meninas. Sempre perco neste jogo porque elas acabam me encontrando.

Mas também, quem iria se esconder atrás de um pé de palmito?

E dito essas coisas, fecho meu diário mandando um beijo pra seu Malaquias, Zelofredo e minha tia. Meu primo fica de fora.

Agora, vou fechar o quarto e tentar dormir. A garrafa de aguardente já começa a fazer efeito
José Kappel
Enviado por José Kappel em 30/12/2019
Reeditado em 06/01/2020
Código do texto: T6830518
Classificação de conteúdo: seguro

Comentários

Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
2463 textos (32011 leituras)
1 e-livros (150 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/08/20 07:50)
José Kappel

Site do Escritor