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Peralvilhices inesquecíveis

                           Peralvilhices inesquecíveis
                              Jajá de Guaraciaba

          Vivendo e aprendendo. Ora, quem diria que peralvilhice também é sinônimo de peraltice! Pois é, ao correr os olhos no “Aurélio” para descobrir alguma palavra que me inspirasse a escrever sobre as minhas “diabruras” infantis, deparei-me com esse vocábulo esdrúxulo. — Agora está explicado porque pus este título esquisito nesta crônica, não é?
          Minhas travessuras começaram, se me lembro bem, aos quatro anos de idade, quando furtei uma ninhada de ovos do quintal da Sinhá Luzia lá em Minas Gerais. Minha mãe me deu tantas lambadas de vara de espinheiro no traseiro que fui “dormir com as galinhas” naquele dia. Nossa, como doeu! Mas valeu a pena, pois nunca mais furtei ovos...
          Doutra feita, quando eu tinha uns sete anos de idade, atravessei sozinho o Rio Bacalhau que divisava nossas terras lá naqueles cafundós. Que perigo de ser levado pela correnteza! Levei outra surra daquelas, agora do meu pai. Não foi de vara, mas o corrião dele doeu mais porque, às vezes, a fivela deixava marcas vermelhaças no bumbum.
          Depois de algum tempo que mudamos pra São Paulo, fui nadar com alguns coleguinhas na Lagoa das Três Torres onde quase morri afogado. Se não fosse um camarada chamado Soligo a minha vida não seguiria o curso natural que seguiu; eu não teria tantos momentos de bem-aventuranças que tive até hoje. Só não fui castigado porque meus pais não ficaram sabendo, senão... não sei não, hein?!
          Na escola eu não aprontei muito não. Só uma vez, na saída das aulas, que eu pulei o muro duma casa que ficava do outro lado da rua a fim de roubar ameixas. Desta vez passei apertado, pois um pastor alemão que fazia guarda no quintal encurralou-me debaixo duma escadaria e por pouco eu não seria estraçalhado. Se não fosse a dona dele acudir-me eu não continuaria com a cara lisa e bonita que tenho até hoje, modéstia à parte. Bem, não é assim tão lisa por causa da idade; também pudera, depois dos setenta e tantos anos quem não tem pelo menos uma dúzias de rugas no rosto, não é mesmo?
          Noutra ocasião, influenciado pelos colegas, fomos “chocar” caminhão numa subidinha que ficava perto da favela donde morávamos. (O termo “chocar” era usado naquele tempo no sentido de “surfar”, isto é, quando alguém viaja clandestinamente sobre trens ou outros veículos de porte). O aclive era acentuado, por isso os veículos pesados transitavam devagarinho.  Ao “chocar” um caminhão de bebidas vi uma caixa aberta. Pra fazer bonito pros colegas surrupiei duas garrafas de vinho. Quando eles viram pularam de alegria. Fomos beber escondidos no meio das pilhas de canos do DAE. (Departamento de Água e Esgoto) que ficava nas imediações.  Todo mundo ficou bêbado. Eu não fiquei muito porque os colegas quando punham o gargalo na boca só tirava quando não tinha mais fôlego, por isso acabou logo. O Doro, coitado, teve que ser carregado pro barraco dele. A turma o deixou lá e eu é que tive que cuidar dele. A sorte que a mãe dele era muito legal e o pai estava trabalhando. Ela elogiou a maneira atenciosa que eu dedicava ao filho dela, coitada, se ela soubesse que fora eu o responsável por aquela situação ela poderia até cortar as nossas relações amistosas.
          Depois de adulto criei juízo, a única arte que fiz foi casar-me aos vinte e quatro anos, e para criar os filhos sigo os exemplos dos meus pais: só castigo meus filhos se eles furtarem ovos, atravessar rios sozinhos, nadar em lagoas de águas sujas, pular muro pra roubar frutas e surripiar vinho bebendo-o escondido de mim...

Jajá de Guaraciaba
Enviado por Jajá de Guaraciaba em 16/09/2019
Reeditado em 17/09/2019
Código do texto: T6746708
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Jajá de Guaraciaba
Pilar do Sul - São Paulo - Brasil, 76 anos
706 textos (75478 leituras)
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Jajá de Guaraciaba