Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A história de Beatriz

                                    A história de Beatriz
                                     Jajá de Guaraciaba

            A história da vida de cada um de nós é escrita de acordo com as palavras contidas no dicionário do destino. Ninguém vive sequências de fatos iguais durante a existência: nem vizinhos, nem amigos, nem parentes. Prova disto é que numa família que morava numa “cidade de latas” em São Paulo, havia quatro meninas: Alice, Beatriz, Carminha e Dalva, cujo destino reservou-lhes quatro caminhos diferentes. Vamos pegar o da Beatriz.
            A estrada percorrida por Beatriz foi a mais tortuosa. Começou a trabalhar cedo por causa da má situação econômica da família. Aos doze anos de idade empregou-se como babá, todavia, a patroa mandava que ela fizesse faxina geral na casa e lavasse as louças do almoço e da janta enquanto o bebê dormia, enfim, foi escravizada. A mãe de Beatriz sabia disto, no entanto, meio salário mínimo que a filha recebia fazia muita falta naquele lar desprovido de meios que os levassem a levar uma vida minimamente suportável. O pior é que o patrão, às escondidas, tentava por diversos meios conquistar os carinhos daquela menina-moça. E Beatriz, coitada, além de evitar o assédio sexual tinha que disfarçar para a patroa não ficar sabendo. A garota tentou por diversas vezes contar para a mãe, entretanto ela nunca lhe deu liberdade para iniciar um diálogo aberto, franco e desembaraçado sobre este assunto. Graças a Deus, Beatriz ficou doente devido ao enorme esforço que fazia para cumprir as penosas obrigações e teve que ausentar-se do trabalho. Este episódio fez com que a sedução não se concretizasse.
            O tempo passou como passa pra todo mundo e Beatriz casou-se aos dezoito anos de idade. O marido também não lhe deu o devido valor. Tratava-a com menosprezo talvez por ter sido oriunda duma favela. Mesmo não recebendo a devida consideração do marido, Beatriz concedeu-lhe três filhos: Amaro, Bruna e Camila. O tempo continuou passando como continua passando pra todos nós. O marido faleceu depois que os filhos já estavam na idade adulta. Amaro puxou o pai. Nunca dera também à mãe o valor que ela merecia. Bruna levou uma vida desregrada desde adolescente. Deu muito trabalho para Beatriz, pois precisava buscá-la nas festinhas nas madrugadas quase todos os fins de semana.
            Os filhos de Beatriz eram lindos!  A mais encantadora era a caçula. Camila era morena jambo, esguia, olhos acinzentados como os dos lobos, boca pequena e dentes lindos como se ela fosse negra. Apesar de pura era um pedaço de pecado! Por isso casou-se com um brilhante engenheiro de família tradicional e endinheirada.
            Aos sessenta e poucos anos de idade Beatriz foi acometida um derrame. O genro, um rapaz atencioso e amável, a socorreu ao Hospital “Albert Einstein” onde recebeu tratamentos médicos de primeiro mundo, motivo pelo qual não veio a óbito. Hoje ela vive numa mansão no Bairro do Alphaville acompanhada, diuturnamente, por facultativos especializados e enfermeiras dedicadas devido às sequelas deixadas pelo AVC.
            Quando criança, lá na favela, Beatriz jamais imaginara que um dia fosse residir num palacete de finíssimo gosto numa das áreas mais nobres de São Paulo. Se ela pudesse falar certamente diria que era melhor morar num barraco cheia de frestas com saúde do que numa residência de grande dimensões e luxo requintado sem poder sequer expressar seus sentimentos. Enfim, essa alternância da vida, cujo epílogo ainda não foi redigido, está sendo escrita de acordo com os desígnios da Divina Providência.
Jajá de Guaraciaba
Enviado por Jajá de Guaraciaba em 20/08/2019
Código do texto: T6724773
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Jajá de Guaraciaba
Pilar do Sul - São Paulo - Brasil, 76 anos
706 textos (75479 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/10/19 08:19)
Jajá de Guaraciaba