Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Perdida na Multidão

Segunda-feira. Dia de atualização. Início da semana, de ombros caídos e vencidos, de olheiras everberantes, de boca seca, cabelos semi penteados, olhar ao relento no fluxo. Minhas pupilas estão dilatadas pela poeira asfáltica da avenida Paralela. Escorre suor pela minha testa, pelas costas, batimentos cardíacos acelerados pelo meu atraso, despontual. Pego o metrô das 17h, na estação Imbuí, lotado de gente. Fileiras de pessoas andando na mesma direção, como se fossem robôs. Cabeças de gado brigando por assentos. Por sorte, conseguir ir sentada. Odor humano. Pele humana escorrendo a minha. Uma criança irritante chora ao meu lado. Dois pisões. Um olhar sorrateiro.Oxe! É o cúmulo. Sangue sugas, sugango minhas energias. A gente até tenta se fingir de plena, mas tudo anda e desanda tão automático. Mecânico. Passa duas, três, quatro estações. Louca para chegar em casa depois de um dia cheio. Na chamada: "Próxima estação, Mussurunga", me preparo para descer ao abrir das portas. Vejo um aglomerado de pessoas se rastejando, aos trancos e empurrões, ao mesmo tempo, para pegar o ritmo da escada rolante. Cada um indo em direção ao seu rumo, paralelamente. Observo faróis vermelhos de carros enquanto ando pela passarela movimentada. O estalar de passos e sapatos é uníssono. Só vejo cabeças e mais cabeças.  O engarrafamento é sempre no mesmo horário do entardecer. É tudo insuportável! Espero mais 1h a chegada do ônibus na fila da Estação. Olhares desconcentrados, desconcertados, desesperados por um abraço bem apertado. Ao meu lado, baleiros e comerciários dividem a mesma labuta, gritam e alguém escuta, pedem um doce pela moeda. Som de buzinas de coletivos. Aparece um santo falando da Bíblia, mais ninguém se importa com o que ele fala. Por aí tem mentes cansadas, perspectivas jogadas, cobranças individualizadas, problemas irreparáveis, pensamentos perdidos, decepções incontáveis. Corpos surrados perdidos na multidão, a espera do final do dia, para finalmente descarregar o fardo de um dia a mais trabalhado, eles comemoram. Um dia a menos na vida. Na ponta do lápis ao cabo da inchada, no calendário do solstício de verão. Estamos nós seguindo o fluxo ou somos meras megeras da imitação? Espelhos dos outros, remendados. Bonecos socialmente programados apenas para ir, só seguir, empurrar e engordar a esteira que alimenta o topo desse fluxo de fabricação, sem cor,  invisível de ser. Loop infinito, apenas vivo, todos os dias, no modo avião.
Tainá Goes
Enviado por Tainá Goes em 12/06/2019
Reeditado em 13/06/2019
Código do texto: T6671610
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Tainá Goes
Salvador - Bahia - Brasil, 21 anos
7 textos (174 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/06/19 08:00)
Tainá Goes