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ALEGRIA DE VIVER

Vendo matéria no noticiário televisivo de que um cidadão australiano fora à Suíça para suicidar (isso mesmo: Suíça para suicidar!) com a assistência de profissionais, custa acreditar que algum ser, humano ou não, queira – na vera e gratuitamente - dar cabo de sua própria vida.
Esse assunto faz lembrar prosa que tive com a professora Izar Oswaldo Cruz, neta do renomado sanitarista dr. Oswaldo Cruz, quando fui seu aluno no curso de neurofisiologia, na Universidade de Brasília. Falávamos das evidências da neurofisiologia que não sustentam certos conceitos da psicologia. Analisamos a “estima”, já naquela época, porcamente citada a torto e a direito.
Conceituamos a estima, em termos primários, como ação continuada ou atitude de querer bem e sentir-se alegre com o bem estar de outrem – o estimado, seja humano ou qualquer ser vivo. Opostamente, achamos o “querer mal, detestar, odiar etc.” Mas, por rigorismo, não descartamos a provável existência de espaço intermediário neutro: o “não querer bem nem mal”.
Os termos “estima” e “ódio” hoje estão muito popularizados no linguajar comum. Usados e abusados por leigos e não leigos em comportamento. Atribuem-lhes grau de intensidade. Ou seja, ama-se ou odeia-se mais ou menos. Logo, a neutralidade (nem ódio, tampouco amor), nesse contexto, não encontra espaço para variação, funciona como fronteira tênue entre os extremos. É o “marco zero”, ou seja, anula tanto a estima como o ódio.
No embalo, questionamos a possível dinâmica interativa entre a variação das situações extremas e opostas, ou seja, a afetação de uma na outra. Exemplo: quando a estima é reduzida em determinada intensidade, se aumenta concomitantemente o querer mal na mesma proporção? Se não, o espaço deixado seria preenchido pela neutralidade? Sendo esses valores inversamente correlatos e opostos, seria provável que a variação negativa de um termine trazendo a seu lugar o valor positivo do outro, numa justa equivalência?
Se assim ocorrer, a neutralidade torna-se inócua a essas variações. Contudo, não é razoável excluir a neutralidade do processo, por conta dos monges, religiosos, “puros” e similares cidadãos de bem ou “de boa” com a vida, cuja dinâmica de sentimento estaria sempre voltada para a bem querência ou, no mínimo, para a neutralidade quando lhes faltasse a querência em absoluto. Nunca gerando o ódio.
Claro que estima e malquerença são provocadas ou acentuadas por fatores ambientais diversos, humores no relacionamento social, ocorrências agradáveis e desagradáveis, coincidência ou não de opções, fatores patológicos etc. Aceitando-se o princípio da variabilidade da estima, tais fatores seriam variáveis intervenientes no ato de amar ou odiar, bem como no grau de afetação da intensidade de como elas ocorrem.
Daí, passamos a discutir um tema extremamente sensível aos que aceitam certos postulados freudianos como dogmas: a estima a si próprio, ou a autoestima. Naquela época esse termo era raro no linguajar comum. Hoje é citado abusivamente em várias mídias e até nas conversas regadas a cachaça e torresmo.
Acolhendo o conceito de estima como bem querer, óbvio que autoestima é querer bem a si mesmo. Curioso e, aparentemente equivocado, é que ao se falar de autoestima a referência é sempre o ser humano, uma pessoa. Inextensível aos demais seres, como se os não humanos fossem incapazes de se auto estimarem.
Outra parte discutível do conceito de autoestima é tê-lo como sentimento variável e manipulável, numa relação entre agente e paciente. Nesse formato, é possível enxergar duas figuras distintas e independentes. Embora incorporadas na mesma pessoa, produz-se uma relação interpessoal ao invés de pessoal.
Tudo indica que esse entendimento deriva da conceituação freudiana de “id, ego e superego” na constituição da personalidade humana, o que não encontra qualquer sustentação na biologia, nem na psicogênese essencialmente neurofisiológica.
A biologia, ao contrário, prefere enxergar o ser vivo, seja humano ou não, como uno e indivisível, não cabendo a dicotomia entre agente e paciente no processo de autoestima. E por ser uno, o indivíduo automaticamente se estima e basta! A biologia não nega a autoestima, mas tem dificuldade em aceitar sua variação em intensidade. Para a biologia, a autoestima é sempre positiva e não sofre alteração de valor. No estudo da vida, não faz sentido, se falar de fatores afetantes do aumento ou redução da autoestima.
Por fim, chegamos à pergunta crucial desse bate-papo: o ser humano ou qualquer outro ser pode zerar ou ter zerada sua autoestima? Ou pior: teria como gerar um auto ódio?
Em tese, não. Mas, como explicar o suicídio? Foi então recorremos a um vasto acervo de fotos, registros nacionais e universais de cadáveres após a consumação do suicídio, onde se focavam semblante e gestos. A análise comparativa destes com falecidos naturalmente ou sob sono denotava que quase a totalidade dos suicidas exibia contrações faciais, curvatura corporal, angulação de braços e pernas e outros sinais compatíveis com o sentimento de arrependimento, defesa, desistência ou discordância com a decisão de se matar.
N’outras oportunidades aprofundamos nossas considerações lendo relatos de pessoas que tentaram o suicídio, mas não o conseguiram consumar. Nenhum deles tentou uma segunda vez e todos mostravam arrependimento da intenção, bem como manifestavam alegria por ainda estarem vivos.
Sempre que encontrava a professora Izar Oswaldo Cruz, atualizávamos novidades documentais a contestar a variação de intensidade da autoestima e a celebrar a alegria de viver.
Roberio Sulz
Enviado por Roberio Sulz em 11/07/2018
Código do texto: T6387571
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Sobre o autor
Roberio Sulz
Alcobaça - Bahia - Brasil, 75 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/11/18 19:17)
Roberio Sulz