Montado na grana


Quando estou sem nenhum, tenho o costume de dar longas caminhadas pelo bairro pensando em dinheiro graúdo e imediato, de preferência caído do céu. 

Sigo pela margem esquerda do meu rio Tingüi, como quem vai para a estação de trem, sempre na esperança de avistar, atrás de uma árvore ou ao pé de um muro, uma bolsa de supermercado repleta de maços de cinqüenta e cem reais. 

Se querem saber, não se precisa de muita imaginação para montar o quadro. Eu, por exemplo, ganhei a mania de fabular que dois ladrões de banco, fugindo da polícia, viram-se obrigados a esconder ali o produto de um recente assalto, para se livrarem momentaneamente do flagrante. Bem-sucedidos nisso, terão de algum modo marcado o local e com toda a certeza voltarão mais tarde, quando a barra estiver limpa. 

Mas aí eu já peguei a bolsa e dei no pé. 

Isso mesmo. Pego a bolsa e volto para casa, as pernas numa tremedeira só. Por precaução, faço outro caminho. Afasto-me do Tingüi, contorno a Praça Estoril até a rua Costa Filho, saio no Campo do Toca e, logo adiante, alcanço o meu condomínio pelo portão dos fundos. Dá mais trabalho, mas vale a pena. 

Durante o trajeto naturalmente tentei calcular por alto o montante do achado. Pelo peso, uns duzentos mil, não tenho a menor dúvida. (É pinto para a Operação Navalha, mas por muito menos — a metade, se não me engano, e, oficialmente, ainda no terreno das suspeitas — caiu um ministro da República.) 

Já em meu quarto, depois de entrar no apartamento pela porta da cozinha para que minha mãe não adivinhasse nada, passo todo o conteúdo da bolsa para o gavetão do closet; estou branco de assombro e pavor diante de tanta grana. Deito-me um pouco e repasso toda a cena da rua do rio; não me lembro de ter visto gente por ali. Não, não, ninguém me viu. 

Ainda não quero pensar em como vou usar o dinheiro, no entanto retiro uma cédula de cem de um dos maços. Só uma. Novinha. Preciso comprar umas coisas lá fora. Não há simploriedade alguma nesse gesto. É que não quero me afobar. Há o suficiente no gavetão para pôr minha vida nos eixos e até ajudar a Betinha, que, antes de nos separarmos, dividiu generosamente comigo, sem um pio, muitos momentos de dureza. Ela merece. 

Confesso que em nenhum instante me passou pela cabeça a idéia de devolver a bolada. Devolver a quem, num país onde tanto homem público mete a mão na grande botija federal? Vamos com calma, é melhor que fique aqui em casa, o seguro do banco cobre. Com a devida parcimônia, se não lançar-me a ostentações descabidas, não tem erro: a família, os amigos, e até os mendigos de Marechal Hermes vão sair lucrando com a história. 

Se eu não tenho medo de ser tachado de desonesto pela minha própria consciência? Claro que tenho, tenho muito medo. Mas ela bem sabe que tudo isso são divagações de um pobre-diabo na pindaíba, sem maiores conseqüências. Não dá cadeia, não dá mídia, não dá bode.


[24.5.2007]