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Galho de Arruda


Betinha acha espantoso que depois de dois anos de grande rede eu ainda não tenha (pelo visto, não tinha) nenhuma crônica para o nome do meu sítio internético (http://galhodearruda.com).

Segundo ela, que me acompanha religiosamente aqui e na Agência Carta Maior, eu devia bolar um texto explicando por que escolhi Galho de Arruda para intitular esta pobre página virtual. Medo de olho gordo?, indaga minha ex-mulher, com aquele sorriso de encantar a alma que só as piscianas têm. Claro que não, menina. Quem vai botar olho gordo nos meus rascunhos?

Na verdade, o grande responsável por essa escolha não está mais aqui. Ou está, lá a seu modo. Olha para os meus cinqüenta e oito anos com estranheza, percebe que ando meio desanimado, sem grana, ganhando muito pouco com os meus frilas, além de uma pilha de contas vencidas sobre a velha mesa do meu quarto, no silencioso coração de Marechal Hermes.

Quanto a ele, esse garoto que está de olho no adulto inadimplente, bem mais esperto, contenta-se em trazer nos bolsos da calça curta bolas de gude e estilingue, e um perfumoso galho de arruda atrás da orelha. E olhem que tem orelha para isso. Se os seus cabelos de fogo não lhe tivessem arranjado logo de cara um apelido infernal, a orelha e o nariz estavam ali mesmo para nutrir a criatividade dos colegas de escola e de rua.

Vem daí o lance da prestigiosa rutácea: ele adorava o cheiro da arruda. Soubera pelos mais velhos de casa que a arruda protegia contra o mau-olhado, e botou na cabeça que podia cometer impunemente todas as diabruras do mundo enquanto o galho não secasse nem perdesse o perfume. Bom raciocínio, para um pirralho de nove anos de idade. Mas a vizinhança, sim, é que precisava de vários galhos de arruda contra ele, se além do mau-olhado ela também servisse para esconjurar espíritos de encrenca.

Um dia foi barrado na porta da escola pública, a Evangelina Duarte Batista.

“Tire esse mato da orelha”, ordenou a professora Heloísa, os olhos claros, um rosto lindo.

“Não tiro”, respondeu o garoto, forçando a passagem. Vendo-se imprensado entre a mulher e os que vinham atrás, explicou: “É proteção.”

“Proteção contra quem?”, insistiu ela, rindo. “Contra as professoras?”

“Não. Contra o Juscelino”, respondeu ele, peremptório.

Era assim mesmo: repetia, onde estivesse, as queixas de natureza política do pai janguista. Mas, depois de muita conversa, acabou enfiando o amuleto no bolso. Se tivesse de voltar para casa em virtude desse pequeno episódio de desobediência civil, entrava na porrada. Com ou sem galho de arruda.


[12.3.2007]
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 12/03/2007
Código do texto: T410368

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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