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Palavras mágicas


Em “Os saltimbancos”, crônica de maio de 1949, o homem Rubem Braga lembra a ocasião em que o menino Rubem Braga ouviu pela primeira vez na vida a palavra caniço. Ficou maravilhado. Caniço lhe pareceu “uma palavra estranha e supremamente elegante”. Até então, ele e seus colegas de tope chamavam apenas de iba o pedaço de bambu a que prendiam linha e anzol. Num dia em que pescavam piabas e moréias na beira do rio, tomou coragem e, para impressionar os outros, disse em voz alta a palavra abençoada. Ninguém reagiu. Na verdade, sem dar bola ao inusitado, mandaram ele calar a boca para não espantar os peixes.

Mas acontece com todo mundo, de alguma forma.

Meu pai só faltou pegar garfo e faca quando foi apresentado ao adjetivo consciencioso nas páginas de um romance. E lambia os beiços ao sublinhá-lo e anotá-lo numa tira de papel, que enfiou no bolso da calça. “Papai guardou uma palavra”, segredei a minha mãe naquela noite, cheio de pressentimentos. Depois que ele abandonou o livro — agora me lembro, não era um romance, era uma daquelas longas dissertações de concreto armado de Mário Ferreira dos Santos —, levei horas para localizar o vocábulo sublinhado, mas quando o encontrei não senti o mesmo apetite. Vai um pirralho travesso achar graça em consciencioso...

Já a menina Mariana, filha da poeta Hermínia Totti, encantou-se com a descoberta de boletim. “Trouxe o boletim, minha filha?”, perguntou sua mãe uma tarde. Mariana parou um instante no meio da sala, curiosa, os olhos brilhando de gula, e começou a estalar a língua, antegozando a delícia que devia ser uma fatia de boletim. Tinha uns seis anos a pequena, talvez não se recorde mais desse momento privilegiado.

E o meu amigo Águia Negra, velho parceiro de copo, há coisa de um mês gamou à primeira audição por lumpenproletariado e não quer saber de outro termo para caracterizar sua atual condição de vida. É a sua moeda forte no meio de outros fodidos em nosso bairro.

Comigo a palavra foi breve, quando eu terminava a escola-pública. “BREVE NESTE CINEMA”, gritavam os painéis de grandes filmes no saguão do extinto Bolinha, o mais prestigioso poeira de Marechal Hermes, e aquilo rendia meses e meses até entrar em cartaz, deixando-me furioso. Meu pai nunca entendeu como eu podia ficar triste quando ele anunciava para breve os passeios que de tempos em tempos fazia com a família.

Palavras mágicas, certamente. E ainda assim, com exceção de lumpenproletariado, palavras simples e casuais puxando diminutas pontas da vida, numa cumplicidade secreta com o inaparente do cotidiano.


[3.3.2007]
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 03/03/2007
Código do texto: T400156

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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