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Lojinha de internete


Já não me olham com a simpatia dos primeiros tempos na lojinha de internete que descobri em Madureira, não obstante toda esta minha pinta de inofensivo mestre-escola aposentado, quase saído das páginas do fatalista Thomas Hardy — em Judas, o Obscuro, por exemplo — para o apressado mundo dos chipes.

Chego por volta das oito da manhã, com o meu caderno de rascunhos debaixo do braço, e encontro a sala da lan house deserta, uma bênção. Afinal, há apenas cinco micros ali.

Escolho o mais próximo do janelão de sobrado, abro o editor de texto e dou uma boa escovada na crônica da semana, para não fazer feio na Agência Carta Maior, onde colaboro, nem desapontar os visitantes do sítio Galho de Arruda, minha página literária na grande rede.

Nesse meio tempo, uma garotada bonita e impaciente já invadiu a entrada do prédio e começa a espichar uma grande fila na calçada, olhando para mim com especiosa neutralidade. Há um crescente burburinho entre elas e eles, muita voz na muda, não entendo absolutamente nada do que estão tramando ou apenas contando uns aos outros. No entanto fica muito claro que exigem mais micros no estabelecimento e que não esperavam topar com um forasteiro cheio de dedos no pedaço. Nos velhos tempos eu tinha o hábito de rosnar nessas horas, mas agora não dá mais, é prejuízo certo.

Alvo da expectativa deles, que me querem longe deste pequeno escritório de aluguel, já não consigo navegar com segurança. Estou à deriva, pronto para abandonar o navio ao primeiro sinal de motim. Sei perfeitamente que não passam de grumetes, mas são grumetes de outra era, bem mais experimentados do que este soturno capitão de cabotagem. É melhor dar o fora.

Tento alcançar um porto seguro. Consigo colar o rascunho da crônica no meu Galho de Arruda, mas vejo-me obrigado a evitar outros sítios, a desviar-me da caixa de e-mails, a deixar para outra hora as revisões e traduções que me encomendam. Deleto rapidamente todos os meus rastros e abandono a sala, quase um farrapo. Ou náufrago.

À saída da loja, uma salva de palmas irrompe de todos os lados, celebrando minha rendição.


[23.9.2006]
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 27/02/2007
Código do texto: T395907

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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