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O caso da velhinha suicida


“Minha avó conta essa história a todos os amigos que trago até aqui para conhecê-la”, lamentou-se Maria Augusta depois de passarmos da sala de estar para a varanda da casa, deixando a nonagenária aos cuidados de uma auxiliar de enfermagem. (“Hora da papinha”, arrulhara esta última.) 

Uma história e tanto, pensei comigo, recapitulando mentalmente os lances principais. 

D. Elvira tivera uma paixão furibunda aos vinte e seis de idade — estava-se então em 1937 —, coisa de várias semanas e meia de amor, ele um médico recém-formado. Com o golpe de Vargas, ficou claro que as duas famílias achavam-se politicamente em campos opostos, e outro inferno teve início para ambos. Depois de acerba discussão com os pais, o rapaz acabou metendo uma bala de trinta-e-oito na cabeça durante o réveillon daquele ano. Num bilhete encontrado pela irmã no bolso do seu paletó dizia à namorada: “Te espero no céu.” Ela sofreu muito, mas não teve coragem de ir ao encontro dele. Em vez disso, dois anos depois casou-se com um primo cheio de grana, abandonou a cidade natal e sumiu completamente dos seus, como vingança. Desde 1987, quando lhe morreram o marido e a filha única, veio para esta casa em Madureira, perto da igrejinha branca, com a neta, duas empregadas e uma acompanhante. 

Vai no parágrafo acima apenas o resumo de uma longa contação que não teria graça alguma em outra boca. O resto é com minha amiga, quando ficamos a sós na varanda. 

Todo réveillon, nos últimos dez anos, a avó tenta o suicídio. Na hora do brinde de ano-novo, toma o seu champanhe com vários comprimidos encomendados pela neta a uma farmácia de manipulação. (Da primeira vez tinha sido remédio mesmo, e deu hospital. Para que a velha senhora não entrasse a bolar outros meios de abreviar a própria vida, todo 31 de dezembro Maria Augusta começou a deixar-lhe ao alcance, sobre a mesinha-de-cabeceira, um frasco de placebos.) Passada a meia-noite, a velhinha sossega, esperando, esperando..., e pega no sono. 

Na manhã seguinte está outra. Acorda, abre os olhos, contempla com estranheza os objetos familiares do seu quarto..., e parece até remoçar quando descobre que continua viva e bem viva, pronta para mais um ano de cuidadoso planejamento para a longa viagem sem volta.


[22.2.2007]
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 22/02/2007
Código do texto: T389923

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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