PARECER SOBRE O HOMEM E A SOLIDÃO

O escritor Thomas Merton em seu livro “Homem algum é uma ilha” (1957), nos fala de uma maneira profunda que uma pessoa é pessoa à medida que possui um segredo e constitui uma solidão que não pode ser comunicada a nenhum outro. Este pode ser o princípio da vida: ter consciência de que há um vácuo entre nós e nós mesmos. E por causa disto muitas vezes encontramos as dificuldades na comunicação com o mundo que nos rodeia.

Onde começa esse processo de solidão? Desde tenra idade imaginamos pelas nossas ilusões um mundo maravilhoso onde o poder e as realizações são infalíveis. Este processo nasce do espaço vazio deixado por aquela que nos cuida, ou seja, enquanto esperamos sua volta criamos esse mundo exclusivamente nosso. Assim, no convívio com tais ilusões podemos usufruir do prazer das idéias e dos sentimentos, mas numa convivência paralela temos que lidar com as frustrações impostas pela realidade do mundo que nos cerca, pois exponencialmente vamos descobrindo que nem tudo que pensamos e sentimos deverá ser correspondido com a realidade externa. Eis o principio da Solidão. É deste modo que marcamos as diferenças dentre todos nós, diferenças originadas das experiências corpóreas que imprimem as sensações agradáveis (aconchegos) e desagradáveis (desamparos) e das impressões deixadas pelas emoções e sentimentos vividos por nós mesmos e dos contatos com outras pessoas.

Nossa condição humana requer a presença do Outro, pois sem essa presença não seriamos capazes de nos cuidar nem desenvolver-nos satisfatoriamente, provavelmente nem teríamos um psiquismo constituído nos moldes do que descrevo aqui, ou seja, onde da falta surge o processo mental das ilusões e da presença o processo da realidade. Talvez por isto algumas pessoas fiquem inquietas quando estão sozinhas ou mesmo diante da dor, da doença aumenta o nível da angustia complicando muitas vezes o quadro do sofrimento em si. A doença de fato nos remete ao estado natural da solidão, afinal não podemos dividir com ninguém a dor, mas observamos que algumas pessoas encontram uma dinâmica pueril mesmo diante desta adversidade da vida. Acreditamos que são pessoas cuja vida mental foi intensamente lúdica sendo criativas e felizes.

Pressões do tipo: poder, dinheiro e bens de consumos somam pontos fortes que nos afastam de nós mesmos, nos jogam para além dos próprios desejos e seguimos como se, tudo que almejamos está de acordo com nossa inserção social e auto realizações. Resultado? Muitas frustrações, pois muito além das conquistas materiais intuímos uma necessidade de aproximação, de aconchego, de estreitamento com o próximo que pode nos levar a enriquecer mais ainda nossa vida mental. Queremos e esperamos que nos adivinhem as necessidades. Isto é complexo porque nos remete aos primórdios da vida de bebê, quando imaginávamos que a mãe compreendia e adivinhava quase todas nossas necessidades. Doce ilusão que mais uma vez levará a pessoa ao uma “bela” desilusão e incorrerá no isolamento, não o isolamento que conduza ao principio dos bons ideais, mas ao isolamento que leve ao sofrimento.

Constatamos na clínica, por exemplo, as insatisfações, os receios e as angustias originadas destas pressões externas do mundo atual, que incitam as pessoas a se afastarem de si mesmas, ou seja, do próprio interior marcado pelas experiências tão ricas ou não da tenra infância. Doenças como fobias; bipolaridades, suicídios; uso abusivo de drogas lícitas e ilícitas está cada vez mais presente em nosso cotidiano imprimindo com nitidez e força a realidade da vida atual e surgindo como válvula de escape a tantas pressões. Paralelo às mazelas humanas há a indústria das promessas e das soluções para tudo. Assim, mais uma vez, o ser humano vai buscar o reforço fora de si mesmo por temer que ao apresentar sua foto ainda no estado negativo esta revele a incapacidade que a pessoa teve de trabalhar, reciclar e tornar sua própria foto positiva, clara e nítida para nunca ser confundida com a sombra de outras pessoas.

Por Graça Costa

Amparo, 04 / 2012