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ANJO-HOMEM


Havia uma semana que o mês de setembro chegara. Em seus traços já havia os sinais do fim do inverno. Uma réstia de frio misturava-se a uma fumaça cinza que cobria as serras azuladas daquele recanto e o azul do céu. O verde ainda era mínimo porque o pó das queimadas cobria os cerradões. Mas já se via algum pé de ipê amarelo com sua florada intensa a marcar a imensidão daqueles cerradões ou algum vale perdido... Quanto mais rigoroso o inverno mais bela e intensa eram as flores que brotavam dos caules e galhos desnudos. Certamente já prenunciavam a primavera juntamente com a volta precoce das andorinhas com suas revoadas, ora rasantes, ora quase a atingir as nuvens. Talvez já pressentissem as primeiras chuvas e os odores dos brotos novos e das margaridas amarelas que se espalhariam entre os resquícios de cinzas.

Havia tanto pressentimento no ar... E não era somente o pressentimento da estação das flores, ou a chuva que a traria... Era algo que se espera, mas não se sabe quando chegará apesar dos cálculos e da experiência. Talvez fosse alguma matéria misturada à alma... Quem sabe uma nova vida gerada durante nove meses. Agora sei que o pressentimento tinha a ver com a nova vida que habitara esse paraíso, neste dia coroado por Nossa Senhora do Amparo. Talvez ela mesma tenha preparado essa chegada para proteger para sempre os novos passos. Trouxera para reverenciar o novo nascimento as flores amarelas do Ipê e as andorinhas que só voltariam na primavera.
 
Eu não tinha ainda quatro anos naquele dia. Certamente que jamais me lembraria desses pormenores da natureza e sequer guardei o semblante dos personagens. Mas os consegui florear à custa de minha imaginação e meus novos sentimentos. Entretanto guardei alguns fragmentos dessa lembrança. E sei que se tratava de minha família. Os vi como sombras na penumbra do quarto simples que recebia o mais novo rebento daquela família. Meu pai ajudava minha mãe porque uma vizinha que era parteira demorava. Quando chegou já havia uma nova vida nesse mundo, embora não me lembre do choro do bebê. Na memória de uma criança as lembranças são apenas essas sombras quais as brumas que certamente ainda cobriam o céu naquele fim de inverno, ou esses fragmentos perdidos que se escondem em algum lugar da memória. Entretanto, hoje estive a me lembrar e depois de tanto tempo quis reverenciar aquele dia especial, desenhando tudo em minha memória como sempre imaginei que tivesse sido. E penso que realmente fora como descrevi.

Então o que mais eu poderia dizer daquele dia se desenhei toda essa chegada de uma maneira diferente de um frio quarto de hospital já tão convencional para o nascimento de bebês naqueles tempos? Mas nesse quarto tinha a luz da natureza e Nossa Senhora do Amparo. Só hoje percebo que foi exatamente assim como descrevi e não apenas palavras embutidas de metáforas, criadas por alguém que se acostumou a escrevê-las. Havia no ar tudo isso: cenas cálidas, embora finais de inverno e pressentimentos marcados nessas voltas precoces de andorinhas e flores. Havia essa vida que chegava e ocupava um espaço...

Nascera um menino. O primeiro varão e o mais esperado depois das três meninas que vieram uma após outra. Era o sonho de meu pai, embora jamais reclamasse. Resignava-se ao destino biológico que comanda a ação dos cromossomos X ou Y responsável pelo sexo do ser humano, embora não soubesse nada disso. Eu mesma só descobri esses termos científicos muito tempo depois. Entretanto, em nada isso afetou a minha visão do misterioso ciclo da vida. Afinal ela foi criada somente por Deus, apesar desse desenrolar audacioso. E nascera essa nova vida naquela casa simples de chão batido e telhado baixo quase ao pé das serras azuladas. Nascera em comunhão com a pacatez da natureza que segue as estações. Não é de se espantar que seja tão reservado como essa natureza que lhe cercara o nascimento.

Dos meus irmãos, fora o único que nascera cercado por ela. Os outros, assim como eu, nascêramos no velho casarão de meus avós paternos, na cidade. Com certeza minha mãe errara a contagem de sua gestação. Ou será que a vontade de vir ao mundo era maior que o cronograma estabelecido pelo ciclo que gera a vida? O certo é que não esperou minha mãe ir para a cidade como sempre fazia quando os filhos estavam para nascer. Na penumbra e simplicidade daquele quarto ele nascera sob a proteção de Nossa Senhora do Amparo. Nascera antes de ir para a sala convencional de um hospital já tão comum naqueles tempos. Tivera a pressa das andorinhas que voltaram antes da primavera...

 Agora, eu o vejo homem já feito. Tão sereno! Uma aura angelical emoldurando seu ser. Nunca consigo ler suas expressões como nunca consegui ler as expressões da natureza. São tão misteriosas! Realmente nunca sei quando está zangado, triste ou feliz. Em todas as situações trás no olhar um leve sorriso exatamente igual, como se seu rosto fosse esculpido para ter exatamente aquelas feições. Com olhos serenos assiste ao movimento da vida e da natureza, sem manipular esse tempo que gentilmente lhe oferece todo o tempo que nós parecemos já não ter. O caráter de uma imparcialidade sem limites, nunca permitiu que questionasse sobre os desígnios da vida às vezes de profundidade insondáveis ou de curvas tortuosas demais para a mente humana. De todo o seu ser emana essa paciência e até certa dose de perfeccionismo.

Hoje, me questiono sobre esses mistérios. Há sempre alguns deles envolvidos em nossa vinda ao mundo e nosso jeito de ser. E percebe-se ou não. Depende da conjugação do verbo viver e amar. Questiono-me ainda sobre a felicidade e os sonhos que fariam parte dessa sua vida. Ele os teria? Certamente, como todos nós, teve ou tem seus sonhos. Se os realizou, não sei. Pois quase nunca fala de si mesmo. Desde seu nascimento fora assim diferente. Enquanto buscávamos nossos sonhos na cidade, ele voltou para a fazenda. Teve chances de seguir em frente, mas quis voltar para lá para viver essa afinidade que lhe marcara desde o nascimento.

Certamente é assim que é feliz. Seus sonhos são apenas os de momento ou o das horas seguintes, e a felicidade... Essa sim talvez seja eterna. E se não a tem, não se percebe. Mas tem a comunhão com a natureza e Nossa Senhora, embora não seja fácil também, num mundo onde a globalização dita ordens e alcança até o pacato viver de uma fazenda e de um jovem de serenidade intrigante. Um jovem com ar de anjo. Um anjo homem...

- Crônica escrita em 2005 em homenagem ao mais velho de meus dois irmãos ( o quarto dos seis filhos de meus pais)


Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 06/08/2010
Código do texto: T2422292
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 57 anos
1341 textos (58459 leituras)
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2 e-livros (150 leituras)
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Sonia de Fátima Machado Silva