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DEPOIS DOS QUARENTA...


Agora, aqui estou eu... Quarenta e poucos anos marcam meu caminhar... Percebo que eles avançam num silêncio quase nunca sentido e talvez ainda haja muitos deles pela frente. Mas quem sabe seja o momento de parar um pouco para rever todo o trajeto que ficara atrás dessa parada obrigatória. Para isso não importa a idade. É preciso rever decisões, promessas gastas em atitudes nunca tomadas. De repente percebo que devia estar mais amadurecida. O viver nos obriga a exercitar esse amadurecimento. Mas os caminhos trilhados quase nunca representam o sentir, mas aquela necessidade de sobreviver. E pareço cada vez mais distante dos valores que me foram ensinados, como se estivesse desaprendendo tudo aquilo que aprendi ao longo desses quarenta e poucos anos. Qualquer coisa me atormenta antes mesmo que se tornem reais, apesar do fascínio do desconhecido. Há sempre algo de perigo nessas incertezas... Esse esperar o inesperado a escoar em todos os reflexos de minha vida...

Confesso que isso tem me cansado um pouco. Não essa sensação de ter vivido a metade de uma vida. Mas essa sensação de estar desaprendendo em cada imprevisto de meu percurso. E me atrapalho, não vou negar. Penso realmente que não amadureci. Pensando bem... Não sou essa mulher guerreira ou fatal que sempre pensei ser. Iludi-me procurando autodefesa em ares superiores ou assumindo controles. Talvez eu não quisesse admitir ou deixar transparecer minhas falhas. Mas hoje elas são tão visíveis que já não tenho nem a capacidade de ocultá-las. E antes pensava que o selo da perfeição estava estampado em meu ser.

O que me fez mudar de idéia foi uma crônica de Lya Luft que li na Revista “Veja”. Segundo ela toda essa crença de mulher perfeita é um mito e que somos, na verdade, umas chatas, que vivem a limpar, cozinhar, irritar e comandar. Não vou dizer que gostei do seu ponto de vista, mas acreditei nele, porque de repente vi minha caricatura desenhada sobre aquelas palavras. Nunca mais consegui me olhar no espelho sem pensar nelas. Penso que o efeito foi devastador para o meu ego e não tem sido fácil superar essa verdade.

Hoje percebo que não sou nada mais que uma dessas mulheres citadas por Lya Luft. Há uma máscara que caiu... E não me senti bem. Já nem consigo calçar as luvas de aço que antes me defendiam e me faziam forte ou apenas me davam essa ilusão. Penso que me tornei ainda mais frágil. Se já não era... Apenas escondida nessas máscaras de mulher guerreira. Mas a verdade é que há tantos imprevistos provocando minhas limitações. São tantos ideais a serem reavaliadas. Por isso essa parada obrigatória. Esse estudo de mim mesma... Talvez eu ainda precise vencer-me.

Nesse repensar, descobri então que não é fácil ser mulher. Carregar esse desígnio de fêmea e o mito da perfeição, e embora frágil, se sustentar nas máscaras de mulheres fortes. Ser cobrada bela beleza eterna e a elegância, quando na verdade o que mais quer é calçar aquele chinelo e arrastá-lo pesadamente pela casa ao final de um dia. Não é fácil ser cobrada ou criticada até por um mínimo detalhe. Ser culpada pelo silêncio e pelas mudanças repentinas de humor. Isso com certeza cansa um pouco. Não tenho muita disposição para carregar esse desígnio, embora não seja nada mal ser frágil... Na verdade eu não sei se queria ser frágil... O ser mimada como se fosse um vaso de cristal não combina comigo.

Mas talvez eu quisesse ser desligada... Isso sim... Talvez eu quisesse... Poder chegar à tarde, largar os sapatos num canto qualquer da casa, a roupa pendurada numa cadeira e me largar num velho sofá só com meu cansaço e meus pensamentos. Não se importar com o jantar por fazer, a casa para limpar... Não se importar com essas coisas que nos dão o selo de perfeição. Não fazer tudo certinho, a tempo e a hora e ainda manter a pose de mulher fatal. Manter a lucidez, mesmo quando lá no âmago, todo o ser está em litígio total com o mundo aqui fora. Não, não quero viver além desse limite de perfeição...

Certamente não é fácil ser mulher. Depois dos quarenta, então... Antes disso não se tem muitas cobranças. A juventude é perfeita até nas suas falhas. Mas depois dos quarenta, até a perfeição tem suas falhas. E ainda tem esse olhar no espelho... Tentando não enxergar (ao mesmo tempo já descobrindo) as marcas do tempo; marcas de expressão... Desencantos... Poucos sucessos... Rastros apagados no caminhar, muitas vezes sem importância. E ainda sentir que a juventude passou como um relâmpago, e então, descobrir que até o corpo já não responde pelos anseios. Ainda, depois de tudo, sentir o fantasma da menopausa se aproximar. Esse inimigo oculto e devastador de hormônios que tornam vivos o corpo de uma mulher. Dizem que ele é traiçoeiro. E talvez possa estar logo adiante dessa minha parada. Será que saberei encará-lo? Penso realmente que não amadureci até esse limite.

Porque será que as mulheres têm esses ciclos? Porque a cada tempo, a cada dia, o corpo reage de uma forma diferente, e até mesmo estranhamente? Mulher chora sem um motivo exato em algum dia do mês ou debaixo do chuveiro para não demonstrar suas mágoas. Mulher tem um humor volúvel, dependendo do ciclo em que se encontra e ainda é culpada por isso. Mulher engole ressentimentos sem ter o direito de gritá-los ao vento. Mulher fala sem parar, expulsando as feras de dentro de si e depois se recolhe fazendo renúncias. Mulher é assim... Às vezes soberana... às vezes submissa. Acho que o lado submisso prevalece mais. Ainda assim, não é compreendida. Mulher... Quem entende cabeça de mulher... Ainda mais depois dos quarenta...

Há um mito de que quarenta é a idade da loba. Loba voraz... Sedenta... Para mim, significa mais uma metade... Metade de um passado e metade de um futuro. É a idade em que o corpo e a alma já têm metade de uma história ou a metade das marcas superficiais que conseguirá ao longo da vida. E ainda pode ainda significar o dobro de duas mulheres de vintes desejadas e compreendidas até em suas falhas. Já em uma mulher de quarenta, não se aceita muita coisa, quanto mais uma falha. Realmente não é fácil ser mulher. Mas é bonito ser mulher. Porque acima de tudo, ser mulher é ter sentimento.

Agora, aqui estou eu... Quarenta e poucos anos... Tentando justificar uma idade e suas mudanças. Tentando justificar sentimentos de auto-estima arraigados nem sei desde quando. Para quem afinal? A quem interessa todos esses conflitos? Penso não haver compreensão para uma mulher depois dos quarenta... Apenas cobranças... Talvez falte sabedoria para lidar com todas essas transformações. Mas nunca ouvi falar de mulheres sábias ou da sabedoria de uma mulher. Acho que essa sabedoria é algo secreto, bem íntimo. A sabedoria de lidar com nossos ciclos. Penso que a mulher é o ser mais mutante desse planeta.

Tudo isso, realmente tem me cansado. Tenho a sensação de já não esperar muito, depois de exigir tanto de mim mesmo. Depois de ter deixado passar tantos momentos... Depois dessa pretensão de alcançar o infinito. Mas o que é o infinito para uma mulher? Talvez ser boa de cama & mesa. Na verdade o que eu espero é bem pouco. Certa paz para seguir em frente talvez a outra metade de minha vida; um equilíbrio de mim mesmo e essa maturidade que pareço ainda não ter...

Preciso enfrentar-me... Dessa vez, sem medo de ver além de mim e além dessas linhas de expressão que ousam marcar meu olhar. Acho que ainda posso ser eu mesma, se ainda não fui. Porém, sem essas pretensões de mulher forte ou fatal. Afinal, são só quarenta e poucos anos. Toda idade tem seu indizível brilho. Devo ter o meu. Mas que é difícil ser mulher depois dos quarenta... Ah! Isso é...




 
Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 03/08/2010
Reeditado em 27/09/2020
Código do texto: T2415896
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 57 anos
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