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Os Imortais

- Não é irônico que a imortalidade não se obtenha em vida? Refiro-me, naturalmente, à imortalidade atingida através do sucesso pessoal.

Olhei para o meu velho pai, sentado do outro lado da mesa onde tomávamos chá, numa tarde de inverno.

- Talvez esta seja a única forma de imortalidade que viremos a conhecer - repliquei, após tomar um gole de chá. - A ciência ainda não conseguiu nos conceder o segundo tipo, aquela de corpo presente, da qual só deuses e semideuses desfrutam.

- Eu não gostaria de ser imortal no meu presente estado - enunciou ele, solenemente. - A mim, a imortalidade do primeiro tipo bastaria.

- A decadência do corpo é algo que atinge todos os seres viventes - refleti. - De fato, uma imortalidade de dor e sofrimento não é algo que pareça aprazível...

Eu ia completar a frase, lembrando que todos morremos justamente para que isto não ocorra, mas me pareceu desnecessário e cruel. Meu pai era inteligente o suficiente para entender o que eu deixara nas entrelinhas.

- Um mundo de imortais só faria sentido se todos parassem de envelhecer - prosseguiu, pausadamente, ajeitando a manta sobre os joelhos. - Assim, poderiam gozar plenamente da vida, pela Eternidade... ou pelo menos enquanto se sentissem dispostos a tal.

- Então, apenas a imortalidade não basta - ponderei.

- Não - acedeu ele. - É preciso sentido. Se não houver um motivo para se querer continuar vivo, de que vale a pena continuar a viver?

Eu o encarei, preocupado, as duas mãos em torno da xícara de porcelana, como se ela fosse cair da mesa e se despedaçar. Sobre o aparador ao lado da mesa, algumas velhas fotografias emolduradas; dentre elas, uma de meu pai e minha mãe, ainda jovens, abraçados e sorridentes num dia de verão qualquer, décadas no passado. Um tempo onde eu ainda não havia sido.

- E por isto, todos nós partimos um dia - continuou serenamente. - Talvez haja uma outra vida... eu não sei; mas mesmo caso exista, se não houver o motivo de que falei, eu preferiria o oblívio.

E erguendo a xícara e a apontando na minha direção, como se fosse uma espada, declarou:

- É preciso dar espaço às novas gerações.

- Que elas possam buscar a própria imortalidade - redargui como que num brinde, apanhando o bule e enchendo novamente a minha xícara.

E como ele continuasse com a xícara em riste, indaguei:

- Mais chá?

- [11-12-2019]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 11/12/2019
Código do texto: T6816422
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo