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Lendas do Sertão

No sertão nordestino, por volta de 1923, reinava o medo por causa da campanha empreendida por um grupo de cangaceiros, chefiados por Virgulino Ferreira, o famoso Lampião. Seu grupo era formado, exclusivamente por marginais que o idolatravam, por causa da violência e, pasmem, por saber ler e escrever, algo raro por aquelas bandas.
O grupo vivia errando pela árida caatinga nordestina, porque já eram tidos como foragidos da justiça. O constante deslocamento fazia parte de uma estratégia de Lampião para confundir e dificultar qualquer tentativa de tocaia contra o grupo.
O sucesso da metodologia de trabalho do grupo constrangia as autoridades e servia de pano-de-fundo para diversas histórias que se tornaram fantasiosas lendas, cordéis e canções no imaginário popular. Por vezes até transformando-os numa espécie de justiceiros sociais, por atacar bancos e grandes fazendas.
Como aconteceu daquela vez em que...
O ano era 1934, o amado Padre Cícero acabara de falecer, seu secretário, Benjamim Abrahão, teve a ideia de ir ao encontro do bando de Lampião para fazer o registro fotográfico de suas façanhas. Mas, a dificuldade de encontrá-los era muito grande.
Sabendo das intenções do libanês, Lampião destacou dois cangaceiros para buscá-lo. Juriti e Marreca partiram rapidamente para cumprir a ordem do capitão.
A jornada através do sertão podia ser muito desgastante, mas os cangaceiros já estavam acostumados a dura vida, ambos alternam entre a cavalgada e caminhada, é nesse momento que Marreca chuta um objeto estranho, que estava enterrado na terra.
– Juriti, diabéissaqui?
– O que é?
– Essa caixa durinha que ‘contrei na areia.
– ‘Xô, vê. Da cá.
– Tem um vrido mei estranho nessa cosa aqui.
Marreca estende a mão com o objeto e entrega a Juriti.
– Nunca vi isso não. Tá pareceno um espeio – Juriti coça a cabeça, virando e revirando a caixinha.
– Espeio preto? Num deve di sê não. Será que é uma arma?
– Oxi, se for, deve ser muito difícil de usar. É mais leve que pedra. – Juriti balança o objeto na mão para ter uma ideia de peso.
– Tá pareceno prásco, né?
– Num é qui é? Será que isso é coisa dos ‘macaco’?
– Credo, só pode.
Os cangaceiros recomeçam a jornada montado em seus cavalos, Juriti devolve o objeto a Marreca. A caixinha preta, que cabe na palma da mão do cangaceiro o deslumbra. É mais fino que um tijolo e mais leve que uma pedra. Não tem um cano pra sair as balas, e nem gatilho para apertar, mas as formas retangulares, bem torneadas e as dimensões compactas do objeto davam-lhe a impressão de que era algo valioso.
– Juriti?
– Qui é?
– Tô pensano nesse troço acá.
– E daí?
Marreca continua manuseando o objeto.
– Num tá pareceno aquelas paca de cigarro?
– Tá não. – Juriti responde olhando a mão do companheiro. – É muito fininho, num cabe nada aí drento dissaí. Nem tem boca pra punhá nada, sô.
– Sei lá, eu queria tanto sabê de que serve um troço disso.
– Ará, larga mão de ‘cê besta, ômi. Isso é só um trequinho de criança. – Juriti desdenha.
– Sará? Um negocim desse tão bem feitinho, pra criança?
– Oxi! E né não? – Juriti retoma o objeto. – Ói, bem, num asserve de arma, num é pesado, num leva cigarro, entonce é de criança, só pode.
– Ômi, num é que vosmecê pode tá certo. – Marreca pega de volta. E guarda no bolso da calça.
A cavalgada dos cangaceiros continua, até quase o pôr-do-sol, Marreca leva as mãos acima dos olhos a fim de fazer sombra e enxergar melhor o caminho.
– Acho que arrente só achega amanhã.
– É memo, vamu armar as mochilas aqui pra mode descansar.
Assim que apeiam começam a retirar as cobertas do lombo dos cavalos. O cansaço os obriga a adormecer rápido.
Assim que os primeiros raios de sol surgem no horizonte, Marreca dá um salto assustado.
– Valei-me Padim Ciço!
– Qui foi ômi? – Juriti também se assusta.
– Tem um treco tremendo aqui no bolso.
– O qui é?
– Ói, ói, ói... – Marreca retira o objeto do bolso e joga no chão.
– Credospai! – Juriti também se assusta.
Ambos saem correndo e se jogam no chão atrás de um arbusto ressecado.
O objeto continua vibrando e começa a tocar um som de música.
Os cangaceiros se entreolham. Juriti puxa o revólver e aponta para o objeto. Ele atira duas vezes, mas erra o alvo. O objeto continua vibrando e tocando. Marreca se levanta.
– Ô, Juriti, vosmecê num disse que isso pode ser cosa de criança?
– É, disse, mas nunca vi nada disso não.
– Esse troço começou a tremer e agora tá saino uns sons meio estranho.
– É, eu sei, tô veno tumém.
– Acho que num percisa quebrar o treco não.
– Oxi! O que então?
– Num tá pareceno música? – Marreca se aproxima cautelosamente.
– Diab’di música, ômi?
– Tô falano. É música, ói só.
Após a parte instrumental, uma voz humana (ou algo bem próximo) começa a sair do objeto.
– Issé um ômi cantano? – Juriti está cada vez mais desconfiado.
– Só pode, num conheço ninhum animar cuma voz dessa.
De repente o objeto para de tocar e tremer.
– Ói, ói, viu?
– Vi? Vi o quê, ômi?
– Parô!
– Ára, isso eu sei. Mas, i agora?
Marreca pega o objeto.
– Tá inté mei quentinho, ói.
– Ômi, larga isso de mão, né cosa de Deus não.
– Ára, até qui achei bunitim. Ói, aqui, Juriti.
– O quê?
– Apareceu umas cosas aqui no vrido.
– O que é?
– Ói, que diabéisso? É letra, é?
– Ára, sei não. Só o capitão que conhece esses rabiscos.
– Eu sei tumém, ele me ensinou argumas letras.
– Ára, intonce me diz vosmecê!
– Tem um “A”, um “L”, ôtro “A”, esses dois num sei, mas esse úrtimo é “E”.
– Issé o quê entonce?
– Ára, sei não.
Juriti faz uma careta de quem não quer perder tempo, ele pega o objeto na mão. Percebe o calor que emana dele e olha para o amigo.
– Marreca, pára e pensa numa cosa.
– O que é?
– Quem escreveu issaqui?
– Ára, sei não, pareceu aí, ué.
– Tô falano qui issé é de Deus não, ômi.
– Sará?
– Isso treme, sai uns som estranho, uma gente cantano e agora umas letra... Issé cosa do cramunhão, ômi. Melhor arrente se alivrar disso.
– Oxi, vosmecê acha?
– Pelo Padim Ciço. Acho sim.
Marreca tira o revólver da cintura, coloca o objeto no chão e o estraçalha com o punho. Depois cava um pequeno buraco e coloca os estilhaços nele.
Mais meio dia de jornada, a dupla encontra com Benjamim e retornam para o bando sem nenhum outro incidente.
Essa história foi contada por um tal Chiquinho lá pelas bandas de Juazeiro. Talvez seja mais uma obra da Divina Providência. Todo mundo sabe que “a voz do povo é a voz de Deus.” Mas a verdadeira pergunta a ser feita é: como um aparelho celular foi parar no meio do sertão nordestino em 1934?
Pio Cândido
Enviado por Pio Cândido em 09/12/2019
Código do texto: T6814732
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Sobre o autor
Pio Cândido
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 52 anos
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Pio Cândido