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E vieram as Flores

Alan olhou para o céu, e se deu conta de como estava escuro. Ele via, sempre ao longe, uma linha negra se formar no horizonte. Sabia que elas chegariam em breve, as nuvens escuras e tempestuosas. Desde muito cedo ouvia falar delas, de como elas iriam chegar e qual seria o seu destino quando elas chegassem. O que Alan não percebeu foi que elas já haviam chegado, de como não se via há muito sequer fio de luz do sol, ou visão qualquer que fosse do céu. Acostumado a olhar sempre para a frente ou para baixo, mas nunca para o alto. Olhar para o alto era para tolos, e com efeito, naquele mundo apertado e cheio de gente e coisas acontecendo diante dos olhos, olhar para cima, naquele movimento frenético do cotidiano apenas garantiria um esbarrão numa parede, no mínimo.

Mas não havia tempestade alguma no céu. Apenas nuvens densas e silenciosas bailavam, espessas, ondulando, pulsando. Toda a gente parecia fingir que não estava ali toda aquela escuridão, aquela falta de cor. Sussurravam, com sorrisos
sempre estampados no rosto, elogiavam-se mutuamente com elaborados rapapés a cada míninimo gesto. Tudo parecia ao mesmo tempo tão esfuziante e tão comedido. E seus lábios não se moviam, apenas saíam suas vozes, a única coisa que parecia vivaz nelas eram seus olhares, frenéticos, cheios de aprovação, reprovação, ira, tristeza. Emoldurados num sorriso perfeito.

Mas ele não sorria. E por isso mesmo, as pessoas lançavam-lhe seus sorrisos perfeitos e seus olhares de reprovação e desdém, desviavam dele como se portador de alguma doença contagiosa e incurável, como se ele fosse uma rocha no leito de um rio cujo fluxo o contornava sem tocar. E assim ele seguia, retirando ocasionalmente do bolso pequenas e mimosas fotografias em sépia, e sempre que o fazia para olhá-las, era como se as manchas dos filmes o impregnassem.

Ele sabia para onde precisava ir. E sabia também ser impossível chegar lá. Não era por uma necessidade literal, mas para onde sua natureza o conduzia. Ele cortava a multidão, que fluía na direção inversa. Não havia um horizonte visível, apenas uma infinitude de pessoas e coisas, interminável, e também não havia um céu para guiar-lhe. Não havia um sol, para dizer-lhe as horas - também não havia mais horas. O tempo fugiu, as pessoas perseguiam-no, mas ele estava tão à sua frente, que as pessoas já não mais viviam no tempo. Cada um criava um arremedo de tempo, na busca por sincronia, e cada qual clamava saber como o tempo realmente era, mas na verdade ninguém fazia a menor ideia de como era. Um dia qualquer elas simplesmente desapareciam e ninguém tomava conhecimento.

Alan também não sabia mais o que era o tempo. Também não sabia mais o que estava fazendo. Sentindo-se cansado, deitou-se ali mesmo, no meio de alguma coisa por onde as pessoas transitavam ao seu redor, fechou os olhos. Então todo murmúrio tornou-se mais distante, toda aquela realidade frenética parecia cada vez menos real, como um sonho do qual se desperta aos poucos, mas ao contrário.

E então, flores nasciam de onde ele havia deitado.
Ricardo Takeru
Enviado por Ricardo Takeru em 07/12/2019
Código do texto: T6813245
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Sobre o autor
Ricardo Takeru
Salvador - Bahia - Brasil, 43 anos
5 textos (39 leituras)
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