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CANÇÃO DA ETERNIDADE NA MANSÃO DO SENHOR DO TEMPO

A Canção da Eternidade na Mansão do Senhor do Tempo... É a única coisa que escuto. Ou penso escutar. Sinto dentro de mim engrenagens silenciosas como de pequeninos e exatos relógios. A melodia triste do Mestre da Eternidade, o Senhor do Tempo - parece viajar por todo o universo, o único ponto de referência em Tudo O Que Existe.

Entro pelo salão, e tudo o que sinto é um estase opressor. Tudo. Em. Seu. Perfeito. Lugar. Exceto eu. Eu obviamente não sou daqui. Eu respiro, eu me movo. Eu sou Caos encarnado. Minha mera existência ofende este lugar. Olho para o alto, e encontro literalmente a abóbada celeste, céus de estrelas que nunca verei, estrelas ainda por nascer e estrelas que há muito já faleceram. Uma sensação terrível de medo me domina, diante da minha pequenez diante do infinito. Minha respiração pesa, o menor gesto ofende uma placidez sagrada e poderosa que rege este lugar. Ainda assim, eu, nascido humano, violador da serenidade cósmica, estou aqui. E algo parece perturbadoramente errado.

Baixo o meu olhar e vejo a paisagem dominada de ruínas, de construções milenares em pesados blocos de granito, que de tão pesados, não necessitam de qualquer coisa que os una, ou ao menos assim parece ser. Colunas que se lançam aos profundos infinitos, escadarias desgastadas de pura pedra. Elevações em vários níveis, até o solo pavimentado com pedras. Ele parecia ao mesmo tempo jamais dantes pisado e no entanto também testemunhado em sua superfície toda a epopeia de tudo o que caminha ou rasteja. O lugar, porém, parece projetado por uma mente humana, anacrônica, porém temporal. Há uma noção de conforto neste lugar. Como se cada coisa estivesse ali posta para o conforto de quem habita.

Caminho um pouco mais, iluminado apenas pela luz cósmica de nebulosas, estrelas arqui-distantes e outros corpos celestes que minha mente jamais cogitaria existir. Não há paredes aqui, apenas essa construção estranha, majestosa e bizarra que parece não ter tamanho. E conforme caminho, deparo-me com horror e surpresa, com monstros terríveis de eras desconhecidas. Todos extremamente vívidos, seu olhar feroz e brilhante, VIVOS, porém perfeitamente estáticos. Cada um deles jazia sobre um piso que tinha em seu desenho símbolos de signos zodiacais sulcados, emitindo um brilho contido e forte, concedendo uma iluminação que acentuava ainda mais as feições aterradoras daquelas criaturas, projetando em sombras os seus relevos de gárgulas. Sim, eram como gárgulas. Alguns com asas membranosas lembravam extintos monstros de nosso mundo, outros ainda pareciam saído da imaginação impressionável de um bucólico idoso. Alguns desafiavam mesmo a compreensão e a imaginação. E estavam todos ali, parecendo fitar aquele profundo infinito ao mesmo tempo em que pareciam olhar diretamente para dentro de mim. Não havia batidas de coração, pulsar, respiração. Eram estátuas do Tempo.

Excetuando algumas colunas, salas e escadarias, não havia paredes ali. Por toda parte tinha-se a visão plena do vasto universo. Mesmo por algumas falhas ou rachaduras no piso poderia-se vê-lo. A sensação de desamparo me domina, me congela, sinto-me à deriva naquele oásis de serenidade. A única coisa que parece viva ali, além de mim, é a música silenciosa que se insinua em mim. Não a ouço com os ouvidos, eu a sinto, sinto-me flutuar em sua melodia como uma folha pequenina que flutua à água de um lago plácido, e movida por uma força desconhecida, está ora aqui e ali. A única sensação que parece maior que o medo é o respeito. Há algo majestoso naquele lugar, e talvez eu fosse o único dos únicos mortais a jamais adentrar aquele lugar. E o deslumbre e fascínio parecem misturar-se aos sentimentos anteriores, sobrepujá-los. Minha mente é um caos, e somente diante da perfeição, do êxtase e estase, percebo-me como sou. E sigo caminhando naquele mundo sem fim.

Percebo, depois, engrenagens colossais, igualmente sem movimento algum. Diferente das ruínas, todas pareciam em perfeito estado, como se tivessem acabado de ser concebidas. Acobreadas e polidas, frias, perfeitas. Pouco a pouco elas começam a dominar o cenário, partilhando espaço com runas e monstros, arcadas, torres. Tapeçaria vistosa desponta aqui e ali, e neste momento sinto que estou sendo conduzido. Como se o Acaso fosse uma força viva e guiasse não os meus passos, mas meus desejos, minha curiosidade. Já não me sinto tão intruso. Eu sinto que estava ali porque DEVERIA estar. Sentia-me mais parte daquilo, daquela gama de tudo o que existe.

Então, meu olhar e minhas dúvidas concederam-me as respostas que eu buscava. Uma gigantesca ampulheta estava destacada num dos salões, e detive-me olhando para ela, fascinado pela areia que jazia em pleno ar, sem jamais escoar, a meio caminho do desconhecido futuro e ainda ligada a um imemorial passado. Ao contemplá-la, contemplei a mim mesmo, minha verdadeira natureza, uma faísca no tempo, ignorante do antes e do depois, existindo por um mero e infinito instante. Havia mais verdade num daqueles minúsculos grãos de areia que em tudo aquilo que jamais conheceria. Eu estava contemplando a essência do Tempo.
Em algum instante, porém, meu olhar veio à base da ampulheta. Seu vidro estava quebrado numa das partes, e parte da areia assentada na porção inferior parecia escorrer e desaparecer sem destino.

Com as mãos em concha, peguei um pouco daquela areia, e tentei por de volta em seu interior, mas era inútil. Não sei quantas vezes tentei fazê-lo, mas ela sempre escorria por entre meus dedos, ou pelos lados, e o pouco que eu punha escorria de volta para fora, da mesma maneira que estava quando encontrei. Mas não havia mais nada ou ninguém naquele lugar, então não restava-me muito a fazer além disso.

Dado momento, olhei para o alto e uma ideia absurda veio à minha mente. Tomei um punhado de areia e rumei para a escadaria de pedra que levava ao topo da ampulheta. Por lógica, se eu não conseguia portar a areia o suficiente para a câmara inferior, que estava a menos de um metro dos meus pés, seria impossível fazê-lo depois de algumas centenas de degraus. Mas como disse antes, nada mais havia ali. E assim fiz.

A cada punhado que levava, quase toda a areia se perdia na subida, mas o único grão que restava, eu conseguia guardar bem a punho cerrado e depositá-lo na câmara superior. Não importava o quanto eu pegasse de areia a cada vez, onde eu acondicionasse, fossem mãos ou bolsos, tudo o que restava era um mínimo grão. Mas por tolo que fosse, sentia que eu estava fazendo algo certo. Descia a escadaria, ia até a base pegando um pouco da areia, subia aquela infinidade de degraus para depositar um mísero grão. Não sei quantas vezes o fiz. Cem? Mil? Dez mil? Fui fazendo aquilo, como se fosse uma máquina, apenas seguindo minha natureza, meu desígnio. E com efeito, a areia na base estava a diminuir, até que não havia mais nenhuma areia vazando. O vidro na base pareceu então restaurado, como se jamais tivesse se quebrado. E o impossível aconteceu.

A areia na ampulheta tornou a descer, e as melodias e sons que eu ouvia somente dentro de mim encheram aquele lugar. As engrenagens começaram a se mover, elegantemente, e os tique-taques vinham de toda parte. Aquela música melancólica e monótona, e ainda assim belíssima me envolveu por completo. As criaturas, outrora estáticas, moviam-se e faziam sons diversos, embora ainda confinadas a seus círculos de pisos com símbolos zodiacais. Arcadas que levavam a portas inamovíveis agora jaziam escancaradas, e o estase opressor havia sumido. Eu respirava, e parecia que o meu ritmo e o pulsar daquele lugar, daquelas luzes, daqueles sons, estavam em harmonia com a Melodia. E eu senti-me em paz.

Seguindo aposento após aposento, deparo me com o grande Salão do Tempo. Em seu centro, a criatura mais bela que já vi... Tinha a pele pálida como mármore, feições finas e suaves, perfeitas, e trajado de forma impecável, porém simples demais para alguém que teria a eternidade a seu dispor para embelezar-se. Encontrava-se sentado em seu trono, com o olhar vívido e mortiço, em igual porção. Sentado com a cabeça apoiada num dos punhos, ele fitava-me com certa curiosidade, e um sorriso sutil como o da Gioconda fazia-me crer que eu era bem vindo.

O primeiro impulso que tive foi o de curvar-me, mas detive o gesto por receio de ofendê-lo ainda mais se o fizesse. Fui então calmamente em sua direção.

Ele fez o gesto para que eu ficasse à vontade, e não se de quando parecia haver uma mesa ali para dois. Sentei-me e estava diante dele a menos de um metro, aquela figura de enorme majestade, beleza e fascínio parecia igualmente encantado comigo. Fitava-me com uma curiosidade pueril nos olhos, apesar de trazer consigo a sabedoria de milênios. Ele apenas sorria para mim de uma forma quase paternal.

Pensei em fazer-lhe perguntas, e ele visivelmente as esperava. Mas de alguma forma, eu sentia que já tinha as respostas - fato que ele também sabia. De outra forma, a inquietação e o desconforto jamais teriam cedido. Se eu estava diante dele, eu já tinha as respostas que minha breve existência insistia em formular. De alguma forma eu sentia que havia um diálogo interior, do qual ele tomava parte silenciosamente. E era assim que o Senhor do Tempo falava. Eu tinha todas as respostas, só precisava lembrar onde estavam. Cada lampejo de esclarecimento meu era seguido de um sorriso seu cada vez mais evidente. Comíamos e bebíamos de algo que não sei o que era nem de onde vinha, mas que de nada importava.
Eu estava ali para fazer o tempo fluir. Para quebrar a sua solidão. Para obter compreensão. Para me encontrar. Ele estava feliz. E eu também.

Ele me dissera, finalmente em palavras, que ele era o Senhor do Tempo, não porque ele o dominava, mas porque ele O entendia. Que ele era um imortal, mas ante a vastidão do cosmo, ele e eu éramos igualmente insignificantes. Ele acolhia a mim como a um irmão há muito perdido. E que ali ele aprendera a magia do tempo, e a refinava - em sua fortaleza ausente do tempo. Quando indaguei-lhe se precisava de aprendiz, fez que não - Pois ele era eterno. Queria sim, um amigo.

-Por quanto tempo? - Finalmente indaguei.
-Pelo tempo que você existir, respondeu sereno.

E assim fui, até o fim dos meus dias.
...
...
...
∞
Ricardo Takeru
Enviado por Ricardo Takeru em 27/11/2019
Código do texto: T6804673
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Sobre o autor
Ricardo Takeru
Salvador - Bahia - Brasil, 43 anos
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