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Conto: Liberdade religiosa em Xeque: A Rússia e as Testemunhas de Jeová.

Esse conto foi classificado como surreal, pois é uma história fictícia (baseada na realidade atual) que se passa no futuro e, apesar de muitos acharem improvável, mostra os possíveis desdobramentos da perseguição religiosa contra as Testemunhas de Jeová na Rússia.

2053 A.D.

 
Mikail Glazkov é naturalizado brasileiro. Filho de imigrantes russos que chegaram ao Brasil com outros imigrantes que fugiam da perseguição na Rússia contra as pessoas de sua religião, que teve início quando a mesma foi considerada extremista trinta e seis anos antes, em abril de 2017. Mikail é Testemunha de Jeová. Em 2020 ele tinha apenas alguns meses de vida, quando sua casa foi invadida por policiais russos armados que exigiam dos pais de Mikail, Vasily e Natasha Glazkov que entregassem tudo que possuíam sobre sua “seita” (como muitos opositores chamavam a religião deles). Aquilo parecia desnecessário, especialmente pelo testemunho de vizinhos, que atestavam que o casal Glazkov era amigável, sempre ajudando os vizinhos do edifício onde moravam e, diziam os vizinhos, com exceção de serem Testemunhas de Jeová, eram pessoas exemplares.
Talvez porque estavam com um filho pequeno, não se sabe até hoje, Vasily e Natasha não foram presos naquela noite, mas muitos de seus “irmãos” na fé foram. Inclusive o irmão carnal de Vasily, Nicolay. O procurador de Justiça na época das prisões, Svetlana Borisova, disse a uma agência de notícias que as Testemunhas de Jeová representavam "uma ameaça aos direitos dos cidadãos, à ordem pública e à segurança pública". Ele também afirmou, mostrando total desconhecimento sobre as Testemunhas de Jeová, que a oposição dos adeptos da religião a se submeterem a transfusões de sangue violava as leis russas de saúde. Nada poderia estar mais longe da verdade. As Testemunhas de Jeová sempre foram conhecidas pela sua pregação de casa em casa e por rejeitar transfusões de sangue, mas poucos na verdade buscavam entender as razões disso e simplesmente os julgavam como fanáticos religiosos. Na verdade em todo o mundo as Testemunhas de Jeová faziam e continuam fazendo usos de diversos tratamentos médicos que não utilizam transfusões de sangue, e na maioria das vezes, são mais eficazes do que uma transfusão, mas os líderes políticos daquele tempo, incentivados pelos líderes religiosos da Igreja Ortodoxa Russa não queriam saber disso. Eles odiavam as Testemunhas de Jeová, demonstrando um fanatismo e um sentimento antirreligioso que os caracterizavam mais fortemente de serem extremistas do que os que eles acusavam.
Na época, as Testemunhas de Jeová eram umas 175 mil no país. Milhares foram presas, julgadas e condenadas a vários anos de prisão. Vasily e Natasha se mudaram para a cidade de Novgorod, bem distante da capital Moscou, há quase 600 km a noroeste da capital. Por um tempo continuaram seu trabalho de pregação com cautela, e ensinavam seu filho Mikail o que ele precisava saber para também ser uma Testemunha de Jeová fiel, independente das circunstâncias. Vasily sabia que a situação poderia piorar, assim como realmente aconteceu.
Quando Mikail tinha 5 anos e acompanhava seu pai na pregação, Vasily foi acusado por um morador de praticar proselitismo. O morador o segurou e o prendeu dentro de sua casa até a chegada da polícia. Mikail começou a chorar e pedir que o homem soltasse seu pai, mas Vasily manteve a calma e pedia ao jovem que se acalmasse e que tudo acabaria bem. Dois policiais russos chegaram e levaram Vasily e Mikail para a delegacia junto com sua bolsa, que continha a Bíblia, além de algumas publicações das Testemunhas de Jeová. Perguntaram a Vasily se ele era Testemunha de Jeová e com a resposta afirmativa, perguntaram se ele não sabia que as Testemunhas de Jeová estavam proibidas de manifestar sua fé e visitar outras pessoas. Vasily disse que estava apenas conversando com seus vizinhos sobre um mundo melhor que a Bíblia prometia. Um mundo onde as pessoas não precisavam ter medo de serem acusadas e levadas pela polícia junto com seus filhos pequenos por estar apenas conversando com seus vizinhos. Os policiais ficaram um pouco ruborizados com as palavras de Vasily, mas o deixaram trancado aquela noite para depois decidirem o que iriam fazer. Antes pediram o telefone de um parente para entrar em contato para buscarem o menino. Quando Natasha chegou, apanhou Mikail, que começou a chorar de novo. Ela pediu que ele se acalmasse e disse que estava tudo bem, que o papai não havia feito nada errado e que logo estaria solto.
Natasha tinha duas primas que estavam vivendo no Brasil. Vieram num intercâmbio de estudantes e decidiram ficar no país, no Estado de São Paulo, onde há uma grande comunidade russa. Calcula-se em mais de 300 mil russos vivendo na capital do estado. As primas de Natasha também são Testemunhas de Jeová. Casaram-se com brasileiros que acabaram por frequentar um Salão do Reino no bairro Bosque da Saúde, zona sul de São Paulo, onde as reuniões das Testemunhas eram feitas no idioma russo. Natasha decidiu que falaria com Vasily quando, e se, ele fosse solto, para que mudassem para o Brasil, a fim de criar Mikail livre para ser Testemunha de Jeová.
Vasily foi solto no outro dia, não sem antes receber ameaças dos policiais, que só o estavam deixando ir por causa do menino, mas que da próxima vez que o encontrassem “conversando com os vizinhos” ele e quem estivesse com ele seria preso, sem direito a saída da prisão desta vez. Quando chegou a casa, Natasha e Mikail o abraçaram fortemente e Natasha conversou com ele naquela noite sobre a possibilidades de eles mudarem-se para o Brasil. Ela havia ligado para uma das primas, Olga, que disse que eles seriam muito bem vindos e que estava ansiosa para vê-los e receber notícias do país. Olga e Tatianna eram irmãs e haviam perdido os pais num acidente quando ainda eram pequenas. Foram criadas pelo tio Nicolay. Nicolay fez arranjos para que as duas viessem ao Brasil no intercâmbio devido à perseguição sofrida pelos “irmãos” (como as Testemunhas chamam umas às outras). Vasily aceitou a sugestão de Natasha e fizeram arranjos para mudar-se para o Brasil. Ele avisou os “irmãos” o que pretendia fazer e eles o apoiaram, dizendo que o que ele decidisse, que o fizesse depois de orar a Jeová e tudo estaria bem. Ele agradeceu e abraçou a cada um dos “irmãos” da pequena congregação de Novgorod. Ele e Natasha venderam algumas coisas de valor que possuíam e foram a São Petersburgo e de lá, de trem para Moscou, onde Vasily visitaria Nicolay e contaria as notícias. Já havia oito anos que Nicolay estava na prisão. Vasily o visitou como parente carnal e alguns policiais que não o conheciam disseram para que ele convencesse seu irmão a desistir de ser Testemunha de Jeová, pois só assim seria solto. Mal sabiam eles que aquela visita de Vasily era o que Nicolay precisava para manter-se firme.Vasily contou a seu irmão o plano para chegar ao Brasil e Nicolay disse que ele deveria ir o mais breve possível e que mandasse suas lembranças e seu amor cristão às duas “meninas” Olga e Tatianna, e que dissesse a elas que ele estava bem, que a prisão não havia quebrantado sua fé em Jeová e que ele continuaria firme até a morte, caso acontecesse e que tinha esperança de vê-las de novo, nem que fosse na ressurreição. Ambos choraram muito. Não podiam se abraçar, mas o olhar de ambos mostrava que eles continuavam leais a Jeová, apesar da perseguição. Despediram-se. Ambos não imaginavam que essa seria a última vez que se veriam.
Em novembro de 2025, no final do outono russo e antes do inverno rigoroso, Vasily, Natasha e Mikail embarcaram num voo para o Brasil. O voo durou um pouco mais de 17 horas, o que deu tempo mais do que suficiente para Vasily e Natasha imaginarem como seria pregar em um país livre e agradecer a Jeová por terem conseguido escapar da violência russa contra as minorias e proteger seu filho Mikail. Essas lições que vivenciaram na Rússia seria muito proveitosa no Brasil, não naquele momento, mas um dia.
Quando chegaram ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, Vasily, Natasha e Mikail foram recepcionados por quase uma dezena de “irmãos” na fé, incluindo as parentes carnais Olga e Tatianna, com seus maridos Olavo e Fabrício, respectivamente. Todos ficaram muito felizes. Os três foram levados para o bairro Praça da Àrvore, onde moravam Olavo e Olga e já estava preparada uma recepção para eles. Apesar do cansaço, Vasily e Natasha ficaram bem agradecidos e choraram por diversas vezes, não sabendo o que dizer para os “irmãos”. Mikail dormiu logo que chegou a casa.
Logo o tempo passou, os “irmãos” foram indo embora, ficando apenas os três recém-chegados, mais Fabrício e Tatianna, além dos anfitriões. Apesar da dor de saber que seu tio ainda estava preso, Olga e Tatianna ficaram felizes por receber boas notícias da lealdade de seu tio a Jeová. Choraram muito de emoção naquela noite. Olavo e Fabrício não paravam de fazer perguntas a Vasily como era a pregação, as reuniões e outras atividades num país onde a obra estava proscrita. E Vasily, mesmo cansado falava com alegria sobre os irmãos russos e a atitude deles em relação à perseguição. Fabrício comentou que os russos do território brasileiro eram diferentes dos russos da Rússia. Talvez por medo, os habitantes da Rússia eram apáticos, alguns bem mal-educados no que se referia até a uma conversa. Talvez tivessem medo de serem vistos conversando com uma Testemunha de Jeová e serem presos também. Mas no Brasil não tinham esse problema. Muitos aceitavam publicações, conversavam abertamente sobre sua fé e aceitavam conversar sobre pontos bíblicos que queriam explicações. Alguns aceitavam estudar a Bíblia e um punhado desses tornou-se Testemunha de Jeová.
Com o passar dos Anos, Vasily, Natasha e Mikail sentiram amor pelos “irmãos” brasileiros, sem nunca se esquecer dos que haviam ficado na Rússia. Aos 66 anos, no ano de 2053, Vasily sofreu um infarto fulminante e não sobreviveu, deixando Natasha viúva, mas bem cuidada pelo filho Mikail, que já estava com 33 anos e servia no Betel (nome dado às filiais das Testemunhas de Jeová espalhadas pelo mundo) do Brasil em Cesário Lange, São Paulo, junto com sua esposa Juliana no departamento de tradução. Ele pensou em deixar Betel após a morte do pai, mas sua mãe disse que não. Que ela ficaria bem, já que ainda estava forte e morava perto da prima Olga. A cada quinze dias Mikail a visitava, o que lhe dava muita alegria. Durante todo o período em que vivem no Brasil, Mikail e sua mãe aprenderam muito com seu pai o que é servir a Jeová durante perseguição, lições que servirão muito bem no futuro, uma vez que o Brasil, país supostamente democrático, que passou por inúmeros regimes ditatoriais de esquerda e direita estava próximo de promulgar uma lei proibindo todas as religiões de professarem sua fé. Apenas dois anos depois, em 2055, isso aconteceu. As religiões foram proibidas, o estado declarado laico em todas as esferas e o medo tomou conta de um país que se considerava livre. No caso das Testemunhas de Jeová, Salões do Reino foram fechados, assim como o Betel, forçando todos os “irmãos” voluntários a sair, voltando para suas casas. Mikail voltou a São Paulo onde encontraria sua mãe e começariam a colocar em prática aquilo que seus pais fizeram 38 anos antes na Rússia: Pregar e se reunir escondidos e com cautela, pois como aplicavam a Bíblia e especialmente o livro de Atos 5:29 escrito por São Paulo: “Pedro e os outros apóstolos responderam: Temos de obedecer a Deus como governante em vez de a homens.” Mikail e todos os “irmãos” brasileiros estavam dispostos a seguir estas palavras. Haviam aprendido do exemplo da Rússia sobre perseguição e estavam prontos a colocar em prática os mesmos esforços dos “irmãos” russos para manterem lealdade ao seu Deus Jeová.
 
 
----------FIM----------
 
Parzival
Enviado por Parzival em 04/10/2019
Reeditado em 04/10/2019
Código do texto: T6761004
Classificação de conteúdo: seguro

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