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Enchente

Estava olhando o rio. A água límpida corria tranquila entre as rochas. O solo seco chamava atenção em contraste com a água azulada de tão pura.
O rio começou a subir e vir de encontro aos meus pés próximos a margem. Dei um passo para trás e o rio veio ao meu encontro. Senti que tinha algo errado na elevação do nível da água.
Estava do lado oposta a cidade, numa várzea que logo seria inundada. Comecei a gritar para a multidão do lado que estava fugisse para o outro lado.
Havia uma ponte para travessia de pedestre, com cerca dois metros de largura com uns 100 metros de comprimento. As pessoas corriam pela ponte e percebi que várias delas não iam consegui chegar ao outro lado. No meio do rio já passava água em grande correnteza que derrubava as pessoas da ponte.
Havia alternativa. Era uma ponte pencil de corda com base de tiras de madeira, muito mais alta que a principal.
Peguei as crianças menores e coloquei numa espécie de estilingue elevador, para alcançar a ponte. Crianças maiores esperavam as menores, na ponte, e retirava-as da cadeirinha, e iam seguindo o caminho de fuga sob o comando de meus gritos.
Uma menininha foi deixada para trás pelos pais. Eu a agarrei. Era pequena e frágil. Vertia só uma calcinha. Ela segurou firmemente em mim e não conseguia coloca-la no elevador. Após algumas tentativas, consegui finalmente ergue-la, sobre seus gritos de recusa ao acionar o elevador de crianças. Subi um paredão de pedra para alcançar a ponte. Estava cançada, tudo doía. Alcancei a ponte e agarrei três crianças no colo, a menininha e outras duas maiores, tentando alcançar a margem oposta. O rio continuava subindo fazendo ondas levando o que sobrou da ponte principal junto com uma multidão de desesperados.
Sabia que também não conseguiria, mas tinha que continuar tentando salvar as três crianças. Estava disposta a morrer tentando isso. Meu corpo estava pesado. Minhas pernas tremiam e doíam. Estava molhada e com frio. O vento me sacudia junto com a ponte. Nada importava. Aquelas crianças só tinham a mim como esperança. Havia uma multidão seguia atrás e
a frente. Ouvia gritos o rio atingindo a ponte pencil também. A outra já estava submersa. Continuava.
Atingi a frágil margem onde havia muitas pessoas que pararam de subir esperando descansar da corrida e acreditando estar salva. O rio não parava de subir. Três crianças pesadas freavam minha corrida.
Parecia que só eu sabia que havia uma barragem rio acima que possivelmente rompera.
Não havia tempo de explicar só gritar. Meu grito podia salvar alguns.
Na margem do rio um pelotão do exercito armado indicava a direção obrigatória para fugir, seguir na margem do rio abaixo.
Percebi que os soldados estavam com um olhar triste como se indicassem o caminho da morte. Eles sabiam que iam morrer também. Estavam ali esperando pela inundação.
Senti a terra ceder em meus pés. Vai desmoronar, pensei, havia rachadura no solo e umidade saindo delas. Um casal me tomou duas crianças maiores do colo dizendo ser os seus filhos. Não discuti e entreguei. Aumentara a minha chance de salvar a menininha.
Mostrei o caminho lateral e apontei para cima e que me seguisse. Não sabia o que era seguro. Era pura intuição.
A menina se agarrava-se a mim, sentia que ela fazia parte da minha própria carne.
Precisava de energia para continuar fugindo. Num olhar para trás, vi a terra cedendo no rio levando as pessoas que seguia pela margem e em sequencia o pelotão.
Alcancei quase p topo do morro numa rua cheia das casas coloridas.
Respirei profundamente afinal. Conseguimos menininha. Olhei a volta novamente. Havia poucas casas em pé e pouca gente perdida que nem eu.
A minha frente as casas começaram a se inclinar para a direita. Gritei para saírem que as casa iam tombar.
Fui até o centro da rua olhei o outro lado. As casas estavam tombando para sentido contrário. Ouvia os estalos, os gritos.
Corri até o fim da rua, no ponto mais alto e vi que se partia ao meio. Entrei numa edificação branca e circular. Era um restaurante de luxo. Do que sobrara do hotel. Todos pareciam estar alheios aos acontecimentos.
A menininha estava molhada e fria. Abriu os olhos e chorou: to com fome.
Pedi um pouco de comida para ela a um casal que jantava um prato Frances todo decorado, alheios a toda aquela destruição. Vou lhe dar dinheiro para comprar comida para a menininha. Nosso jantar não pode ser interrompido. O dinheiro foi posto em minha mão para alimentar a menininha. Aticei fora. Queria apenas um pouco de alimento. Dinheiro não tinha valor, naquela hora. O restaurante perdeu a estabilidade e começou a girar, lentamente depois foi aumentando a velocidade e descendo. Não tinha tempo de tentar salvar ninguém. Precisava cuidar da menininha. Arrombei a porta e soltei para o vazio. O restaurante sumiu na terra. Me agarrei a uma estrutura metálica que parecia boiar. Não entendi porque estava firme. A água começou a reduzir. Havias algumas pessoas em objetos flutuando em volta. Um pequeno pedaço de terra apareceu. Precisava cuidar da menininha. Olhei para ela, que tentou sorrir agradecida como se percebendo de eu estar envolvida de amor por uma menina tão pequena e tão frágil. Ela suspirou e morreu em meus braços. Estava só e me sentindo incapaz de salvar a menininha. Não sabia o que fazer. Tentei me virar para ver o que sobrou da enchente e acordei confusa e chorando.
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A Regina Michelon
Enviado por A Regina Michelon em 24/10/2012
Código do texto: T3950135
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Sobre a autora
A Regina Michelon
Simões Filho - Bahia - Brasil
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A Regina Michelon

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