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O Bagaço do Laranja

Ollie era um bêbado da vizinhança, uma daquelas pessoas que vivem entrando e saindo dos Alcoólicos Anônimos, mas nunca consegue manter a sobriedade além de alguns meses. Indiquei-o para Jack como um laranja perfeito para a nossa organização criminosa: se fosse preso e nos delatasse, quem daria crédito a um bêbado?

- Mas teremos que contar algo da operação, já que o dinheiro irá cair na conta dele - alertou Jack.

- Podemos inventar alguma coisa, sobre venda de eletroeletrônicos usados - sugeri. - Para não pesar no imposto de renda, o dinheiro das vendas teria que cair na conta de um terceiro, e pagaríamos uma porcentagem sobre cada depósito.

- Uma comissão... - refletiu Jack.

- E aí, ele saca a diferença em caixas eletrônicos de postos de gasolina, e nos entrega em dinheiro vivo.

- Realmente, não faria sentido transferir para as nossas contas - aprovou Jack.

Fomos conversar com Ollie.

- Vocês vão vender o quê? - Indagou ele desconfiado, ao nos receber em seu apartamentinho sujo.

- Contrabando, muamba - resumi. - Se a Receita Federal rastrear a movimentação financeira nas nossas contas, podemos ter problemas com o fisco.

- E por que eu iria assumir esse rabo de foguete para vocês? - Questionou.

- Porque nós vamos lhe pagar uma comissão - replicou Jack.

Ollie levou a mão ao queixo, já mais interessado.

- Quanto?

Eu e Jack nos entreolhamos. Não tínhamos ainda chegado a um acordo sobre o porcentual.

- Começamos com 5% sobre cada transação - sugeri. - Até 1.000 dólares. Acima disso, 2,5%.

- E qual a possibilidade de acontecer um depósito maior do que 1.000 dólares? - Inquiriu Ollie.

Nem eu nem Jack sabíamos.

- Então, quero 5% para cada depósito, de qualquer valor - retrucou ele.

Fiz um sinal para que Jack aceitasse. Afinal, se Ollie começasse a nos dar trabalho, sempre poderíamos conseguir outro laranja para o seu lugar.

- Negócio fechado - decidiu Jack.

Ollie abriu um sorriso de dentes amarelados.

- Vamos precisar dos seus dados bancários - adverti.

Ollie coçou o queixo barbado.

- Isso vai ser um problema... eu não tenho mais conta em banco.

- Ficamos quase meia hora discutindo a questão dos depósitos e só agora você nos diz isso? - Irritou-se Jack.

Ollie deu de ombros.

- Eu precisava saber até onde vocês iriam chegar.

Eu sabia: até o ponto de ter que abrir uma conta para Ollie. Informei isso para Jack.

- Está bem - ele levou a mão à testa como que para afastar maus pensamentos. - Espero que tenha um terno limpo, Ollie; precisaremos que vá até um banco abrir uma conta. Carteira de motorista, cartão do Seguro Social e comprovante de residência você tem, suponho?

Felizmente, ele tinha tudo isso.

[Continua]

- [22-06-2020]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 22/06/2020
Código do texto: T6985189
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo