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Doutor Almeida

-O que a gente faz com esse cara?

-Vamos dar o fim nele!

Pedro estava todo mijado. Que azar! Estava voltando para casa depois de mais uma noite de trabalho, era garçom há mais de trinta anos, quando chegou do Pernambuco. Mas se fosse só isso, andar de madrugada na rua não é crime, porém a labirintite estava atacada, e os policiais, quando o viram na rua, em plena noite profunda andando como bêbado, não tiveram dúvidas : deram-lhe um safanão e jogaram-no para dentro da viatura.

-Vagabundo, ô, vagabundo?

-Não sou vagabundo, senhor. Sou gar...

-A gente vai te matar e jogar seu corpo lá na Represa. Ninguém vai nem ver.

-Mas, senhor...

-Cala a boca! Vai rezando, rezando baixinho só pro Santo escutar, que eu já não quero ouvir mais nada de você. Vagabundo! Morto não fala, porra!

Pedro calou-se. Dois policiais iam no banco da frente, ele ia atrás junto de outro policial, um caladão com cara de mau. Pedro tinha dado uma olhadela no rosto do sujeito, para quê? Foi naquele momento que se mijou. O cara tinha os olhos vermelhos como duas brasas, parecia o próprio Diabo. Não podia rezar, não era religioso, preferiu olhar pela janela da viatura. O carro subia e descia por umas ruazinhas que careciam de asfalto, margeadas por muitos casebres onde numerosas famílias viviam amontoadas. Pedro pensou em como quase não havia mobília em sua casa, pensou como a rua estava escura e deserta, triste. Estavam chegando à Represa. E por que ele? Era trabalhador, mas mesmo que fosse vagabundo, vadiagem não é motivo para pena de morte! Aqueles covardes só atacavam pobres, queria ver se ele fosse patrão! E quando pensou nisso, seu rosto se iluminou, havia encontrado a solução para o seu problema.

-Vocês não sabem com quem estão mexendo! Até agora fiquei tranquilo, mas já começam a me irritar.

-Porra, eu não tinha mandado calar a boca? Olha que te mato aqui mesmo!

-Aqui não Capitão, que já estou chegando. O último que o senhor matou no carro foi um trabalhão para limpar depois.

-Está chegando nada, que o centro da cidade, onde vocês vão me deixar, fica bem longe daqui. Pode dar meia volta, agora!

O policial que tinha cara de Diabo espantou-se, o cara do norte devia estar em choque, enlouqueceu de medo.

-Levem-me para o centro e não conto de vocês, irei perdoar-lhes, que não sou má pessoa. O... Doutor Almeida... nem vai ficar sabendo, deixamos elas por elas. Caso contrário...

O silêncio reinou dentro daquela viatura. E se fosse verdade que o pernambucano tinha padrinho forte? Quem diria, Capitão Silva achava que o cara tinha as costas mais frias que a Groelândia. Mas como ter certeza? Eram tantos doutores para os quais ele tinha de baixar a cabeça, tantos Doutor Almeida, Doutor Carlos, Doutor Oswaldo. Porra, parecia que tinha mais doutor que vagabundo, que o país inteiro era formado por doutores e que em alguns anos mais já não restaria ninguém que ele pudesse matar e jogar nas águas turvas da Represa.

-Você tinha dito que era garçom. Tinha ou não tinha, Cabo Evandro?

-Tinha, sim senhor.

-Garçom? Estava indo fazer um servicinho pro Doutor Almeida, vocês querem que eu conte o que ia fazer?

Os três policiais gritaram “NÃO”, e a viagem seguiu em silêncio por mais alguns minutos, até que o Capitão Silva decidiu falar:

-Se te levamos ao centro da cidade, você promete esquecer esse mal-entendido?

-Prometo, Doutor Almeida não será informado sobre esse.... mal-entendido.

A viatura deu meia volta e seguiu caminho o mais rápido que pôde, em pouco menos de meia-hora estava no centro da cidade.

-Desculpe qualquer coisa, envie meus cumprimentos ao Doutor Almeida. Adeus!

Pedro estava novamente em liberdade, mais um dia começava, o sol pálido do inverno alumiava parcamente os edifícios decrépitos.

estebandonatoardanuy.blogspot.com
Esteban Donato Ardanuy
Enviado por Esteban Donato Ardanuy em 09/06/2020
Código do texto: T6972216
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Sobre o autor
Esteban Donato Ardanuy
São Bernardo do Campo - São Paulo - Brasil
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Esteban Donato Ardanuy